16/08/2026
Equilibrium, de Anitta: entre a experiência, a ancestralidade e a mercantilização do sagrado
Equilibrium, de Anitta, pode ser compreendido não apenas como um álbum musical, mas como um artefato cultural no qual se encontram diferentes dimensões da sociedade brasileira: religiosidade, corpo, gênero, ancestralidade, identidade, consumo e mercado global. A obra é particularmente interessante para a antropologia porque transforma uma experiência declaradamente pessoal e espiritual em uma narrativa pública compartilhada por milhões de pessoas.
A primeira questão antropológica que o álbum suscita é a relação entre experiência individual e cultura coletiva. Anitta apresenta sua busca pelo equilíbrio como uma experiência íntima, mas os símbolos utilizados para narrá-la não são exclusivamente individuais. O candomblé, os orixás, os ritmos afro-brasileiros, as referências à ancestralidade e as sonoridades populares pertencem a sistemas culturais e religiosos construídos coletivamente. Quando esses elementos entram em um produto da indústria cultural, deixam de circular apenas dentro de seus contextos originais e passam também a integrar uma linguagem pop.
É justamente aí que surge uma questão fundamental: o que acontece quando o sagrado se transforma em linguagem de entretenimento?
A presença de elementos de religiões de matriz africana em uma obra de uma das maiores estrelas brasileiras possui uma dimensão potencialmente transgressora. Em uma sociedade marcada pelo racismo religioso, tornar pública uma identidade relacionada ao candomblé pode funcionar como enfrentamento simbólico ao estigma. A própria Anitta afirmou recentemente que precisou lidar com o medo do preconceito e das consequências profissionais de assumir publicamente sua religião.
Entretanto, uma leitura antropológica não deve parar na celebração da representatividade. Ela precisa perguntar também quem tem o poder de transformar determinado símbolo cultural em capital artístico, econômico e midiático.
O álbum coloca em evidência uma tensão entre ancestralidade e indústria cultural. Elementos que, para determinadas comunidades, possuem significados religiosos, históricos e identitários específicos passam a circular em uma obra produzida para o mercado fonográfico global.
A ancestralidade deixa de aparecer somente como aquilo que diferencia grupos e passa a ser apresentada como possibilidade de cura, pertencimento e equilíbrio. O “outro” cultural deixa de estar completamente fora do sujeito e passa a participar da construção de sua própria identidade. Essa operação dialoga com uma questão central da antropologia contemporânea: culturas não são estruturas imóveis; são continuamente apropriadas, reinterpretadas, negociadas e ressignificadas.
Mas existe um paradoxo. Ao mesmo tempo em que o álbum valoriza referências afro-brasileiras, ele as insere em uma indústria que historicamente transforma diferenças culturais em mercadorias. O que antes poderia ser percebido como marginal, religioso ou subalternizado pode adquirir enorme valor quando apresentado por uma celebridade global.
Há ainda uma dimensão política importante. Durante décadas, determinadas manifestações culturais afro-brasileiras foram classificadas como primitivas, supersticiosas ou inferiores.
Ao final, Equilibrium talvez não encontre exatamente o equilíbrio que anuncia. Ele encontra algo mais interessante: a tensão. A tensão entre religião e espetáculo, ancestralidade e consumo, identidade e mercado, liberdade e mercadoria, experiência pessoal e representação coletiva.
E é justamente nessa tensão que o álbum se torna antropologicamente relevante.
Assim, Equilibrium pode ser entendido como um objeto antropológico da cultura pop brasileira: não porque represente perfeitamente qualquer tradição cultural, mas porque revela como essas tradições são constantemente disputadas, reinterpretadas e transformadas quando encontram o corpo de uma artista, o mercado e o olhar de milhões de espectadores.
Professora Marília Mendes
Prazer! Eu sou a professora Marília. Leciono Linguística e Produção de Texto e estudo Antropologia na Universidade de Salamanca.
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