25/02/2021
Manifesto Uveano
“Precisamos saber qual aluno de direito nossa faculdade quer formar”
Essa frase é emblemática na vida de um estudante de direito. É ela quem guia o curso do rio que está nos levando. E durante muito tempo, falamos sobre essas palavras, as questionamos, estudamos, examinamos, extraímos, lemos, compilamos, resumimos, resenhamos... Mas, mesmo assim, seguimos sem conseguir mudar o rumo de nossos caminhos enquanto estudantes. Isto é: palavras sem ações não nos levam a lugar nenhum
No entanto, não nos espanta ter sido esta frase – “precisamos saber qual o aluno de direito nossa faculdade quer formar” – a escolhida como ponto central no discurso que a presidente do CADIR fez por escrito ao pedir a renúncia de seu cargo no ano de 2005. Em seu discurso ela faz questão de deixar claro que a ação que levava não era uma sinalização de desimportância para com a Universidade, muito pelo contrário: era o desejo de mudança profunda no papel dos estudantes na definição desta frase, que seguia sendo construída de sentido pelo corpo docente, pelo governo, pela família, pelo mercado, mas nunca por estudantes.
À época, o trabalho do CADir era simplesmente burocrático: organização da matrícula, validação de diplomas e certificados de horas complementares obrigatórias, organização de eventos de recebimento de novas estudantes, entre outros vários tapa-vácuos que eram deixados por quem ocupava de verdade a Universidade. A presidente exigia ser ouvida. Ela queria ser mais que uma peça na engrenagem do motor do barco: ela queria discutir para onde aquele rio ia lhe levar. Acredito que de um jeito ou de outro sua carta explodiu nas mentes e corações de muitas pessoas daquela Faculdade.
É nesse contexto que, por coincidência, por destino, por transformação, por sonhos ou por ação, que alguns meses depois surge o Universitários Vão à Escola (UVE). Um projeto de educação popular gerado no seio de uma Faculdade de Direito. Pode parecer estranho, mas não seria se entendêssemos que a arte de navegar, inclusive nossos próprios rios, nos exige prática. E prática se faz com ação. Pode parecer estranho, mas diversos outros cursos quiseram se juntar a gente, e nós viramos um projeto da FD para toda a Universidade. É que rio tem essa tendência, de se juntar pra navegar.
Só sabemos que por este e outros acontecimentos, por coincidência, destino, transformação, sonhos ou ação esta faculdade de corpo discente apático, burocrático, desimportante, e não-ouvido mudou. Mudou muito. Mudou radicalmente. Fomos respeitados, temidos, elogiados e transformados. Em 2010, fomos os principais motores a desenhar o Projeto Pedagógico que a faculdade sempre sonhou, falou, mas nunca quis agir para concretizar.
A importância da UVE na vida dos estudantes, na história da faculdade, na história da Universidade, na vida das pessoas que cruzaram este rio está nos olhos com lágrimas, na trajetória e no orgulho que cada uma dessas pessoas tem em falar deste projeto. Este projeto que, infelizmente, hoje, com 15 anos de história, pode estar chegando ao fim. Mas nós, como bons navegadores, sabemos que todo rio um dia chega no mar. Entendemos que dá para deixar as águas rolarem, os encontros mudarem, as ideias fluírem por outros cantos. Então tudo bem descansar.
Só que ver isso acontecer na nossa frente, para nós que aprendemos tanto nesse barco, nos faz ter vontade de dizer muita coisa. Tudo que vivemos dentro dele, tudo que aprendemos com ele a viver... Mas se tem uma coisa que aprendemos na UVE é que palavras sem ações não nos levam a lugar nenhum. Não queremos que o fim desse projeto seja apenas palavras. Será ação.
E a pergunta continua viva. “Precisamos saber qual o aluno de direito nossa faculdade quer formar.” E vamos explorá-la mais uma vez: como se fosse a primeira. Vamos nos encontrar, nos organizar, nos descobrir histórica, política, estética e culturalmente: quem queremos ser e aonde queremos chegar. Com quem quiser chegar. Com quem navegou por outros rios em outros projetos e cursos e por quem quer começar a navegar por aqui.
Este é o manifesto de um fim, que não tem medo em começar o que virá. É o manifesto de quem se move e quer saber onde vai chegar.