Professor William Melo

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Professor William Melo Professor de Ciências e Biologia e pesquisador em educação. Serviços com ênfase na inovação, planejamento e base científica.

14/08/2021

Hoje dei uma aula sobre genética e aprofundei em uma noção um pouco mais avançada (para ensino fundamental) de probabilidade. A ideia era mostrar o quanto probabilidade não é determinação (porém é uma boa estimativa).

As probabilidades que a gente calcula num cruzamento de 1° Lei de Mendel ou 2° Lei de Mendel são "probabilidades teóricas", ou seja, é o que eu espero encontrar a partir daquele cruzamento acontecendo de fato. Mas para que eu veja uma *probabilidade observada* em um cruzamento real que seja próxima da "probabilidade teórica", é necessário ter muitos cruzamentos ou um cruzamento com uma prole de grande tamanho (exatamente o que Mendel fez com as ervilhas). A explicação disso é uma lei da matemática chamada Lei dos Grandes Números.

Daí parece que isso não tem nada a ver com outras áreas científ**as mas tem. É a mesmíssima ideia que faz com que sejam necessárias amostras suficientemente grandes para inferir sobre parâmetros (médias e percentuais por exemplo) de características de uma população da qual a amostra foi extraída. Por isso instrumentos com a PNAD (do IBGE) têm tantos casos mesmo não pesquisando a população toda.

E é daí que vem a noção de margem de erro em pesquisas amostrais, que nada mais é do que uma "flutuação" aleatória entre o que medimos na amostra e o que seria esperado para a população total. Amostras maiores tem menor margem de erro, ou seja, parâmetros amostrais mais próximos dos parâmetros populacionais. De mesma forma, mais cruzamentos em genética geram probabilidades cada vez mais próximas do que calculamos via leis de Mendel. Uma moeda lançada 5 vezes pode dar coroa nas 5 vezes. Só lançando, sei lá, umas 100 vezes que a gente veria mais ou menos 50% caras e 50% coroas (se a moeda não for viciada hahaha). A probabilidade teórica (esperada) para cara e coroa é 50% pra cada mesmo (1/2).

Daí fiz algumas simulações pra provar essas coisas usando o software porque eu acho fundamental expor a galera das escolas públicas às linguagens de programação. E ensinar isso cada vez mais.

E eu que ganhei esse presente maravilhoso de duas alunas? Uma das minhas alunas, a , é designer! Olha o perfil profissio...
12/08/2021

E eu que ganhei esse presente maravilhoso de duas alunas?

Uma das minhas alunas, a , é designer! Olha o perfil profissional dela aqui: . Ela se juntou com outra aluna que desenha absurdamente bem (que sonha em ser mangaká, uma pessoa que cria, desenha histórias de Mangá) e as duas me emocionaram com essa surpresa maravilhosa. Ambos os trabalhos estão bem alinhados com o que elas me contaram nos seus Projetos de Vida, que montamos em algumas de nossas aulas.

E ainda tenho que segurar o coração pra ler:
"Não exageramos qnd falamos que vc é o melhor professor, isso é o mínimo que posso fazer para te agradecer"

Sério, eu já disse isso aqui e digo quantas vezes for necessário: coisas assim que me mantém aqui na docência apesar de tudo que a gente tem passado.

E não tem como não ter alta expectativa sobre o futuro brilhante dessas meninas e de todos os alunos da escola pública. É essa escola pública que eu acredito: meninas e meninos de 13/14 anos desenvolvendo grandes habilidades. E isso não é nem um terço do que essa galera sabe fazer.

08/05/2021

Hoje eu tive que substituir o plano de aula, assim como fazemos em muitas, muitas vezes, a depender de acontecimentos e necessidades da turma (como ontem que eu também deixei de corrigir as tais atividades que eu corrigiria hoje porque pouquíssimos tinham feito e eu achei melhor fazer um tutorial para acesso às atividades).

E quando a gente escolhe promover Educação Antirracista, é óbvio que aparecem questionamentos e não é a primeira vez. Hoje, durante a aula, enquanto eu falava sobre o ocorrido de ontem, eu fui questionado sobre qual seria a matéria da aula e sobre o motivo de eu estar trabalhando isso ao longo de muitas aulas.

Nossas escolas ainda estão tão despreparadas para cumprirem a Lei 10.639 que muitas nem a conhecem e tampouco a executam. E aí, por anos ignorando o tema, é legítimo que um estudante não entenda que uma aula sobre questões raciais em Ciências nem é aula, nem é "matéria".

Então hoje, graças ao questionamento de estudante, eu precisei explicar mais uma vez que falar disso aqui é aula e ao longo da fala (peguei só esse minutinho) eu apresentei muitos dados e falei sobre a elaboração de políticas públicas com base em evidências, que devem seguir métodos científicos que, graças às aulas de Ciências, eles já sabem, em resumo, como se constrói. Então como isso não é aula de Ciências?

Como não é aula de Ciências falar de eugenia, movimento de "limpeza" etnico-racial fomentado inicialmente por Francis Galton, primo do Charles Darwin, autor da Teoria da Evolução das espécies? Discurso de eugenia esse que é base pra muitas ações ainda hoje, inclusive em operações das forças do Estado.

Como não é aula de Ciências entender que meninas negras são as mais vulneráveis à gravidez indesejada na adolescência?

Como não é aula de Ciências falar de Racismo Ambiental em aulas de fontes de energia?

Como não é aula de Ciências falar das desigualdades raciais no acesso ao campo acadêmico, que inclui quase tudo que se ensina sobre lecionar Ciências?

Como não é aula de Ciências falar de sistema tegumentar e raça? E sobre programação e raça (agradeço de novo a )?

Educação Antirracista é isso. E não agrada a todos. Mas é Lei.

Sabe o que é mais difícil? Eu vou te contar. Eu tenho certeza que grande parte da população, ao ler essa manchete, tá di...
07/05/2021

Sabe o que é mais difícil? Eu vou te contar.

Eu tenho certeza que grande parte da população, ao ler essa manchete, tá dizendo: "é isso, tem que matar mais".

E deixa eu te contar outra coisa: é isso mesmo que tem sido feito. Se mata mais todo dia, todo ano, toda hora. E sabe quem morre? Pessoas como eu. Homens negros como eu. Homens negros como meu pai e amigos. Mulheres negras como minha mãe, como minha tia, como minha irmã, como minha companheira.

E sabe quando a política de guerra às dr**as reduziu de fato a violência no Rio de Janeiro? Nunca.

Mas ninguém liga. Ninguém liga porque o problema NUNCA foi a droga. Sempre foi uma questão de cor, uma questão de raça. Uma raça que pode morrer e que se pode matar. É a velha necropolitica, que se alimenta e que alimenta novos ciclos de desigualdades raciais, que iniciam lá quando o menino preto é ignorado, violentado e abandona a escola.

O mais irônico é que hoje foi o primeiro encontro do Conselho da Cidade do Rio de Janeiro e sabe o tema? Cooperação e Paz. Pessoas muito importantes e influentes no Rio estavam presentes, algumas em meu grupo de discussão.

E éramos poucos e poucas negros e negras. Mas estamos ali DE NOVO, com MUITA vontade, disputando essa p***a toda que ninguém aguenta mais.

Nas minhas oportunidades de fala, coloquei três eixos em destaque para cooperação e paz na cidade: combater abandono e evasão escolar (especialmente meninos negros), fortalecimento da cultura urbana (Hip Hop, em resumo) e a ênfase no embasamento científico para tomada de decisões.

E vi irmãs e irmãos colocando fortemente pautas sobre desigualdades, empoderamento dos territórios periféricos e pra combater violação direitos. Violação que hoje aconteceu de forma histórica no Jacarezinho.

Aos poucos, já estamos nos unindo sabe pq? Pq a gente se enxerga em TODOS os lugares e se busca. Tem que ser assim.

Quando acontecem coisas como a que aconteceu hoje, eu me desmotivo de estudar, eu me desmotivo de virar noites tentando ser um pesquisador de excelência e um professor de excelência. Porque quando a gente morre, uma nota de pesar vem, o lamento também e depois... Todo mundo esquece. E vai acontecer de novo.

10/03/2021
Na minha visão, não. Nenhum sentido.É simples: muitos estudantes f**aram de fora do ano letivo de 2020. E os que não f**...
04/12/2020

Na minha visão, não. Nenhum sentido.

É simples: muitos estudantes f**aram de fora do ano letivo de 2020. E os que não f**aram, tiveram dificuldades em casa, por vezes com 4 a 5 pessoas (ou mais) na mesma casa, pouquíssimas estruturas para estudo já em condições de normalidade, imagina em um cenário de ensino complementar à distância.

O esforço das escolas de dar suporte aos estudantes durante a pandemia e manter atividades certamente fez diferença e nunca defendi a ausência de atividades complementares à distância (impressas e online).

Mas, ao mesmo tempo, no que se refere às atividades online, o retorno não foi integral. Nas minhas turmas a taxa de realização de atividades online foi caindo ao longo do ano (eu medi objetivamente isso), com um pequeno aumento após atendimentos individuais de monitoramento. Nesse fim de ano, os estudantes tem optado pelas atividades impressas, que serão corrigidas quando o retorno presencial ocorrer. E quando o retorno presencial ocorrer, o ano de 2020 não pode ser considerado como dado. Ele deve ser retomado, resumido, revisado, sobretudo pra atingir aqueles que não foram efetivamente atingidos na pandemia.

Infelizmente, em meio a todo esse cenário de baixo engajamento estudantil (com propostas online sobretudo), há escolas discutindo reprovação. Gente, isso não faz NENHUM sentido.

As escolas brasileiras precisam, URGENTEMENTE, desapegar da ideia de que reprovação representa qualidade, o que chamamos em pesquisa de "Pedagogia da Repetência". O que não signif**a aprovação automática. Signif**a mudança de postura sobre processos educacionais construídos ao longo de todo o ano. E já sabemos, de pesquisas brasileiras, que não apenas critérios de desempenho escolar são considerados em conselhos de classe. Há uma malha de fatores usados pra julgamento, como comportamento (em um olhar subjetivo) e até as famílias dos alunos. Isso aqui, por si só, já me faz criticar a reprovação, porque por conta de tudo isso quem mais f**a retido e abandona a escola é o aluno preto, especialmente o menino, visto como agressivo, violento e facilmente taxado de "aluno-problema".

Educação é processo. Agora, mais do que nunca.

Acabou de sair esse texto meu no Nexo Políticas Públicas, a convite do Instituto Unibanco. É um artigo de opinião, curto...
02/12/2020

Acabou de sair esse texto meu no Nexo Políticas Públicas, a convite do Instituto Unibanco. É um artigo de opinião, curto, em que falo um pouco sobre clima escolar (um tema que vem sendo pesquisado no Brasil e que também venho estudando), questões raciais na escola, falo sobre a pesquisa realizada com a IMJA/UNIperiferias na escola em que trabalho e defendo a elaboração de um clima escolar racializado (que leve em consideração as questões de raça) nas escolas e a produção dessa medida nas pesquisas. Espero que gostem 😊

Sugere-se que expectativas e interações dentro das escolas têm relação com resultados educacionais de crianças e adolescentes negros. É fundamental melhorar esse quadro a partir de uma perspectiva antirracista

Fiz Biologia, pah, beleza. Mas e aí? E depois? Depois de 4 anos de graduação na UFRJ, eu desisti de uma possivel pós gra...
08/08/2020

Fiz Biologia, pah, beleza. Mas e aí? E depois?

Depois de 4 anos de graduação na UFRJ, eu desisti de uma possivel pós graduação em biofísica, num laboratório que eu já tava há uns 2 anos, pra entrar no mestrado em Educação em um laboratório que eu não sabia nem onde era, na mesma Universidade (sobre essa desistência posso contar melhor em outro post 😂).

Em 2016, com 21 anos, entrei no Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais (LaPOpE) e, até 2018, estudei um tema muito afetivo pra mim, como você pode ver olhando um dos posts de dias atrás. O tema foi: trajetórias escolares no município do Rio de Janeiro e ações familiares de escolarização. Em outras palavras, eu fui investigar que ações tinham sido realizadas por famílias que tinham filhos matriculados em escolas da rede municipal carioca, nas zonas norte e sul do Rio de Janeiro e que tipos de trajetorias tinham sido construídas por jovens que o laboratório tinha conhecido 3 anos antes. Vou falar mais dessa pesquisa em próximos posts, pode ser? Mas estes foram meus grandes temas iniciais da pesquisa em Educação: relação família-escola e desigualdades de oportunidades educacionais.

O que você mais quer saber sobre essa pesquisa e sobre esses temas?

E você? Quem é você? De que cidade/estado você é? É da área de Educação? É aluno? Conta pra mim o que te faz estar onde ...
06/08/2020

E você? Quem é você? De que cidade/estado você é? É da área de Educação? É aluno? Conta pra mim o que te faz estar onde está hoje e, especialmente, o que te faz querer acompanhar o conteúdo que trago aqui. :)

Eu sou nascido e criado no Morro dos Macacos, zona norte do Rio de Janeiro. Tá ligado aquela favela onde derrubaram um h...
04/08/2020

Eu sou nascido e criado no Morro dos Macacos, zona norte do Rio de Janeiro. Tá ligado aquela favela onde derrubaram um helicóptero? Pois é, sei que talvez você lembre mais dela por isso. Mas tô falando também da favela que tem potências em cada canto e muita gente que se destaca em meio às desigualdades. Imagina se as oportunidades fossem distribuídas de forma igualitária...

Eu estudei todo o meu ensino fundamental em escola pública.

Aos 13 anos, ganhei uma bolsa de estudos em uma escola privada, onde fiz todo o meu ensino médio. Peguei essa oportunidade e fui com muito medo... Mas com motivação. Eu levei minha família toda comigo. Quem vem de onde eu venho, sabe do que eu tô falando. Eu era um dos poucos estudantes negros naquele espaço, situação que ia se repetir muitas vezes ainda... mal sabia eu.

Com 16 anos, eu fui aprovado no vestibular e nada do que eu falar aqui vai explicar o que signif**a pra um jovem negro cria de favela dizer: "mãe, eu passei." ou "pai, eu passei.". E eu falei isso 4 vezes. Passei para as 4 principais universidades públicas do Rio de Janeiro: UFRJ, UFF, UERJ e UNIRIO. Na UFF, em primeiro lugar.

Mas eu escolhi mesmo fazer Ciências Biológicas na UFRJ. Primeiro, queria ser geneticista. Depois, ser professor era a meta. Tô aqui.

Não existe meritocracia com desigualdade de oportunidades. O que existe é potência da escola pública, potência da periferia e potência do povo preto. No meio da desigualdade, tive uma família que nunca desistiu de me apoiar. Irmãs que me alfabetizaram em casa. Escolas públicas que na época eram muito procuradas. Então, por favor, não me use como exemplo pra reforçar o argumento de que "é só querer e correr atrás". Não, não é.

A gente precisa de muito mais oportunidades distribuídas de forma igualitária, antes do acesso às escolas, durante o acesso às escolas, na permanência nas escolas e nas transições entre etapas de ensino.

Durante muitos momentos, sobretudo quando eu penso em desistir de qualquer caminho que trilho, o que me mantém seguindo é pensar o tempo todo no lugar de onde eu venho e nas pessoas que vieram comigo até aqui.

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