26/03/2023
O som /k/ do CH no latim científico
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Quem trabalha com nomes científicos precisa saber algumas regrinhas de pronúncia do latim científico. A boa pronúncia ajuda na comunicação, demonstra propriedade de conhecimento na área, padroniza a fala e faz parte da cultura dos que trabalham com espécies de plantas, animais, fungos, algas, protozoários ou outros grupos.
A regra de pronúncia latina mais comum, que todo estudante de Biologia aprende logo no início da graduação, é a de que o dígrafo CH tem som de /k/. O camaleão ‹Chamaeleo› f**a /kaméleo/, não tem como se esquecer.
Na maioria dos casos, o CH originou palavras com mesmo som em português. Foi assim que ‘chelonium’ virou quelônio e ‘chordatus’ nos chegou como cordado.
A regra é simples, mas não podemos nos deixar enganar com adaptações erradas que fazem por aí. Dou alguns exemplos.
O gênero ‹Rochalimaea› de bactérias é uma homenagem ao bacteriólogo brasileiro Henrique Rocha Lima. Apesar de pronunciarmos Rocha como /róxa/, no nome científico a pronuncia é /rokaliméa/. Não importa a língua de origem, se o nome foi latinizado, a pronúncia também é.
O mesmo vale para a ave que adora um campo de futebol. O quero-quero tem nome científico ‹Vanellus chilensis›. Ainda que o epíteto específico seja relacionado ao Chile, temos de pronunciá-lo como /kilênsis/.
Alguns nomes científicos foram incorretamente aportuguesados com CH. Por exemplo, o arbusto ‹Schefflera› virou cheflera; o ‹Schistosoma› tem sido também escrito xistossomo; a suculenta ‹Echeveria› está como echevéria. Mas não se engane, na leitura de seus gêneros, em latim científico, as pronúncias devem ser /skefléra/, /skistossôma/ e /ekevéria/.
Vamos perceber que, no latim científico, ‘cha’, ‘cho’ e ‘chu’ têm as mesmíssima pronúncia de ‘ca’, ‘co’ e ‘cu’. Então, alguém pode perguntar: qual a utilidade desse ‘h’, então? Dificultar mais a vida do povo das Ciências Biológicas?
O H era pronunciado no latim clássico, que vigorou do século II a.C. ao II d.C. Ele indicava um leve sopro, chamado aspiração. É o mesmo que ocorre quando se pronuncia ‘cat’ (gato) em inglês. Nós nem percebemos direito, mas, comumente, ingleses e estadunidenses pronunciam /kʰét/ ou /kʰát/. Para saber se sua pronúncia tem essa típica aspiração, coloque sua mão ante a boca, diga ‘chaos’ (caos) e perceba se sai algum ventinho. Se sair, é a pronúncia ideal do inglês e do latim clássico.
Na Antiguidade, era esse soprinho que diferenciava, por exemplo, ‘chara’ (uma planta) de ‘cara’ (rosto) e ‘chorus’ (coro) de ‘corus’ (vendo do noroeste).
Porém, ai porém, com o passar do tempo, o latim foi sofrendo modif**ações. No latim científico, do século XVII em diante, o H de CH já não remetia mais a uma aspiração. Ele foi mantido, entretanto, porque garantia o som de /k/, além de ser útil nas etimologia e na diferenciação entre palavras próximas. ‹Channa›, por exemplo, é um gênero de peixes enquanto ‹Canna› é de planta. Nos dois casos, a pronúncia é a mesma, /kâna/.
Toda língua tem lá suas exceções e com o latim não haveria de ser diferente. É consenso de apenas um caso em que CH pode não ter som /k/ no latim científico: quando for ‘tch’, ‘tsch’ ou ‘tzsch’, o som é o mesmo de ‘tch’ em ‘tchau’. Assim, ‹Welwitschia› f**a mais bem pronunciada como /velvítchia/.
Complicadinho esse tal de latim, né? Eh, eh... Não se preocupe, pois, com um pouco de treino, a fluência vem naturalmente.
📚 Referência: ‘A pronúncia do latim científico’, por Rafael Rigolon, 2ª ed. (2019).