17/11/2025
AS VEIAS (AINDA) ABERTAS DO BRASIL
Há 50 anos, Eduardo Galeano denunciava em “As Veias Abertas da América Latina” que nosso subdesenvolvimento não era uma etapa natural, mas fruto de séculos de espoliação. E ao observar o Brasil atual, percebemos que a história não parou — apenas se repetiu, com uma roupagem moderna.
A tese de Galeano se materializa hoje: trocamos o açúcar e o ouro por minério de ferro, soja e petróleo, mas a lógica permanece. Continuamos uma economia refém da exportação de commodities, vulneráveis aos preços globais e à “doença holandesa”, que valoriza o Real e enfraquece a indústria nacional.
Além da dependência de recursos, a espoliação assumiu formas financeiras: a dívida pública suga bilhões que faltam na Saúde e Educação, desviando recursos para o sistema financeiro.
Nossa industrialização, por sua vez, nasceu dependente. Setores estratégicos — automotivo, farmacêutico, tecnologia — são dominados por multinacionais, que repatriam lucros e nos deixam reféns de royalties. Enquanto isso, no campo, a violência do latifúndio persiste, com conflitos agrários, grilagem e tragédias como a de Dorothy Stang, dentre tantos outros.
Completando o quadro, carregamos a “cultura da colonização”: o complexo de vira-lata, a desvalorização do nacional e elites mais alinhadas a interesses externos do que aos problemas do povo.
Mas a história não é um destino imutável.
Avanços como o SUS, a distribuição de renda, a democracia e empresas nacionais de sucesso mostram que é possível construir alternativas.
A luta do Brasil hoje é entre fechar essas veias abertas — com soberania, justiça social e um projeto nacional — ou perpetuar um modelo extrativista que beneficia poucos.
Entender que a desigualdade é uma construção histórica é o primeiro passo para desconstruí-la.
Gildázio Moura
Sanitarista, Gestor Ambiental, Mestrado em saúde coletiva pela FACISA-UFRN