21/11/2017
Nós, do CASDP, afirmamos apoio aos colegas do curso de medicina da UFMS, campus Três Lagoas.
Três Lagoas, 11 de novembro de 2017
CARTA ABERTA DO CURSO DE MEDICINA TRÊS LAGOAS/MS
O curso de Medicina do câmpus de Três Lagoas (CPTL) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul foi implantado em maio de 2014, tendo como objetivo a formação de médicos capacitados, engajados e envolvidos na melhoria das condições de saúde da população de Três Lagoas e região. Entretanto, com o avançar dos anos e a chegada de novas turmas, o curso tem encontrado amplas dificuldades em alcançar esse objetivo. Infelizmente, o curso que, inicialmente, teve enorme apoio e repercussão nos meios político e social, como promessa de melhorias à comunidade, encontra-se, na atualidade, aparentemente esquecido e de mãos atadas em relação a certos problemas.
Falta de docentes
Um dos problemas que o curso vem enfrentando é a falta de professores médicos. Professores com essa formação são essenciais especialmente quando se iniciam as práticas clínicas, geralmente a partir do 3º ano. Nesse período, o aluno passa a vivenciar e a conhecer mais intimamente a atuação do médico e a relação com os pacientes. Diante disso, evidenciamos que a primeira turma do curso está no 4º ano e a segunda turma, no 3º ano, de modo que ambas já estão sofrendo diretamente com o número reduzido desses professores. Situação que tende a se agravar com o avançar das outras turmas e a entrada de novos estudantes, nos próximos semestres.
Além disso, a defasagem no corpo docente é um dos fatores que levam à necessidade de seguidas readequações da Estrutura Curricular (item que compõe o Projeto Pedagógico do curso e que define carga horária, distribuição de disciplinas e de atividades complementares durante o curso, dentre outros aspectos organizativos). Isso exige, constantemente, grande esforço e resiliência de professores e alunos, que buscam alternativas para tentar diminuir as deficiências do ensino e otimizar a atuação dos professores em exercício – gerando, muitas vezes, sobrecarga para esses.
Problemas de Movimentação Interna
Outro ponto que os alunos do Curso de Medicina da UFMS/CPTL trazem à discussão é a movimentação interna entre cursos da área da saúde, que tem ocorrido desde 2017. Embora os alunos apoiem a iniciativa de ocupação de vagas remanescentes, é verificado que esse processo não tem sido efetivo para o curso. Primeiramente, essa forma de movimentação tem acarretado superlotação das turmas do 1º período. Isso porque a classificação dos inscritos por meio de apenas um critério, o coeficiente de rendimento acadêmico (média aritmética das notas das disciplinas cursadas) - sem qualquer avaliação de equiparidade de conteúdos ou critérios de compatibilidade de Projetos Pedagógicos Curriculares -, é insuficiente para adequar os alunos transferidos nas outras séries do curso. Resultado disso: as vagas realmente ociosas das turmas mais avançadas no curso permanecem desocupadas e turmas do 1º período, que deveriam ter no máximo 60 alunos, com 70-80 discentes.
Ademais, o resultado dessa superlotação agrava dificuldades que já existem naturalmente no curso. Se com menos de 60 estudantes, as turmas, especialmente as que já estão no ciclo clínico, têm sofrido com a falta de professores e locais para as aulas práticas, com 70-80, esse quadro piora muito. Definitivamente, o atual processo de Movimentação Interna da UFMS, que antes deveria solucionar a problemática de vagas remanescentes do curso, tem mostrado um efeito-rebote grave ao curso.
Falta de hospital para realização de práticas clínicas, em Três Lagoas
Outro aspecto que vem trazendo incontáveis prejuízos aos acadêmicos é a falta de um hospital, em Três Lagoas, que seja conveniado com a Universidade e que possibilite a realização de aulas práticas referentes ao ensino da parte clínica-hospitalar, fundamental à formação médica. Na presente situação, os alunos têm realizado tais práticas apenas na Atenção Primária à Saúde, em Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centro de Especialidades Médicas, Clínica do Idoso, Clínica da Mulher, dentre outros locais. Diante disso, entendemos que nosso curso tenha enfoque na Atenção Básica e que esse aspecto seja de extrema importância para a construção de um novo cenário na saúde brasileira. Contudo, compreendemos também que o médico em formação necessita do hospital e das práticas hospitalares para estar apto, ou ao menos familiarizado, a todas as formas de atendimento, seja de baixa, média ou alta complexidade.
Nesse mote ainda, é inegável que o atraso para início das obras do Hospital Regional de Três Lagoas – planejado a fim de suprir as demandas da região do Bolsão e do curso de Medicina de Três Lagoas - já tem reflexos no andamento do curso. Isso porque as primeiras turmas já estão no ciclo clínico, como explicado anteriormente, e o Hospital Regional ainda está em construção, sem uma previsão certa de quando os alunos poderão começar a usar sua estrutura.
Além disso, a cidade possui outros hospitais já prontos que poderiam fazer convênio com a Universidade. Contudo, até o momento, não se tem perspectiva de qualquer acordo entre as instituições e isso impede que os alunos tenham livre acesso a esses locais.
Internato
Faltando apenas oito meses para que a primeira turma inicie o Internato (denominação dos últimos 2 anos do curso, os quais possuem alta carga horária hospitalar), os alunos vivem a incerteza de como esse processo será realizado. Mesmo após inúmeras reuniões entre comissões da UFMS e Hospital Auxiliadora – que seria uma opção, caso o Hospital Regional não ficasse pronto -, nenhum caminho foi tomado e as últimas notícias informam que o internato possivelmente não será feito nessa instituição.
Mediante isso, surgiu por parte da Pró-Reitoria da UFMS, a solução de deslocar os alunos de Três Lagoas para Campo Grande, realizando o internato no Hospital Universitário e Santa Casa de lá. Porém, isso não satisfaz as aspirações dos discentes da Medicina CPTL, uma vez que a transição para outra cidade envolve uma série de fatores negativos que vão desde gastos financeiros a completa readaptação dos alunos, muitos dos quais já até possuem residência fixa em Três Lagoas. Além disso, a cidade de Campo Grande já comporta outros três cursos de Medicina, os quais já encontram grandes dificuldades nas estruturas e em oferecer ensino de qualidade aos alunos que lá estão.
Mais que isso, os alunos entendem que essa realocação seria uma perda drástica para a comunidade três-lagoense, que teve na abertura do curso a promessa de melhorias na saúde local. É, no mínimo, lamentável que, justamente no momento de começar a colher os frutos de todos os investimentos realizados para a vinda e estruturação do curso de Medicina, os alunos sejam enviados para terminarem suas formações e realizarem atendimentos em outras localidades.
Diante do exposto, nós, estudantes do curso de Medicina de Três Lagoas, queremos expressar que os entraves a nossa formação médica prejudica não apenas a nós, futuros profissionais, mas também refletem diretamente na sociedade, visto que é de conhecimento geral que a presença de bons médicos, bem como de alunos bem preparados, na rede de atendimento à saúde beneficia amplamente a comunidade local. Por fim, afirmamos que lutaremos pelo nosso direito a uma educação de qualidade, pois sabemos que, assim, também estaremos lutando pelo direito à saúde da população de Três Lagoas e região.