04/07/2024
A TRAGÉDIA NATURAL(IZADA) - Quantas notas precisarão ser escritas?
Nota da rede de coletivos do Morro Santana: Preserve Morro Santana (programa de
extensão da UFRGS), Coletivo Mães da Periferia, Resistência Popular Comunitária, A Voz
do Morro, Retomada Gãh Ré, Coletivo pela Educação Popular (COLEP), Erês Aiyê
Juventude, Centro Espírita de Umbanda São Miguel Arcanjo, Caminho dos Morros de Porto
Alegre
Ontem (03/07), uma queimada de grandes proporções atingiu a face norte do MorroSantana. O fogo iniciou por volta do meio-dia em uma área de campo nativo pertencente aUniversidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e foi se alastrando ao longo do dia.Um dos satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) conseguiu captar ofoco às 17h22, quando atingia a magnitude de 6.1 FRP (Potência Radiativa do Fogo).Moradores relatam que passaram o dia tentando acionar o corpo de bombeiros, mas queeste só conseguiu acessar o local por volta das 19h30, quando o fogo já havia se espalhado
por uma grande área e corria o risco de atingir moradias.
É possível que essa tenha sido a maior queimada que já presenciamos desde o surgimentodo Preserve Morro Santana, superando inclusive a de março de 2020. As imagenscircularam rapidamente pelas redes sociais provocando uma grande comoção por parte dapopulação. No entanto, gostaríamos de alertar a todos que se solidarizaram que este não éum evento isolado. Para nós, é exaustivo escrever sobre um problema que se repete anoapós ano, sem que soluções sejam apresentadas pelo poder público.
Uma pesquisa realizada por um integrante do Preserve Morro Santana identificou quehouve pelo menos 25 incêndios com proporções significativas na vegetação dos morros dePorto Alegre entre 2015 e 2020, sendo 9 destes no Morro Santana. Outro levantamento
mais recente, baseado nas ocorrências registradas no twitter do Corpo de Bombeiros,aponta 5 ocorrências de queimadas em vegetação no Morro Santana entre abril de 2023 efevereiro de 2024. A tendência é que esses números sejam subestimados, já que nem
todos os incêndios são noticiados pela mídia, e nem todas as ocorrências do Corpo deBombeiros são relatadas no twitter.
Para compreender esse problema de forma estrutural, gostaríamos de chamar atenção para
alguns elementos que costumam se repetir a cada evento:
1. A negligência por parte do Corpo de Bombeiros:
Os relatos de ontem, não pela primeira vez, são de uma comunidade que passou horastentando acionar o Corpo de Bombeiros e que não teve sua demanda atendida. Asprimeiras ligações ocorreram por volta do meio-dia, quando o foco ainda estavaconcentrado numa pequena área do topo do morro. Uma guarnição foi enviada por voltadas 16h30, mas acabou atolando na estrada e foi embora. Os bombeiros só conseguiramacessar, de fato, o local por volta das 19h30 quando o fogo já havia se espalhado
completamente. São inúmeros relatos de moradores que tentaram ligar para o 193 e ou nãoforam atendidos ou o telefone estava fora de área. Alguns relataram que o atendentedesligou na cara das pessoas. Era noite quando três caminhões de bombeiros sedistribuíram por diferentes regiões do morro para tentar conter as chamas. Porém, mais uma vez, os equipamentos da corporação pareciam insuficientes e as chamas só foramcontidas com auxílio dos moradores que precisaram emprestar abafadores para osbombeiros.
No caso de queimadas em áreas rurais é comum que a população tenha treinamento eequipamentos como abafadores, além da prática das queimas controladas para evitar oacúmulo de biomassa no solo. Por que os governos municipal e estadual, em conjunto com
o Corpo de Bombeiros, não tem um planejamento para lidar com essas queimadas em áreaurbana? Como já levantamos, esse é um problema crônico: o Corpo de Bombeiros estáinformado de que todos os anos ocorrem dezenas de queimadas nos morros, é obrigaçãodeles ter treinamento e infraestrutura para lidar com isso.
2. A dificuldade em apurar a origem do fogo:
Outra questão recorrente em todos esses eventos é a dificuldade de apurar a origem dasqueimadas. Como o fogo começou? Como distinguir um incêndio criminoso de um acidentalou de uma combustão espontânea? Algumas justificativas são apresentadas pelo Corpo deBombeiros como condições climáticas (umidade relativa do ar, vento, calor…) e possíveis
ações humanas (criminosas ou não) que podem ter originado a combustão.
De acordo com ecologistas, uma das características dos campos nativos é o acúmulo debiomassa no solo, que sem o devido manejo pode facilitar a propagação do fogo. Emresumo, a vegetação campestre é adaptada ao fogo e está apta a regenerar-serapidamente. O que gostariamos de chamar atenção é para o fato de que por ser
considerado um processo “natural”, muitas vezes acaba-se minimizando o aspecto “social”
da questão (utilizamos aspas porque sabemos o quanto essa separação entrenatureza-sociedade é limitante).
Observamos no discurso do Corpo de Bombeiros uma recorrente normalização desses
eventos como justificativa para sua negligência: “o local é de difícil acesso”, “o fogo atingiu
somente vegetação”, “não há risco para as residências”, são algumas das desculpas
apresentadas para minimizar o problema. Porém a realidade é outra. Trata-se de uma
vegetação campestre inserida (e pressionada) pela malha urbana, em um morro onde vivem
dezenas de milhares de pessoas, incluindo os indígenas da aldeia Kaingang Retomada Gãh
Ré.
3. Racismo ambiental
Ontem o fogo chegou a poucos metros de muitas casas da região do Borel e da Rua Gildo
de Freitas e o que se via era desespero. A cada incêndio, pessoas precisam sair correndo
de suas casas e passam mal devido a inalação de fumaça (por vezes chegando a
desmaiar). Nos dias seguintes, muitas pessoas relatam seguir com dificuldades
respiratórias, isso para além do fator psicológico, já que eventos como esse são
profundamente traumáticos para quem os vivencia. Outro agravante é que animais nativos
tentam se refugiar do fogo buscando abrigo em casas da comunidade e algumas vezes
chegam a ser atropelados.
E não é nenhuma novidade que quem mais sofre com os eventos climáticos extremos sãoos mais pobres, que devido a falta de políticas de habitação popular são pressionados a
morar em locais de risco. É por isso que vemos cada vez mais moradias na encosta do
morro, onde a água não chega, mas o fogo queima. Os riscos ambientais provenientes do
acesso precário à infraestrutura urbana (deslizamentos, alagamentos, queimadas…) estão
concentrados nas “áreas de risco”, onde se concentra majoritariamente a população negra e
indígena, lógica que reflete o racismo ambiental em nossas cidades. Em muitos casos, são
essas mesmas populações (periféricas, negras, indígenas, quilombolas) que atuam no
sentido da preservação dos seus territórios, com pouco ou nenhum apoio do poder público.
No Morro Santana, o povo Kaingang é um dos grandes protetores dos campos, matas e
nascentes e luta há décadas pela demarcação da Terra Indígena.
Conhecemos a realidade do Morro Santana e sabemos que existem fatores específicos que
podem contribuir para a propagação do fogo, como o acúmulo de lixo nas trilhas, a prática
de motocross e a disseminação da espécie exótica Pinus elliotti. No entanto, para
compreender melhor a complexidade, algumas perguntas precisam ser respondidas: como
esses fatores locais interagem com os fatores ambientais mais amplos, como as mudanças
climáticas, ampliando pequenos focos de incêndio para queimadas de grande escala? Oaumento na frequência e intensidade das queimadas está diretamente ligado à urbanizaçãointensiva de Porto Alegre? A flexibilização das políticas de conservação ambiental em favorde uma cidade orientada pelo mercado influencia o fenômeno das queimadas? É
imprescindível que sejam feitos estudos e investigações aprofundadas buscando
compreender os fatores que tornam este fenômeno mais suscetível a ocorrer, não apenas
para o desenvolvimento de medidas de prevenção e mitigação, mas também paradiferenciá-lo de possíveis incêndios criminosos.