Mulheres na História

Mulheres na História Mulheres na História celebra trajetórias femininas que transformam e desafiam o mundo.

Da ciência às artes, da política ao ativismo, elas romperam barreiras e deixaram legados que inspiram gerações através dos séculos.

Vem ler com a gente!                                                                                                    ...
28/01/2026

Vem ler com a gente! Eliete: A Vida Normal, de Dulce Maria Cardoso, é um romance que desmonta a ideia de normalidade sem nunca precisar levantar a voz. O livro acompanha Eliete, uma mulher comum, com trabalho, família e rotinas aparentemente estáveis, que decide se inscrever em um site de relacionamentos. Esse gesto simples — quase banal — funciona como a rachadura por onde a narrativa escorre para territórios muito menos confortáveis.

A grande força do romance está no olhar clínico lançado sobre a vida cotidiana feminina. Eliete não é uma personagem excepcional, e é exatamente isso que a torna perturbadora. Ela vive a invisibilidade silenciosa de muitas mulheres maduras: não falta nada de forma explícita, mas algo essencial parece sempre fora do lugar. O casamento, a maternidade, o trabalho e o corpo vão sendo narrados sem dramatização, como quem descreve móveis antigos que ainda estão de pé, mas já não sustentam o peso de quem vive ali.

Dulce Maria Cardoso escreve com precisão cirúrgica. A linguagem é econômica, direta, quase seca, e por isso mesmo profundamente eficaz. Não há grandes acontecimentos nem reviravoltas espetaculares; o drama se constrói nos detalhes, nas pequenas concessões, nos pensamentos que não são ditos em voz alta. A autora confia no leitor e não oferece alívio moral. Eliete não é julgada, explicada ou redimida — ela é apresentada.

O uso do site de relacionamentos não aponta para uma história de romance ou libertação, mas para uma investigação mais incômoda: o desejo como tentativa de existir. O que Eliete busca não é exatamente o outro, mas um reflexo que a confirme como alguém ainda visível, ainda desejável, ainda viva. Nesse sentido, o livro dialoga diretamente com temas como solidão, envelhecimento feminino, construção da identidade e os efeitos psíquicos de uma vida moldada para caber em expectativas alheias.

Eliete: A Vida Normal é um livro que provoca desconforto porque não oferece catarse. Ele se encerra como começou: com a sensação de que a normalidade é um acordo frágil, mantido à custa de silêncios profundos. Dulce Maria Cardoso entrega uma narrativa madura, inquietante e extremamente atual, que faz o leitor se perguntar, sem respostas fáceis, quantas ELIETES atravessam nossas vidas — ou quantas vivem dentro de nós, desempenhando com competência um papel que já não nos representa.

Início: 6 de março às 19 horas
Plataforma Google Meet
Encontros quinzenais - Sexta feira
Coordenação: Psicóloga Regina Lopes
Livro em PDF e material de apoio
Investimento: R$ 100,00 mensal

Querida leitora,O Clube de Leitura Elas em Palavras  convida você para uma leitura arrebatadora!Eliete – A Vida Normal, ...
26/01/2026

Querida leitora,O Clube de Leitura Elas em Palavras convida você para uma leitura arrebatadora!Eliete – A Vida Normal, de Dulce Maria Cardoso, é um romance que disseca, com precisão psicológica, a vida de uma mulher comum: esposa, mãe, profissional, funcional. Tudo aparentemente no lugar. Tudo silenciosamente fora do lugar.Eliete cumpre papéis, responde expectativas, mantém a engrenagem girando. Mas, por dentro, algo não encaixa. O livro toca em temas que atravessam muitas mulheres contemporâneas: invisibilidade, solidão, desejo, frustração, culpa, adaptação excessiva e a sensação de viver uma vida que foi “organizada”, mas não escolhida.No clube, a leitura não será apenas literária. Vamos trabalhar o texto a partir de reflexões psicológicas e sociais, explorando:a construção da identidade femininaos efeitos do silenciamento emocionala normalização do vazioe o custo psíquico de sustentar uma vida “funcional”Informações do Clube de Leitura – Março
Livro: Eliete – A Vida Normal (Dulce Maria Cardoso)
Encontros quinzenais
Sextas-feiras, às 19h
Livro em PDF
Material de apoio incluídoUm espaço de leitura, escuta e pensamento crítico — sem pressa, sem respostas prontas, sem a obrigação de estar bem.Se você sente que certas perguntas não cabem na rotina, mas insistem em aparecer, este grupo é para você.Atenciosamente,
Regina Lopes

Clarice Lispector (1920–1977) foi uma das maiores escritoras da literatura brasileira do século XX. Com uma escrita inov...
29/10/2025

Clarice Lispector (1920–1977) foi uma das maiores escritoras da literatura brasileira do século XX. Com uma escrita inovadora e intensamente poética, rompeu com os modelos narrativos tradicionais e transformou a linguagem do romance moderno. Seu primeiro livro, Perto do Coração Selvagem (1944), recebeu o Prêmio Graça Ar**ha e a consagrou entre os principais críticos literários do país.

Nascida em Tchetchelnik, na Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920, Clarice chegou ao Brasil ainda bebê, fugindo com a família das perseguições aos judeus durante a Guerra Civil Russa. Instalaram-se primeiro em Maceió, Alagoas, e depois no Recife, onde passou a infância e demonstrou, desde cedo, talento para a escrita. Aos 12 anos mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde concluiu os estudos, ingressou na Faculdade Nacional de Direito e trabalhou como redatora na Agência Nacional e no jornal A Noite. Em 1943 casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve dois filhos.

Em 1944, Clarice publicou Perto do Coração Selvagem, romance que rompeu com a estrutura linear e trouxe uma linguagem introspectiva e psicológica. Durante o período em que acompanhou o marido em missões diplomáticas pela Europa e pelos Estados Unidos, publicou O Lustre (1946), A Cidade Sitiada (1949) e o livro de contos Alguns Contos (1952). De volta ao Brasil, separou-se do marido em 1959 e dedicou-se ao jornalismo e à literatura. Colaborou com colunas femininas como Correio Feminino e Só para Mulheres, nas quais revelava sensibilidade e ironia. Em 1960, lançou Laços de Família, obra premiada com o Jabuti, que consolidou sua reputação. Também escreveu para o público infantil, publicando O Mistério do Coelhinho Pensante (1967).

No mesmo ano, sofreu um grave acidente doméstico, quando adormeceu com um cigarro aceso e teve queimaduras severas. Mesmo assim, manteve intensa produção literária e passou a escrever crônicas no Jornal do Brasil. Em 1977, publicou A Hora da Estrela, seu último romance em vida, que conta a história de Macabéa, uma jovem nordestina que tenta sobreviver na cidade grande. A obra, de profunda reflexão existencial e social, tornou-se um marco na literatura brasileira e foi adaptada para o cinema por Suzana Amaral em 1985, rendendo à atriz Marcélia Cartaxo o Urso de Prata no Festival de Berlim.

Clarice Lispector pertence à chamada Geração de 45, ou terceira fase do Modernismo, caracterizada pela renovação estética e introspectiva da literatura. Sua obra é marcada pelo monólogo interior, pela análise psicológica e por uma busca constante do sentido da existência. Embora tenha recusado o rótulo de feminista, suas protagonistas — Joana, Virgínia, Lucrécia e Macabéa — expressam a condição da mulher e a luta pela afirmação de uma subjetividade própria. Clarice é, ao mesmo tempo, intimista, filosófica e profundamente humana.

Durante suas duas décadas no exterior, manteve correspondência com grandes nomes da literatura, como João Cabral de Melo Neto, Érico Veríssimo, Rubem Braga e Fernando Sabino. Suas cartas, reunidas em Todas as Cartas (2020) e Cartas Perto do Coração (2001), revelam uma mulher sensível, crítica e cosmopolita. Clarice faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de dezembro de 1977, vítima de câncer de ovário, um dia antes de completar 57 anos. Sua obra permanece viva e é estudada em todo o mundo como uma das expressões mais originais da literatura brasileira.

“Sou uma pergunta.” — Clarice Lispector.

América Krauss (25 de junho de 1865 - 27 de setembro de 1955)A obra de América Krauss é um vasto mosaico de narrativas q...
24/10/2025

América Krauss (25 de junho de 1865 - 27 de setembro de 1955)

A obra de América Krauss é um vasto mosaico de narrativas que entrelaçam geografias, tempos e vozes. Histórias vindas de cá, de lá e de além, que continuam a encantar gerações, sobretudo nas regiões da Serra da Mantiqueira e da Bacia do Rio Grande. Impossível situar no tempo a origem exata desses relatos — o que se pode afirmar é que neles pulsa a emoção e a imaginação de um povo.

América foi uma coletora de relatos contados, cantados e encantados, uma viajante das palavras. Seu território simbólico ultrapassava fronteiras: das montanhas mineiras às cordilheiras andinas, dos rios do interior ao Prata, do Prata ao Atlântico. Assim, suas histórias seguiam o curso das águas, retornando sempre às paragens sul-mineiras, em eterno movimento de ida e volta — um diálogo vivo entre mundos.

Conhecida como a cartógrafa das oraturas das Américas, América Krauss dedicou-se a mapear a circularidade da tradição oral, esse repertório permeável e coletivo que revela o quanto a cultura é viva, mutável e interligada. Seu legado forma um repositório da imaginação popular, onde o maravilhoso e o cotidiano se misturam, desenhando o retrato simbólico do sul de Minas.

Carinhosamente chamada de Mequinha, América amava o próprio nome — e tudo o que ele evocava. Era alegre, generosa, acolhedora. Amava as cores, o movimento, a vida. Criava livros com capas de papelão, tornando-se uma pioneira cartonera. Produzia livros-objeto e livros de artista, explorando diferentes técnicas e suportes, sempre acompanhada de seus mapas, suas tintas e sua curiosidade de navegante.

Fascinada pelas grandes expedições — de Américo Vespúcio a Cristóvão Colombo —, traçava em suas criações rotas imaginárias que faziam suas histórias singrarem o Rio Grande, o Paraná, o Prata e o Atlântico. Nelas, navegavam não só personagens e lendas, mas também as memórias e os sonhos de um continente inteiro.

América Krauss permanece como uma figura luminosa da cultura sul-mineira — uma artista que desenhou, com palavras e papelão, os mapas afetivos das Américas.

* As informações sobre América Krauss foram oferecidas pela pedagoga Silvia Helena Reis . Há registros genealógicos e árvores familiares que citam uma América Perciliana / América Cabral Krauss com datas aproximadas do século XIX / início do XX, vinculada a São Gonçalo do Sapucaí e Campanha (MG).
Não localizei, em pesquisas públicas iniciais, edições comerciais com ISBN ou fichas de catálogo (Biblioteca Nacional, catálogo de editoras reconhecidas) atribuídas a “América Krauss” como autora publicada em editoras formais.
Também não houve, nesta varredura inicial, artigos acadêmicos ou monografias amplamente referenciadas que tratem dela como autora ou pesquisadora com obra publicada.

Viola Davis (St. Matthews, 11 de agosto de 1965) é uma atriz e produtora norte-americana reconhecida por sua força inter...
24/10/2025

Viola Davis (St. Matthews, 11 de agosto de 1965) é uma atriz e produtora norte-americana reconhecida por sua força interpretativa e pela profundidade com que habita cada papel. Vencedora de um Oscar, um Emmy, dois Tony Awards e um Grammy, tornou-se a 18ª personalidade do mundo — e a terceira mulher negra — a conquistar o título EGOT, honraria reservada a quem vence os quatro maiores prêmios da indústria do entretenimento. Foi eleita pela Time uma das 100 pessoas mais influentes do planeta em 2012 e 2017.

Formada pela prestigiada Juilliard School em 1993, Davis iniciou a carreira no teatro, acumulando experiência e reconhecimento até se firmar como uma das atrizes mais versáteis de sua geração. Seus primeiros destaques no cinema vieram com Kate & Leopold (2001) e Longe do Paraíso (2002), além de participações na série Law & Order: Special Victims Unit. Em 2001 recebeu seu primeiro Tony Award por King Hedley II, no papel de Tonya.

O reconhecimento internacional chegou com Doubt (2008), ao lado de Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman, que lhe rendeu indicações ao Oscar, Globo de Ouro e SAG Award. Em 2010, venceu novamente o Tony Award pela peça Fences, de August Wilson — papel que mais tarde repetiria com brilhantismo na adaptação cinematográfica de 2016. No filme Histórias Cruzadas (The Help, 2011), sua atuação como Aibileen Clark consolidou seu nome em Hollywood e lhe garantiu indicações aos principais prêmios do cinema mundial.

Em 2014, Davis protagonizou How to Get Away with Murder, interpretando a complexa advogada Annalise Keating. Em 2015, tornou-se a primeira mulher negra a vencer o Emmy de Melhor Atriz em Série Dramática, além de conquistar dois SAG Awards e duas indicações ao Globo de Ouro pelo mesmo papel.

No cinema, também se destacou como Amanda Waller, a poderosa estrategista do filme Esquadrão Suicida (2016), e recebeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Fences (2017). Com essa vitória, tornou-se a primeira atriz negra a conquistar a chamada Tríplice Coroa da Atuação — Oscar, Emmy e Tony. Em 2017, ganhou uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood.

Viola Davis nasceu em uma fazenda em St. Matthews, Carolina do Sul, filha de Mae Alice, empregada doméstica e ativista dos direitos civis, e de Dan Davis, treinador de cavalos. Cresceu em Rhode Island, em meio a condições de pobreza, que mais tarde descreveria como uma das forças formadoras de sua trajetória. Formou-se em Teatro no Rhode Island College e, anos depois, recebeu da instituição o título de Doutora Honoris Causa em Belas Artes.

Além de sua carreira nas artes, Davis é uma voz ativa em defesa da representatividade, da igualdade racial e do poder transformador da educação. Em 2022 lançou no Brasil sua autobiografia “Em Busca de Mim”, relato comovente sobre superação, ancestralidade e o encontro com a própria identidade — um testemunho de força e humanidade que transcende a arte.

Maria Auxiliadora da Silva ( 1935 - 1974) nasceu em Campo Belo (MG), em 24 de maio, e faleceu em São Paulo, em 20 de ago...
22/10/2025

Maria Auxiliadora da Silva ( 1935 - 1974) nasceu em Campo Belo (MG), em 24 de maio, e faleceu em São Paulo, em 20 de agosto. Artista autodidata, Maria Auxiliadora construiu uma obra singular e profundamente brasileira, marcada por cores vibrantes, religiosidade, cotidiano e resistência.

Suas pinturas retratam a vida doméstica e rural, as religiões afro-brasileiras, as festas populares, o carnaval e as comunidades periféricas de São Paulo, como Brasilândia e Casa Verde. Nos últimos anos de vida, diante da luta contra o câncer, voltou-se a temas autobiográficos, registrando em autorretratos sua dor e espiritualidade.

Oriunda de uma família numerosa e artística, com 18 irmãos, Maria Auxiliadora cresceu em um ambiente fértil de criatividade. Entre seus familiares, destacam-se o escultor Vicente Paulo da Silva, o pintor Sebastião Cândido da Silva e a mãe, Maria Trindade de Almeida Silva, também escultora, bordadeira e poetisa.

Aos 12 anos, deixou a escola para ajudar no sustento da casa, trabalhando como empregada doméstica e bordadeira. Aprendeu com a mãe as primeiras técnicas de bordado e, com o tempo, incorporou essa habilidade à pintura, criando texturas tridimensionais com tinta, gesso e até fios de cabelo. Em 1967, decidiu dedicar-se integralmente à arte.

Em 1968, integrou-se ao grupo de artistas liderado por Solano Trindade, no Embu das Artes, um dos primeiros núcleos de valorização da cultura afro-brasileira. Lá, ganhou o primeiro prêmio no V Salão de Artes Plásticas. No início dos anos 1970, voltou à capital paulista, expondo na Praça da República, onde foi descoberta pelo marchand alemão Werner Arnhold e pelo crítico Mário Schemberg, que projetaram sua obra no Brasil e na Europa.

Mesmo enfrentando a doença, Maria Auxiliadora jamais deixou de pintar. Sua arte foi reconhecida postumamente, recebendo destaque em instituições como o MASP, o Museu Nacional de Belas Artes, e em exposições na Itália, França e Alemanha.

Em 2018, o MASP apresentou a mostra Maria Auxiliadora: vida cotidiana, pintura e resistência, reafirmando o caráter revolucionário de sua produção — uma arte que une o sagrado e o popular, a luta e a beleza, o corpo e o espírito.

Yeda Maria Correia de Oliveira (1936 - 2016), mais conhecida como Yêdamaria, foi uma artista brasileira com um trabalho ...
22/10/2025

Yeda Maria Correia de Oliveira (1936 - 2016), mais conhecida como Yêdamaria, foi uma artista brasileira com um trabalho marcado pelas paisagens, cenas marinhas e naturezas-mortas vistas em quadros, gravuras e colagens. Graduou-se na Escola de Belas Artes da Bahia em 1959. Cursou gravura na Escolinha de Arte do Brasil, no Rio de Janeiro, no início da década de 1960. No retorno à Bahia, estudou gravura com Henrique Oswald. Cursou mestrado na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, entre 1978 e 1980. Foi professora de desenho e gravura na Universidade Federal da Bahia, ganhou diversos prêmios ao longo da carreira, com obras em acervos de museus no Brasil e em instituições no exterior.

Segundo Alexandre Araújo Bispo no texto (2010) para a revista O Menelick 2º Ato, a natureza-morta torna-se um dos pontos centrais da produção da artista. “Este gênero, do qual Yêda extrairá uma incrível quantidade de cores alegres e iluminadas e que atualmente é a marca principal de seus trabalhos, é resultado da observação sistemática de seus modelos – frutas, flores, mesas arrumadas com esmero -, representações que dão o tom de uma organização estética do mundo.” A artista também passa a se interessar, a partir de 1969, por elementos de religiões afro-brasileiras, com representações de orixás, pelos temas da feminilidade e também pelas questões feministas.

Maria Lídia Magliani ( 1946 - 2012) pintora, desenhista, gravadora, ilustradora, figurinista e cenógrafa — foi uma das a...
22/10/2025

Maria Lídia Magliani ( 1946 - 2012) pintora, desenhista, gravadora, ilustradora, figurinista e cenógrafa — foi uma das artistas mais expressivas de sua geração. Conhecida simplesmente como Magliani, cursou Artes Plásticas (1963–1967) e pós-graduação em Pintura (1967–1968) na Escola de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), tornando-se a primeira mulher negra a se formar na instituição.

Em 1966, realizou sua primeira exposição individual na Galeria Espaço. Poucos anos depois, em 1974, aperfeiçoou-se em Litografia no Ateliê Livre da Prefeitura de Porto Alegre. Atuou também como ilustradora, colaborando com jornais e criando capas de livros — entre eles O Inventário do Irremediável, do amigo e escritor Caio Fernando Abreu.

Na pintura, Magliani explorou temas de engajamento feminista com gestos amplos e intensos. A curadora Denise Mattar (2004) descreveu sua obra como parte de “um expressionismo sangrento, que choca e fere os desavisados e os sectários”.

Ao longo de sua trajetória, Magliani participou de diversas exposições individuais e coletivas. Em 1980, mudou-se para São Paulo, viveu por um período em Minas Gerais e, a partir de 1997, fixou residência no Rio de Janeiro.

Em 2013, um ano após sua morte, a Pinacoteca Aldo Locatelli, em Porto Alegre, prestou-lhe homenagem com a mostra “Magliani: A Solidão do Corpo”, reafirmando seu lugar entre as grandes artistas brasileiras.

Maria Beatriz Nascimento nasceu em Aracaju, Sergipe, em 17 de julho de 1942. Oitava filha do casal formado por Rubina Pe...
17/10/2025

Maria Beatriz Nascimento nasceu em Aracaju, Sergipe, em 17 de julho de 1942. Oitava filha do casal formado por Rubina Pereira do Nascimento e Francisco Xavier do Nascimento, teve nove irmãos. Assim como milhares de famílias nordestinas da época, em 1949, Nascimento migrou para a região Sudeste, mais precisamente para o Cordovil, bairro do subúrbio carioca.

Em 1969, aos 28 anos de idade, Beatriz Nascimento é aprovada para o vestibular do curso de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), graduação que conclui em 1971. No mesmo período, fez estágio em pesquisa no Arquivo Nacional, sob orientação do historiador José Honório Rodrigues. Tempos depois, torna-se professora da rede estadual fluminense.

Ao longo de sua trajetória, a historiadora sergipana sempre aliou a militância com a vida acadêmica. Ao lado de pesquisadores e pesquisadoras negras, fundou o Grupo de Trabalho André Rebouças na Universidade Federal Fluminense (UFF). Na mesma instituição, em 1981, concluiu o curso de pós-graduação Latu Sensu em História do Brasil. Entre os anos finais da década de 1970 e o início dos anos 1980, foi presença constante na retomada dos movimentos sociais negros organizados, mantendo vínculo inclusive com o Movimento Negro Contra a Discriminação Racial (MNUCDR, nome mais tarde reduzido para MNU), fundado em 1978.

Enquanto pesquisadora, Beatriz Nascimento debruçou-se durante duas décadas ao estudo das formações dos quilombos no Brasil. Nos dizeres do antropólogo Alex Ratts (2006, p. 54), autor de sua biografia intelectual, Beatriz pensava os territórios de resistência de escravizados e seus descendentes de maneira científica, mas também a partir de sua trajetória pessoal e do seu ativismo político antirracista. Nesse sentido, Nascimento era propositiva ao defender o reconhecimento e a titulação das terras quilombolas, o que viria a acontecer a partir de 1995:

Que os movimentos negros apurem onde existem terras ocupadas por comunidades negras, e providenciem por meios legais a aplicação do usucapião evitando os problemas de usurpação das terras. Luta pela defesa dos posseiros, na sua maioria negros e mestiços, com a aplicação das leis desprezadas pelo próprio Estado (1983, apud RATTS, 2007, p. 54).

Embora seja seguramente uma das maiores estudiosas do país a respeito do tema, Beatriz Nascimento é mais conhecida pelo documentário Ôrí, palavra em yorubá com o significado de “cabeça”, que para os candomblecistas relaciona-se à mente, à inteligência, à alma. Lançado em 1989 e dirigido pela cineasta Raquel Ge**er, a partir dos textos e da narração de Nascimento, Ôrí recupera os percursos dos movimentos negros que emergiram no Brasil entre 1977 e 1988, entrelaçados pela diáspora africana, tendo os quilombos como fio condutor. Sobre o filme, a historiadora pontuou:

O processo de Ôrí é uma recriação de identidade nacional através do Movimento Negro da década de 1970. Nós, na década de 70, éramos mudos. E os outros eram surdos. A partir de 70, começa a falar sociologicamente. E esta lógica estava embutida no processo da própria História do Brasil (1989, apud RATTS, 2007, p. 64).

Ao tomar a palavra, conforme apontado no excerto acima, Beatriz Nascimento exerceu papel fundamental nas reflexões e ações referentes à denúncia e ao combate ao racismo “virulento” e, ao mesmo tempo, “tolerante” de uma sociedade entorpecida pelo mito da democracia racial, que impunha aos sujeitos negros condições desfavoráveis de vida e maiores dificuldades de acesso aos bens públicos. A partir disso, Nascimento definia a existência negra como uma história marcada por “quase quinhentos anos de resistência à dor, ao sofrimento físico e moral, à sensação de não existir” (1976, apud RATTS, 2007, p. 39).

O pensamento de Beatriz Nascimento também foi fundamental para o entendimento das práticas discriminatórias que pesavam sobre os corpos das mulheres negras, sendo um dos expoentes do que hoje é conhecido como feminismo negro. Nos anos 1980, chamou atenção para a condição de subalternidade a que a maioria das afro-brasileiras estavam imersas no mercado de trabalho. A pensadora nordestina afirmava que tal fato decorria dos resquícios da escravidão e das barreiras construídas pela sociedade brasileira para assegurar a ausência de mobilidade social por parte desse grupo. Nos dizeres da ativista do Movimento Negro, “se a mulher negra hoje permanece ocupando empregos similares aos que ocupava na sociedade colonial, é tanto devido ao fato de ser uma mulher da raça negra, como por terem sido escravos seus antepassados” (1976, apud RATTS, 2007, p. 104).

Tal fato ainda não foi explorado por pesquisadores: Beatriz Nascimento também dissertou sobre os impactos do racismo na educação. Seus apontamentos partem da experiência enquanto estudante negra, como também de estudos e observações de campo. A teórica sergipana pontuou sobre a violência contra os corpos negros nos espaços escolares e a solidão das crianças nas instituições de ensino. A esse respeito, ela escreveu:

Acho que muita criança negra tem esse mesmo problema [da solidão] e é por isso que não estuda, muitas vezes não passa de ano, tem dificuldade na escola por causa de um certo tipo de isolamento que não é facilmente perceptível. É aquela mecânica da educação que não tem nada a ver com esses grupos de educação familiar, a mecânica da leitura, onde você não sabe quem é, porque não está nos livros (1982, apud RATTS, 2007, p. 49).

Nesse trânsito entre História, ativismo e educação, Beatriz Nascimento ainda percorreu o caminho das letras, tendo se dedicado também à escrita de poemas. No âmbito acadêmico, sua última parada foi na faculdade de Comunicação Social da (UFRJ), onde deu início ao curso de mestrado, sob a orientação do comunicólogo Muniz Sodré. A dissertação não pôde ser defendida, pois ela teve sua vida ceifada pelo companheiro de uma amiga, que em 28 de janeiro de 1995 disparou cinco tiros à queima-roupa contra Beatriz.

Passados 25 anos da morte de Beatriz Nascimento, em grande medida, sua produção tem sido lembrada em congressos e seminários justamente por pesquisadores e pesquisadoras afro-brasileiros. Por outro lado, Beatriz Nascimento ainda é uma voz silenciada em planos de ensino de cursos de graduação e pós-graduação em História, o que nos leva a afirmar que a autora tem sido alvo de contínuos processos de apagamento e invisibilidade, algo recorrente nos percursos das intelectuais negras.

No momento em que as grandes editoras e veículos da mídia hegemônica têm voltado a atenção para as pensadoras afrodescendentes, espera-se que, em breve, Maria Beatriz do Nascimento esteja nesses espaços, pois em razão de seu legado e de sua trajetória, é nesses lugares que ela deve e merece estar.

A filósofa e ativista negra Angela Davis refere-se a Lélia Gonzalez e a Beatriz Nascimento como "fundadoras" ao declarar que "o feminismo negro nasce no Brasil". E acrescenta:

Lélia de Almeida Gonzalez nasceu em 1º de fevereiro de 1935, em Belo Horizonte (MG), e faleceu em 10 de julho de 1994, n...
17/10/2025

Lélia de Almeida Gonzalez nasceu em 1º de fevereiro de 1935, em Belo Horizonte (MG), e faleceu em 10 de julho de 1994, no Rio de Janeiro. Décima-sétima de dezoito irmãos, era filha de Accacio Serafim d’Almeida, ferroviário, e Orcinda Serafim d’Almeida, empregada doméstica e mãe de leite em famílias mineiras. Criada em um lar operário, Lélia sempre destacou suas raízes: negras, pelo lado paterno, e indígenas, pelo materno.

Em 1942, sua família migrou para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida, movimento possibilitado pelo talento do irmão mais velho, Jaime de Almeida, jogador do Flamengo. Desde cedo, Lélia precisou trabalhar — seu primeiro emprego foi como babá —, mas, ao contrário de muitos de seus irmãos, teve acesso à educação formal. Estudou em escolas públicas e cursou o ensino secundário no prestigiado Colégio Pedro II, uma instituição frequentada majoritariamente por filhos das elites, experiência que transformou os rumos de sua vida.

Ingressou na universidade, tornando-se bacharel em História e Geografia, e em 1962, bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual da Guanabara (atual UERJ). Lecionou Filosofia em escolas secundárias e, mais tarde, tornou-se professora de instituições de ensino superior, como a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e a Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio).

No ambiente acadêmico, conheceu Luiz Carlos Gonzalez, com quem se casou e de quem adotou o sobrenome. O casamento, contudo, foi marcado pela rejeição da família do marido, de origem europeia, que não aceitava a união. Anos depois, Lélia relataria o episódio como uma das experiências mais marcantes do racismo brasileiro:

“No Brasil é aceitável que um homem branco tenha um caso com uma mulher negra, mas casamento é outro assunto. Quando eles descobriram que nos casamos, ficaram furiosos. Me chamaram de preta suja. Era isso que eu tinha me tornado aos olhos deles, apesar da minha educação, apesar da minha posição.”

Essas experiências de discriminação tornaram-se gatilho para sua militância política e intelectual. Vigiada pelo DOPS durante a ditadura, Lélia foi fundadora do Movimento Negro Unificado, participou da criação do Partido dos Trabalhadores (PT), integrou o PDT, atuou nas campanhas eleitorais de 1982 e 1986 e colaborou com o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM). Esteve nas mobilizações pela Constituinte e nas campanhas contra o apartheid na África do Sul. Também fundou a organização Nzinga – Coletivo de Mulheres Negras (1983) e foi presença ativa em encontros feministas no Brasil e no exterior.

Para Lélia, ação política e expressão cultural eram inseparáveis. Atuou em grupos de arte negra, colaborou com Candeia na Escola de Samba Quilombo, participou da criação do Colégio Freudiano do Rio de Janeiro (1975), assessorou Cacá Diegues no filme Quilombo (1984) e apoiou o teatro negro de Hilton Cobra. Iniciada no Candomblé, celebrava a força dos blocos afros e afoxés baianos como resistência simbólica. Sua visão era clara: a cultura também é campo de disputa política.

Sua produção intelectual é vasta e atravessa filosofia, psicanálise, feminismo e pensamento decolonial. Iniciou traduzindo obras de filosofia do francês e, a partir dos anos 1970, passou a publicar ensaios fundamentais:

Racismo e sexismo na cultura brasileira (1983)

A mulher negra no Brasil (1984)

Por um feminismo afro-latino-americano (1988)

A categoria político-cultural de amefricanidade (1988), conceito que propõe uma identidade comum entre povos da diáspora africana nas Américas.

Publicou dois livros: Lugar de Negro (1982), em coautoria com Carlos Hasenbalg, e Festas Populares no Brasil (1987), premiado na Alemanha.

Reconhecida internacionalmente, Lélia foi uma das intelectuais negras brasileiras mais convidadas a palestrar fora do país. Esteve em conferências das Nações Unidas, universidades e centros de estudos nos Estados Unidos e na Europa, discutindo racismo, gênero e cultura afro-latino-americana.

Entre suas referências intelectuais, destacam-se Simone de Beauvoir, Frantz Fanon, W.E.B. Du Bois, Heleieth Saffioti, Clóvis Moura, Guerreiro Ramos, Abdias do Nascimento, Freud e Lacan.

Lélia Gonzalez construiu uma obra que permanece como marco do pensamento negro e feminista latino-americano, articulando filosofia, política e ancestralidade. Sua voz continua ecoando nas lutas por igualdade, memória e justiça racial no Brasil.

Célia Nunes Corrêa, conhecida como Célia Xakriabá, nasceu em 10 de maio de 1989, em Itacarambi, Minas Gerais. Professora...
13/10/2025

Célia Nunes Corrêa, conhecida como Célia Xakriabá, nasceu em 10 de maio de 1989, em Itacarambi, Minas Gerais. Professora, ativista indígena e política brasileira, ela pertence ao povo Xakriabá, que habita a região norte do estado. Sua trajetória é marcada pela luta pela reestruturação do sistema educacional, pela valorização das mulheres e da juventude indígena e pela defesa da demarcação dos territórios tradicionais. Em 2022, Célia tornou-se a primeira mulher indígena eleita deputada federal por Minas Gerais, consolidando-se como uma das vozes mais potentes e representativas dos povos originários no cenário político nacional.

Iniciou seus estudos na Escola Indígena Estadual Xukurank, em São João das Missões, e, em 2013, integrou a primeira turma de Educação Indígena da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em seguida, cursou mestrado em Desenvolvimento Sustentável, com concentração em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais, na Universidade de Brasília (UnB), entre 2016 e 2018. Tornou-se a primeira mestra de seu povo e atualmente é doutoranda em Antropologia pela UFMG, ampliando sua pesquisa sobre território, ancestralidade e saberes tradicionais.

Aos 25 anos, em 2015, Célia foi a primeira mulher indígena a integrar a equipe central da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais, onde permaneceu até 2017. Nesse período, atuou na Superintendência de Modalidades e Temáticas Especiais do Ensino, contribuindo para a inclusão das culturas e línguas indígenas no currículo escolar e fortalecendo políticas educacionais voltadas à diversidade.
A demarcação de terras indígenas é um dos eixos centrais de sua atuação. Célia denuncia a PEC 215, que transfere ao Congresso Nacional a responsabilidade pelas demarcações, como uma ameaça aos direitos garantidos pela Constituição de 1988. Para ela, a terra não é apenas um espaço físico, mas um território de memória, espiritualidade e identidade coletiva. Sua defesa do território é, portanto, uma expressão profunda da cosmologia e da resistência dos povos originários.

Na educação, Célia Xakriabá defende um modelo intercultural e decolonial, que valorize os saberes tradicionais e dialogue com as realidades dos diferentes povos. Propõe a indigenização, quilombolização e camponização das escolas, como forma de promover um ensino que reconheça a pluralidade cultural do Brasil. Para ela, o calendário escolar deve estar em sintonia com o ciclo da vida comunitária, e não apenas com as datas do calendário ocidental, reafirmando que a escola indígena deve ser um espaço de afirmação e pertencimento, e não de apagamento cultural.

Em suas falas e escritos, Célia destaca o protagonismo das mulheres indígenas e denuncia a invisibilidade que elas ainda enfrentam nas esferas de poder. Para ela, ocupar espaços de decisão é também reconstruir narrativas históricas e desafiar as estruturas coloniais que moldaram a educação, a política e a sociedade brasileira.

Presença constante em universidades, conferências e veículos de comunicação, Célia participa de debates sobre educação, território, gênero e ancestralidade. Em palestras como “Mulheres indígenas, resistência e protagonismo”, proferida na Universidade de Brasília, enfatiza o papel das mulheres nas lutas sociais e o poder transformador da educação. Em entrevistas, como as concedidas ao Canal Futura, defende o uso das redes sociais como instrumentos de visibilidade e mobilização para a juventude indígena.

Figura símbolo da resistência contemporânea, Célia Xakriabá representa uma geração que transita entre a ancestralidade e a modernidade, articulando saberes tradicionais e pensamento acadêmico em um mesmo discurso. Sua trajetória ecoa o princípio que orienta sua luta:

“Não estamos lutando para ser incluídos em um sistema que nos excluiu. Estamos lutando para reconstruí-lo.”

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