Manifesto
O Coletivo Opá Negra surge como forma de organização dos estudantes negres da ECA, que sentem a necessidade de questionar e refletir o espaço da cultura negra dentro da sociedade. O que buscamos é promover espaços de contato com a nossa cultura, onde possamos discuti-la e criá-la. Entendemos que a cultura negra no Brasil carrega sobre si o peso histórico da escravidão. É preciso encarar
esse contexto e reconhecer suas marcas na estrutura da sociedade atual, construída nos moldes do sistema opressor da cultura branca ocidental – colonialista e escravocrata, que impõe uma cultura dominante e, nega, marginaliza e apaga as exploradas. Os negres no Brasil continuam sendo excluídos dos espaços da sociedade, o quadro social do país hoje é reflexo direto do modelo racista e intolerante imposto na sua formação. Ser estudante negro na USP evidencia e exacerba as contradições de nossa sociedade. Ao entrarmos numa universidade pública, enfrentamos um espaço majoritariamente branco – e elitista. Um espaço de conhecimento que deveria ser de direito de todes os cidadãos, é negado à margem e não representa nossa origem ou nossa cultura. No relacionamento com esse espaço acadêmico precisamos lidar com novas relações, entre estudantes, professores e funcionáries e tomamos consciência do nosso deslocamento social e cultural nesse ambiente em que nos percebemos minoria. Essa consciência nos leva a questionar o espaço que ocupamos enquanto estudantes negros dentro da universidade. Individualmente somos induzidos a abandonar tudo que nos resta de margem, apagar tudo que existe de Negro em nós, esconder tudo que nos difere do padrão imposto. Com o coletivo queremos criar espaços que fortaleçam a discussão em torno da questão negra, onde possamos refletir sobre nossa identidade e nos representar. Sentimos a necessidade de estudar e conhecer a cultura e a arte de nossa origem; de dar continuidade a uma criação que represente e se dirija a nós mesmos; de ampliar o debate em torno da criação negra, para além do ambiente universitário e acadêmico, que ainda é inacessível a maior parte da comunidade negra e periférica; de lutar pelo reconhecimento, inclusão, apoio e realização da arte negra; de pensar sobre como utilizar este espaço na universidade para fortalecer a resistência da cultura marginalizada. Nesta semana que denominamos USPRETA: Semana das Artes Negras, nos propomos a compartilhar nossas perguntas. Reconhecendo-nos enquanto negros, qual é nosso papel na arte brasileira? O que nos toca o sensível no fazer artístico? O que é teatro negro? Música negra? É forma ou conteúdo? É protagonismo? Como foi construída a imagem do negro nas artes e como queremos cria-lá? Que histórias queremos contar? Como contar nossas histórias? Como encenar nossas dores? Alegrias? Nosso cotidiano? Ou extra-cotidiano? Cultivar quais ritos? Exu? Quais são nossas referências? Perguntas que nos movam para o fazer teatral, cinematográfico, musical e artístico, buscando compreender de onde viemos, onde estamos, e onde queremos chegar, é ponto onde nasce o coletivo Opá Negra. A cultura negra se mantém por sua resistência, reconhecemos a sua força e nos sentimos parte dessa luta. Opá Negra é a mão negra, símbolo que nos identifica enquanto coletivo, símbolo em que reconhecemos a nossa origem, símbolo que nos chama à ação, à construção de espaços que nos representem. A mão Negra é símbolo da resistência, nosso objetivo enquanto coletivo é somar nessa luta, atuando em defesa da nossa cultura. Juntes somos fortes! Juntes, resistimos!