21/02/2024
DetetIvens à procura da Poesia
Eram os tempos em que o SESC Arsenal começava a apresentar poesia em seu teatro e no jardim interno. O século XX já dissera adeus e tudo era a esperança do novo sem desabrigar a história. Os primeiros recitais foram no salão social com um belo trabalho de dinamismo cultural da Cristina. As pessoas se sentavam nas cadeiras junto às paredes e os mais jovens ficavam no chão, sobre almofadas, ouvindo os versos. Luciene Carvalho, Luiz Renato, Mario Cesar Leite, Marta Cocco, Sodrézinho, Deize Águena e tantos nos encantavam com o Poesia Versos e Cordas.
Pois foi ali no SESC, entre um recital e um lançamento, debaixo das mangueiras do jardim ou sob as luzes da choperia que me veio a ideia de um filme de investigação. A poesia estava morta. Quem havia cometido o crime? Qual era o cenário? O detetive que investigaria era o Ivens. Iam chama-lo no consultório ali na rua Floriano Peixoto, pertinho da Escola Técnica, em frente aonde morou Dona Zulmira Canavarros.
No melhor estilo Hercule Poirot ou Nero Wolff (dois inteligentíssimos e corpulentos detetives da literatura e do cinema) Ivens chegava e logo punha ordem no reino caótico do mundo sem poesia: - Ninguém deixe o local sem permissão!
Sim, o local do crime era o SESC Arsenal e os suspeitos eram todos os poetas que haviam conhecido a poesia. O interrogatório consistia em cada um dos poetas dizer um verso como testemunha. O meu poema, eu já havia escolhido, para ser declamado debaixo das mangueiras:
Édipo Preguiçoso
nada é tão mãe
(depois da mãe)
do que a sombra da mangueira
Uma pena que nas falas não apareceriam os parênteses protetivos como um abraço e o conforto de uma mãe! Que pena! Por essas e por outras que a poesia é cinema e outra coisas mais. Lucinda Persona, Antonio Sodré, todos os poetas diriam seus versos enquanto eram interrogados no jardim e nas salas do Arsenal. A todos Ivens interagiria, como um poeta mentor e acompanhado pelo seu assistente caracterizado como Castro Alves e que seria o Juliano Moreno que na época tinha o bigodinho aparado e a cabeleira típica do poeta romântico baiano.
Até o imortal Antonio Carlos Secchin viria dar seu testemunho com seu poema publicado na coletânea Ladrões do Fogo em sua plaquete “Diga-se de Passagem”
REMORSO
A poesia está morta.
Discretamente,
Alberto de Oliveira volta ao local do crime.
Coitado do Alberto de Oliveira. Ser um poeta parnasiano não é assim o pior dos crimes. Afinal o espírito de Shakespeare seria invocado e o bardo inglês sentenciaria: “Uma má poesia é melhor do que nenhuma”.
Finalmente nosso Detetive Ivens (ou DetetIvens) perguntaria: - Onde está o corpo?
E os poetas todos ficariam confusos. Não havia corpo! A poesia era imaterial! Era Espírito! E como espírito habitava na alma de cada poeta, em cada leitor, em cada ouvinte ou espectador!
Investigação concluída. Ivens pegaria suas Asas de Ícaro e voaria para o seu céu de Mil Mangueiras, deixando Kyvaverá à sua própria sorte. Se bem que uma sorte poética. No caminho, Ivens ouviria “Conversa de avó” (Kyvaverá p.79)
Não, as borboletas não são mudas
é que cantam muito baixinho
Aclyse de Mattos – 21.02.2024