A Sociedade Epicuréia inspira-se no romantismo do excêntrico poeta George Gordon Byron (1788-1824). Lord Byron, como era conhecido, cultivava a beleza do horror, do repulsivo, do monstruoso, do satânico. Cultivava a energia rebelde, numa contraposição à estética clássica, à passividade, à inércia.Criada pelos grandes pilares da nossa literatura como Alvares de Azevedo e Bernardo de Guimarães.A Soc
iedade Epicureia conhecida também como Sociedade Secreta dos Discípulos de Byron. "Ponto de encontro entre a
literatura e a vida, onde os jovens procuravam dar realidade às imaginações românticas". Esta frase do crítico literário Antonio Cândido publicada no Estado de São Paulo de 25 de
Janeiro de 1954, resume num ponto de vista, o que foi a Sociedade Epicuréia. A Faculdade de Direito,
instalada no antigo Convento de São Francisco, abrigava jovens vindos de diversas partes do Brasil. Acomodados em pequenos quartos das repúblicas, os estudantes viam-se distantes do olhar recriminador
da família. Aliada a liberdade, a atmosfera austera e sombria de uma São Paulo com no máximo 15 mil
habitantes, os elementos suficientes para o cultivo e propagação da imaginação se faziam presentes. Neste
caso, manifestada na literatura, e talvez, na vida real. Um grupo criado em 1845, composto por boêmios universitários liderados pelos seus fundadores Aureliano Lessa, Bernardo Guimarães e Álvares de Azevedo, se intitulava
Sociedade Epicuréia. A Sociedade Epicuréia foi criada durante a 2ª fase do Romantismo no Brasil (1850-1860),
considerada um grupo para reuniões entre os poetas da época. Sendo um verdadeiro ponto de encontro para os jovens
estudantes, a sociedade não prezava apenas a velha e boa arte literária, mas também cultivava outros hábitos entre seus
membros. O termo Epicuréia provém do nome Epícuro, um grande filosofo grego que tinha como principal teoria a defesa
dos prazeres terrenos e do materialismo. Assim, a sociedade era considerada um grupo para a prática de orgias, culto ao
macabro e representava o point das noites boemias do mal do século. Cerimônias macabras regadas a muita bebida
alcoólica e tabaco também embalavam a vida dos jovens. A Sociedade Epicuréia contava com a presença de prostitutas,
que participavam de ritos nas necrópoles paulistas. Os encontros eram marcados pelo culto à noite, onde os aspectos
mórbidos da existência eram abordados nas poesias. Dessa forma, os jovens estudantes de Direito se submetiam à evasão
da realidade, optando pelo sonho, loucura ou até mesmo a morte. Para o membro da Sociedade, o óbito não representava
uma fatalidade, mas sim uma chance de acabar com o tédio da vida, com as limitações terrenas. Os membros da sociedade
costumavam ler romances de Lord Byron, um hábito que influenciou na criação literária estudantil da época. Álvares de
Azevedo foi fruto da Epicuréia, afinal, ele desenvolveu o seu estilo entrando em contato com a filosofia da sociedade. Muitos universitários seguiram a linha de Álvares de Azevedo, aproveitando as noites sem se preocupar com a saúde ou
com a realidade da burguesia da época. Assim, muitos membros da Epicuréia acabaram morrendo jovens, vítimas de
tuberculose. Até Álvares de Azevedo tinha o curioso costume de anotar os nomes dos colegas que faleciam nas paredes
da Faculdade de Direito. Muitas lendas cercam o que poderia ter sido a Sociedade Epicuréia, algumas relatam cultos
dionisíacos, recitais fúnebres, invocações macabras, orgias intermináveis, uso exacerbado de álcool, entre outras
polêmicas, são estes alguns dos relatos que cercavam a casa onde se reuniam diversos poetas e promissores escritores de
nossa literatura na época. Sua sede era conhecida por Chácara dos Ingleses, porque seu primeiro morador foi o inglês
John Rademacker, e ficava na Rua da Glória (hoje Praça Almeida Júnior), defronte a um cemitério de indigentes e de
escravos. Seus membros tinham a peculiaridade de chamarem-se uns aos outros pelos nomes de personagens das obras de
Lorde Byron em suas reuniões fechadas, pois o intuito era colocar em prática as extravagantes fantasias do mundo
literário do poeta inglês. Além de tudo, realizavam ainda manifestações artistas macabras pelas ruas de São Paulo e
reuniões cerimoniais nos cemitérios paulistanos. Como já dito antes, as sessões realizadas na Chácara dos Ingleses e em
outras repúblicas da periferia pelos membros da Sociedade Epicuréia abalaram e muito a pacata São Paulo da época. O
cerimonial obedecia algumas das orientações byronianas. Na casa eram soltos gatos pretos, sapos, corujas, morcegos,
urubus, cobras, lagartixas e tudo quanto é bicho do folclore do horror. Entre uma declamação e outra de poemas, o vinho
era servido em caveiras roubadas do cemitério de indigentes. Havia brindes a Baco, a Epicuro e a Sileno. Do lado de fora,
sem entender nada e com medo, ficavam os escravos dos estudantes. Em algumas sessões, havia encenações d'A Divina
Comédia. Em outras, enquanto alguns estudantes corriam pela casa imitando animais, Bernardo cantava canções
macabras e Álvares de Azevedo lia contos de horror. Verdade? Boatos? Bem, falácia ou não, esses fatores contribuíram
para que fosse criado um caráter profano e de má reputação ao redor da Sociedade Epicuréia e seus membros. Porém, os
fatos combinam-se com os mitos e a veracidade das informações fica comprometida ao analisarmos alguns fatores. Diziase que haviam embriagado uma meretriz e a levaram secretamente para um cemitério. Numa cerimônia macabra, onde
vinho e tabaco eram componentes essenciais, consagraram a prostituta como Rainha dos Mortos, envoltos na fria neblina
da madrugada paulistana. O fato significativo a ser destacado, é que a Sociedade Epicuréia é considerada por alguns, um
grupo ou um período, onde se consolidou uma intensa e virtuosa produção literária estudantil. Até hoje, não houve um
fenômeno de grandiosidade semelhante; e provavelmente não haverá. Isto porque a capacidade daqueles jovens poetas é
incontestável, e o romantismo que circundava a outonal São Paulo daqueles tempos, jamais voltará à cena. Na Epicuréia
estavam: Álvares de Azevedo, Andrada e Silva, Aureliano Lessa, Bernardo Guimarães, Bittencourt Sampaio, Castro
Alves, Fagundes Varela, João Cardoso de Meneses e Sousa, M.S. Mafra, Múcio Teixeira, Pires de Almeida, Teodomiro Alves Pereira e Zoroastro Pamplona, entre outros