11/11/2025
O seminário "Desafios para a democracia em tempos de aceleração social", uma iniciativa do Laboratório de Política e Governo (LabPol) e da Área de Política, promovida pelo Departamento de Ciências Sociais e pelo Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da UNESP, propõe um diagnóstico denso e multifacetado sobre os desafios colocados às democracias frente às vertiginosas transformações do século XXI. A programação do evento busca realizar uma análise coesa que transita entre diferentes escalas de poder, dimensões institucionais e temporalidades históricas, oferecendo um painel da complexa conjuntura atual.
O percurso intelectual do seminário inicia-se com uma análise multi-escalar da crise da democracia. A mesa de abertura, "Integração regional e defesa na América Latina", situa o debate na arena geopolítica, examinando as pressões externas e os desafios à soberania que condicionam o exercício democrático nacional. Em um movimento analítico que vai do macro ao micro, o painel seguinte, "Poder Local, Política Municipal e Eleições", mergulha na capilaridade do poder, investigando as dificuldades da democracia em sua instância mais fundamental e próxima do cidadão: o município. Essa primeira sequência estabelece as coordenadas espaciais do problema: a democracia brasileira tensionada entre as dinâmicas continentais e as realidades municipais.
A conferência de Alberto Aggio, "A construção da democracia no Brasil – dilemas e desafios", serve como o eixo diacrônico que confere densidade histórica ao debate. Ao revisitar a trajetória da formação democrática do país nos últimos 40 anos, a palestra estabelece as bases para compreender as vulnerabilidades estruturais e os dilemas persistentes que são reativados e intensificados pelo cenário de aceleração social. Com essa base histórica estabelecida, o segundo dia do evento se aprofunda nos mecanismos e nas patologias do sistema democrático contemporâneo.
O segundo dia é inaugurado com a discussão sobre a interface entre "Estado e sociedade" na mesa "Participação e Políticas Públicas", que avalia a efetividade dos canais institucionais de mediação e a capacidade da cidadania de influenciar os rumos do governo. Em seguida, o foco se desloca para a arquitetura do poder com o painel "Constitucionalismo, Justiça e Judicialização da Política", que aborda um dos fenômenos mais críticos da atualidade: o crescente protagonismo do Judiciário e as tensões resultantes na separação dos poderes. A sequência culmina no núcleo diagnóstico do seminário, a mesa "Democracia em risco – fatores históricos e normativos", que sintetiza as discussões anteriores para identificar com precisão os vetores de fragilização do regime, conectando suas raízes históricas às suas manifestações normativas atuais.
Finalmente, a conferência de encerramento de Rubem Barboza Filho, "Sinfonia inacabada: o Brasil que o povo inventou", oferece uma reflexão prospectiva e conceitual. O título sugere uma abordagem que transcende o mero catálogo de crises institucionais para explorar a democracia como um projeto em constante construção, cuja resiliência e futuro dependem também da potência inventiva da própria sociedade. O seminário, portanto, completa um ciclo analítico rigoroso: parte do enquadramento geopolítico e local, aprofunda-se em suas fundações históricas, examina criticamente seus mecanismos de funcionamento e risco, e conclui com uma reflexão sobre a natureza inacabada e a agência social na reinvenção da democracia.