14/12/2020
Florestas ripárias ameaçadas por grandes incêndios nas savanas brasileiras
Grandes incêndios são cada vez mais comuns em savanas tropicais, como o Cerrado e o Pantanal. Novas descobertas científicas revelam que esses incêndios podem representar uma ameaça aos sensíveis ecossistemas de floresta ripária.
Em outubro de 2017, um grande incêndio se espalhou pelas savanas do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, queimando mais de 86 mil hectares de vegetação nativa e preservada (80% da área original do parque).
Agora, um estudo publicado na revista britânica Journal of Applied Ecology mostrou que esse grande incêndio causou uma alta mortalidade de árvores em algumas florestas ripárias do parque. “Para nossa surpresa, as florestas mais impactadas foram aquelas que inundam durante a estação chuvosa”, explica Bernardo Flores, primeiro autor do artigo. Em algumas florestas, o incêndio causou um impacto leve, mas em outras, o incêndio foi destrutivo, matando quase todas as árvores e permitindo que gramíneas invasoras e outras plantas oportunistas, como cipós e samambaias, em poucos meses começassem a dominar o ecossistema. O incêndio também liberou nutrientes da floresta sobre o solo, que agora ficarão expostos a erosão.
O estudo surgiu de uma demanda dos gestores do parque, preocupados com os impactos do incêndio de 2017, e envolveu a colaboração de 20 cientistas de diferentes instituições brasileiras e internacionais. Primeiro, os autores usaram imagens disponíveis pelo Google Earth para quantificar a perda de cobertura florestal na paisagem entre 2003 a 2019, em uma área de 90 hectares. As imagens de satélite foram comparadas com dados de campo, coletados em 36 florestas espalhadas pela paisagem queimada, incluindo informações detalhadas sobre todas as árvores, plantas herbáceas e o solo.
A floresta ripária é um habitat vital para grandes animais, como as onças, pois servem de abrigo em meio às savanas abertas. Quando incêndios reduzem a cobertura dessas florestas, eles podem desequilibrar cadeias alimentares e gerar efeitos em cascata, alterando ecossistemas inteiros. Alem disso, essas florestas reduzem a erosão do solo, mantendo a qualidade da água que flui pelos riachos e alimentam grandes reservatórios de água do Brasil.
No entanto, Rafael Oliveira, co-autor do artigo, explica que “a governança ambiental do Brasil tem enfraquecido nos últimos anos, resultando num aumento de focos de incêndio”. A expansão da agropecuária vem permitindo que gramíneas invasoras se espalhem, tornando as paisagens mais inflamáveis. Com as mudanças climáticas, secas extremas estão deixando as savanas tropicais ainda mais vulneráveis a grandes incêndios com impactos catastróficos que podem persistir por décadas.
“Agora, queremos monitorar se essas florestas serão capazes de recuperar ao estado original, ou se ficarão aprisionadas em um estado de vegetação aberta”, conta Bernardo Flores. A perda dessas florestas ripárias pode ter conseqüências negativas para a fauna e equilíbrio ecológico do parque, e para o abastecimento de água na região. Os resultados do estudo também ajudarão nas estratégias de manejo do fogo nessas paisagens, visando manter as florestas ripárias mais resiliêntes no futuro.
Our findings reveal how riparian forests embedded in tropical savanna landscapes are in danger from large wildfires. The destruction of some forests has opened space for new plant species that may pr...