15/08/2012
Fabio Lima um estudante de biomedicina da Ufpa que se formaria esse ano, mas que infelizmente não pode realizar seu sonho em decorrência de um destino cruel, uma pessoa maravilhosa e amanda por muitos, mas que se foi...
Carta aberta de uma mãe Por: Márcia Lima
Perdi meu único filho de apenas 23 anos de idade, rapaz adorável, estudioso, de uma personalidade e espírito nobres. Fabinho, como nós o chamávamos, se formaria ao final deste ano, era admirado por seus mestres e colegas, não só pela sua inteligência mas também pelo seu caráter, integridade, dignidade, ética e humildade. Meu menino foi acometido por uma doença, que segundo suas explicações era “auto-limitada”, ou seja, meu filho ficaria curado. Entreguei a vida de meu filho em suas mãos e a senhora me encheu de esperança. Acreditei na senhora quando me dizia “fique tranqüila”, “não se preocupe”, agora sinto que estava sendo enganada. Meu Fabinho sofreu em um leito de hospital por 29 dias, e enfrentou todas as dolorosas intervenções e desconfortos dos procedimentos com muita coragem e dignidade, nunca reclamou e escondia o medo para não me preocupar. Ele também acreditou na senhora.
Meu filho tinha planos, em 2013 queria iniciar o mestrado e depois o doutorado, queria ser um pesquisador para ajudar as pessoas. Meu filho não ia a festas, não tinha vícios, vivia para os estudos. Nós nos amávamos muito, vivíamos um para o outro, o pai dele nos abandonou quando ele tinha apenas 11 anos de idade, daí pra frente foi só eu e ele, o que só aumentou nosso amor um pelo outro. Meu menino cuidava de mim como um homem maduro. Sabe doutora, de que vale todo o conhecimento do mundo, todos os títulos, todas as honras se não existe carinho, se não há amor por aquilo que se faz? E o que um médico faz, senão cuidar das pessoas? Agora é muito fácil dizer frases feitas como “acredite em Deus”, para aliviar uma dor dilacerante que não tem como ser aliviada. Imagine se isso acontecesse com a senhora? Se fosse a senhora que perdesse sua única filha de 25 anos? Tente se colocar no meu lugar por apenas uma fração de segundo e, caso a senhora consiga fazê-lo, sentirá o desespero que sinto agora.
Quando o caixão de meu Fabinho desceu à terra, minha vontade era ir junto com ele. A senhora sabe o que é isso? Espero que nunca sinta o que eu estou sentindo agora, pois é horrível. A senhora não imagina o meu desespero de mãe quando eu ligava pra falar com a senhora e a senhora não atendia, quando eu lhe passava mensagem e a senhora não respondia, quando meu filho ficava sem medicação e a senhora não ia vê-lo. Ele foi vítima sim de uma doença grave, eu sou consciente disso, mas também foi vítima do descaso, da falta de amor ao próximo, da falta de compromisso profissional.
No seu derradeiro dia liguei em pânico para a senhora e a senhora o mandou para a UTI, pelo telefone. Meu filho, que já não podia mais falar, pois tinha feito uma traqueostomia, e mal conseguia respirar, quando ouviu de uma médica plantonista medíocre que iria para a UTI, ainda arrancou forças do fundo de seu corpo muito debilitado para digitar no seu celular a frase “não me abandonem”. Eu disse a ele que isso nunca iria acontecer. Mas a senhora já o tinha abandonado. O entregou a um médico que nem sequer sabia do quadro clínico de meu filho. Meu amado filho foi mandado a UTI apenas para morrer, e a senhora sabe disso. O olhar de pânico dele, que ainda estava consciente, entrando naquela sala horrenda não sai de minha mente. E a senhora não estava lá. Será que existe algo mais importante no mundo do que acudir uma mãe desesperada vendo seu único filho ser levado de seus braços para ser morto, por ser considerado um caso perdido? Para a senhora com certeza sim, quem sabe alguns reais a mais na sua conta corrente.
Queria olhar nos seus olhos para que a senhora me dissesse por que meu filho morreu. Pois no atestado de óbito escreveram o de sempre: insuficiência respiratória e parada cardíaca, isto é muito pouco para uma mãe. Acho que faltaram acrescentar: incompetência e negligência médicas.
Meu filho sofreu muito e eu sofri junto com ele, era muito duro pra mim, como mãe, ver a despreocupação da senhora diante do caso dele, como se estivesse tratando de um resfriado. Ah DOUTORA, como eu estou sofrendo! E essa dor não seria menor se ele estivesse recebido a atenção que o caso requeria, mas certamente ajudaria muito. Gostaria de lhe dizer tanta coisa olhando nos seus olhos, em uma conversa entre mães. Bem que eu liguei para dizer que meu querido filho havia morrido, mas a senhora mais uma vez não me atendeu. Quando recebi sua mensagem tinha acabado de sair do cemitério onde enterrei meu filho e com ele a minha razão de viver. SEJA FELIZ DOUTORA, EU NUNCA MAIS SEREI. E QUE DEUS LHE ABENÇÔE.
PS: A senhora pediu autorização ao Fabinho para escrever um artigo sobre o caso dele, lamentou até não ter podido fotografar as amígdalas dele logo após a cirurgia. Eu peço licença a ele para, como mãe, retirar essa autorização tácita.
Belém-Pa, 10 de agosto de 2012
Nota: Este caso aconteceu em um hospital tradicional de Belém, no período de 06/07 a 04/08/2012, data em que nosso amado Fabinho partiu para sempre.