05/03/2026
Há circunstâncias em que não é fácil dizer "adeus".
Obituário. Morreu António Lobo Antunes
António Lobo Antunes é um dos últimos escritores que revolucionou o romance no século XX, numa ocasião em que esta forma literária encontrava-se na encruzilhada entre os modelos necrosados do realismo ou as renovações disruptivas e vazias das vanguardas.
Nasceu em 1º de setembro de 1942, em Lisboa, de onde saiu apenas para as viagens em torno da sua obra que começa a se estabelecer com a publicação do segundo livro, "Os cus de Judas" (1979), e para a guerra em Angola, onde esteve entre 1971 e 1973. A literatura, uma obsessão desde a juventude, suplantou o ofício da psiquiatria.
É autor de uma obra vastíssima, que inclui, além dos romances, crônica e algum conto e poesia. "Os cus de Judas" foi ladeado por "Memória de elefante" (do mesmo ano) e "Conhecimento do inferno" (1980), romances que se centralizam nas experiências terríveis da guerra em África e que constituiu um dos temas fundadores da sua obra.
Dentre os 32 romances, destacam-se "As naus" (1988), "Exortação aos crocodilos" (1999), "A ordem natural das coisas" (1992), "Manual dos inquisidores" (1996), "Não entres tão depressa nessa noite escura" (2000), "Que farei quando tudo arde?" (2001), "Eu hei-de amar uma pedra" (2004), "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?" (2009), "Caminho como uma casa em chamas" (2014), "Até que as pedras se tornem mais leves que a água" (2017), "Diccionário da linguagem das flores" (2020) e "O tamanho do mundo" (2022).
Sempre referido nas listas de apostas para o Prêmio Nobel de Literatura, António Lobo Antunes recebeu todos os prêmios mais relevantes dentro e fora do seu país, incluindo o Camões, em 2007. Foi um dos primeiros escritores vivos (e o segundo, depois de Fernando Pessoa) a ver sua obra editada pela prestigiada Bibliothèque de la Pléiade.
António Lobo Antunes morreu em 5 de março de 2026.
📸Miguel Manso.