24/12/2025
Nos últimos dias, o Brasil discutiu intensamente os pés das Havaianas.
Timeline em ebulição. Especialistas improvisados em marketing, moral, estética e “limites da propaganda”. Teve indignação, defesa apaixonada, cancelamento, promessas de boicote eterno. Um debate nacional. Paixões à flor da pele, ou melhor, do calcanhar.
Enquanto isso, 2026 vai chegando silenciosamente.
Sem campanha chamativa. Sem vídeo viral. Sem hashtag. Apenas uma nova tabela do Imposto de Renda sendo desenhada longe dos holofotes, mas perigosamente perto do bolso de quem trabalha, paga boleto e estica o mês até o último dia.
A propaganda virou escândalo.
A tabela virou rodapé.
Isenção até cinco mil. Justo. Necessário. Um avanço.
Redução até sete mil e trezentos e cinquenta. Um alívio parcial.
Passou disso? Acabou.
Quem ganha um pouco mais , não o rico de verdade, mas o cidadão comum que paga aluguel, plano de saúde, escola, mercado, impostos e inflação , vira “alta renda” por decreto. No papel, sobe de classe. Na vida real, continua no mesmo aperto.
A propaganda das Havaianas expôs pés.
A tabela do IR expõe algo bem mais sensível: a fragilidade da chamada classe média.
Mas isso não gera engajamento. Não viraliza. Não dá like fácil.
É mais confortável discutir um anúncio do que encarar um sistema tributário que cria degraus, não progressão. Que ajuda embaixo, mas ignora o meio. Que chama de justiça o que, na prática, empurra sempre os mesmos para pagar a conta.
Talvez o problema não seja a propaganda.
Talvez seja onde colocamos nossa atenção.
Enquanto o debate f**a no pé,
2026 chega pelo bolso.
Sem aviso. Sem trilha sonora. Sem close bonito.