Laboratório de Anatomia Patológica UFMS

Laboratório de Anatomia Patológica UFMS Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia - FAMEZ
Universidade Federal do Mato Grosso do Sul - UFMS

Foram encaminhadas ao LAP-UFMS amostras teciduais de uma potra, de 3 anos, proveniente de uma propriedade em MS. Em seis...
21/01/2025

Foram encaminhadas ao LAP-UFMS amostras teciduais de uma potra, de 3 anos, proveniente de uma propriedade em MS. Em seis meses, quatro animais do mesmo lote morreram com sinais clínicos semelhantes: hiporexia, urina marrom-avermelhada (1), icterícia (2), ataxia e dificuldade para se manter em pé (3), evoluindo para óbito. Na necropsia, foram observadas mucosas ictéricas, fígado difusamente alaranjado com múltiplas nodulações elevadas pelo parênquima (4) e a presença de urina marrom-avermelhada na bexiga. Na histopatologia, o fígado apresentou áreas multifocais a coalescentes de necrose, em região centrolobular e paracentral, debris celulares e infiltrado de neutrófilos. O parênquima estava difusamente distorcido, com a formação de nódulos de regeneração constituídos por hepatócitos, por vezes preenchidos por pigmento marrom-dourado e circundados por tecido conjuntivo fibroso (5).
O diagnóstico de hemocromatose foi baseado nos sinais clínicos, achados patológicos e epidemiológicos e complementado com a dosagem de ferro no fígado. A coloração Azul da Prússia foi realizada nas lâminas e demonstrou a presença de ferro no citoplasma de hepatócitos e macrófagos (6). O ferro tem como principal função ser incorporado à hemoglobina para fornecer oxigênio aos tecidos, além de ser um co-fator em diversas enzimas. Após a absorção intestinal, é levado para a corrente sanguínea, ligado à transferrina e distribuído pelo organismo. Em excesso, é estocado principalmente no fígado, no citoplasma de hepatócitos e macrófagos, o que pode levar a stress oxidativo e lesão tecidual. Com a progressão da lesão, o animal pode evoluir para um quadro de insuficiência hepática e manifestar sinais clínicos, como letargia, icterícia e sinais neurológicos. A etiologia foi relacionada à ração oferecida, que possuía um alto teor de ferro (100 mg/kg). O consumo da ração, associado ao pastejo em solos ricos no mineral, leva a uma ingestão excessiva de ferro pelos animais, o que pode levar a uma intoxicação.

Tapirus Terrestris, filhote, fêmea, proveniente do CRAS de Campo Grande - MS. O animal fugiu do recinto e voltou após tr...
13/12/2024

Tapirus Terrestris, filhote, fêmea, proveniente do CRAS de Campo Grande - MS. O animal fugiu do recinto e voltou após três dias, com lesões na pele e miíase. No dia seguinte, o animal não conseguia se levantar, apresentava secreção nasal abundante, reflexo palpebral diminuído e dificuldade para respirar.

Na necropsia, as mucosas estavam pálidas. Na região do osso frontal e zigomático havia áreas de alopecia avermelhadas. Em região do esterno, havia área ulcerada e duas áreas perfuradas nos membros torácicos. Todos os coxins apresentavam eritema e havia acentuada presença de carrapatos. No exame interno, o pulmão apresentava-se, com nódulos firmes, elevados e aleatórios, em lobos caudais, medindo de 1 a 3,5 x 2,5cm. Ao corte, fluía material viscoso e brancacento.

Na avaliação histopatológica, observou-se que no pulmão havia múltiplos focos extensos de necrose liquefativa associada a deposição de fibrina, com infiltrado inflamatório de neutrófilos íntegros e degenerados. Na periferia dos focos, foi observado um acentuado infiltrado de macrófagos, com miríades bacterianas no citoplasma. No parênquima pulmonar remanescente, observou-se infiltrado de neutrófilos e macrófagos no lúmen de alvéolos, brônquios e bronquíolos de forma acentuada. Na pleura também foi observada extensa quantidade de fibrina. Na pele havia áreas focais com necrose do epitélio e fibrina.

O diagnóstico do caso foi de broncopneumonia piogranulomatosa e necrosante. Amostras de pulmão foram encaminhadas para exame bacteriológico, onde houve o isolamento de Rhodococcus sp.
Rhodococcus sp. é uma bactéria oportunista que causa principalmente broncopneumonias piogranulomatosas, principalmente em animais jovens ou imunossuprimidos. Apesar de ser mais comum em equinos, pode acometer outras espécies. A transmissão ocorre principalmente pela ingestão de água e alimentos contaminados ou inalação do microrganismo em ambientes excessivamente contaminados.

Foto 1: Pulmão com nódulos firmes e elevados nos lobos caudais.
Foto 2: Detalhe dos nódulos pulmonares multifocais.
Foto 3: Nódulo pulmonar ao corte, mostrando centro de necrose com material viscoso esbranquiçado.

06/12/2024

Em setembro de 2024, o LAP- UFMS recebeu dois casos compatíveis com intoxicação por doramectina em bezerros recém-nascidos, vindos de propriedades distintas. Nos dois casos, o medicamento era utilizado no período neonatal para a prevenção de miíases umbilicais.

No caso 1, os bezerros passaram por manejo de “cura” do umbigo (desinfecção do coto umbilical) e aplicação subcutânea de produto comercial à base de doramectina (3,5g/100ml) em até três dias após o nascimento. No caso 2, o lote afetado foi manejado a partir do terceiro dia pós-parto com o produto comercial Umbicura® e aplicação subcutânea de 2 a 3 ml de doramectina a 1%.

Os sinais clínicos incluem a dificuldade respiratória, incoordenação motora, incapacidade em permanecer em pé e outros sinais relacionados ao comprometimento neurológico (Vídeo 1). Todos os bezerros acometidos nas duas propriedades apresentavam má condição corporal, com evidenciação das costelas e flanco profundo (Foto 1).

Em todas as necropsias foram observadas baixas reservas de gordura corporal e aumento de volume no coto umbilical (Fotos 2 e 3). No rúmen, retículo e omaso havia areia, fibras vegetais e terra, no abomaso havia a presença de conteúdo compatível com leite e moderada quantidade de terra (Fotos 4 e 5). O diagnóstico baseou-se nos achados clínicos e epidemiológicos e na ausência de lesões histológicas significativas.

Apesar de ser considerada um medicamento seguro, a intoxicação nesse caso ocorreu devido a uma falha de manejo nos lotes afetados, o que fez com que bezerros jovens, com baixo peso e reserva de gordura diminuída fossem expostos a doses tóxicas de doramectina. A principal hipótese é que a baixa reserva de gordura corporal favoreça o aumento da concentração plasmática do fármaco, que atravessa a barreira hematoencefálica e atinge o sistema nervoso central, causando a morte.

Mais detalhes sobre o caso estão disponíveis na Nota Técnica 11/2024, disponível no link na bio.

Equino, da raça brasileiro de hipismo, 22 anos de idade, proveniente de Campo Grande – MS. Histórico de emagrecimento pr...
29/11/2024

Equino, da raça brasileiro de hipismo, 22 anos de idade, proveniente de Campo Grande – MS. Histórico de emagrecimento progressivo e no exame radiográfico constatou-se áreas de fibrose no pulmão e nódulo na região de nasofaringe.

Na necropsia, observou-se substituição de aproximadamente 70% do parênquima normal por múltiplas massas, que por vezes se coalesciam. As massas apresentavam superfície lisa, eram elevadas e extremamente firmes. Ao corte, eram bem delimitadas, sólidas, homogêneas, firmes e difusamente brancacenta.

Microscopicamente, observou-se proliferação de tecido fibroso, inflamação mista com linfócitos, macrófagos e neutrófilos, além de corpúsculos virais nos macrófagos. Também havia sinais de mineralização e obstrução dos brônquios com mucina e material inflamatório.

Com base nos achados macroscópicos e microscópicos, o diagnóstico final foi Fibrose Pulmonar Multinodular associada à infecção por Herpesvírus equino. As lesões e as inclusões virais observadas indicam possível envolvimento do herpesvírus equino 1 (HVE1) ou herpesvírus equino 4 (HVE4), ambos comuns no Brasil. Esses agentes causam doenças respiratórias e são transmitidos por contato direto ou indireto entre animais suscetíveis.

FOTOS 1 e 2: Pulmão: presença de massas lisas, elevadas e firmes, coalescentes no parênquima.
FOTO 3: Pulmão: ao corte, massas bem delimitadas, sólidas, homogêneas, fibrosas e brancacentas.

Um surto de mortalidade em 15 papagaios-verdadeiros (Amazona aestiva) provenientes do Centro de Reabilitação de Animais ...
22/11/2024

Um surto de mortalidade em 15 papagaios-verdadeiros (Amazona aestiva) provenientes do Centro de Reabilitação de Animais Silvestres foram necropsiados. Os animais apresentavam letargia, diarreia, desidratação, polidipsia, dispneia e conjuntivite.

As lesões encontradas nas necropsias dos 15 animais eram semelhantes: no exame externo, foram observadas falhas de plumagem ao longo do corpo, fezes pastosas e brancas aderidas às p***s e à cloaca. O escore corporal variou de regular a caquético e havia atrofia do músculo peitoral. No exame interno, fígado e baço apresentaram aumento de tamanho, com bordos arredondados e áreas multifocais aleatórias brancas a levemente amareladas na superfície capsular e no parênquima.

No exame histopatológico, havia áreas de necrose de coagulação a liquefativa, com debris celular e infiltrado inflamatório composto por heterófilos, macrófagos, e em menor quantidade, linfócitos e células gigantes, ap***s no fígado. Muitas vezes, havia numerosos agregados bacterianos no citoplasma de macrófagos e no parênquima. No baço, havia necrose da parede de vasos sanguíneos, com trombos na luz dos vasos. No intestino grosso, havia extensas áreas de ulceração da mucosa em uma amostra.
Foram encaminhadas amostras de fígado e baço para culturas bacterianas, que mostraram reações bioquímicas compatíveis com gênero Salmonella. Exames de PCR identificaram a presença do genoma do sorotipo Typhimurium, enquanto a imunohistoquímica evidenciou imunomarcação positiva para Salmonella spp. nas amostras de fígado, baço, rim, intestino delgado, pâncreas, tireoide, coração e pulmão.

A S. typhimurium é uma bactéria gram-negativa e um dos sorotipos mais importantes da Salmonella enterica, conhecida por causar febre paratifoide em aves e septicemia em casos mais graves, levando a lesões como a hepatite e esplenite, conforme observado no caso acima de papagaios-verdadeiros (Amazona aestiva). Por não ser específico a um único hospedeiro, a S. typhimurium representa um risco significativo à saúde animal e humana, sendo considerada uma bactéria zoonótica.

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13/11/2024

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