08/10/2026
MÚSICA E MAÇONARIA: a alquimia do som e o mistério da criação
Há um segredo que as pedras das catedrais sussurram a quem sabe colocar os ouvidos no lugar certo: o mundo não é feito de matéria, mas de um eco que decidiu parar.
Escrever sobre Música e Maçonaria não significa apenas listar partituras ou celebrar a engenhosidade de Mozart ou de outros grandes músicos; significa compreender quão sólida é a escada que usamos para descer ao mundo e a única que podemos subir para subir de volta.
É um machado que quebra o mar congelado dentro de nós.
Criação como condensação: do Espírito à Pedra
Devemos imaginar a origem não como uma explosão, mas como uma vibração muito pura, um ponto de luz sonora tão sutil que é inaudível.
O etnomusicólogo Marius Schneider, na sua imensa obra sobre o “Significado da Música”, ensina-nos que a criação é um processo de condensação sonora. O som se propaga e, afastando-se da fonte, “desacelera”. Torna-se mais denso, mais pesado e mais grosseiro através de estágios sucessivos:
O estado sutil: é o ritmo puro, a ideia, a respiração que ainda não tem forma.•
O estado fluido: é a melodia que começa a fluir, a energia que toma direção.•
O estado sólido: é matéria.
A pedra que tocamos, o corpo que habitamos, nada mais são do que “música petrificada”.
Nesta visão, o universo é uma imensa partitura onde cada objeto é uma nota que perdeu o seu movimento original. O trabalho na Maçonaria consiste em devolver movimento ao que está estático, em redescobrir a vibração vital dentro da pedra bruta.
O sopro da vaca cósmica: do MUA ao AUM
Schneider explora uma passagem fonética e espiritual que é fundamental para todo rito de passagem: a passagem de MUA para AUM. O MUA é o berro da “Vaca Cósmica”, símbolo arcaico da Grande Mãe, da Natureza que gera.
É uma emissão sonora que vai para fora. É o som da involução: o espírito que se projeta na matéria, o sopro que se dispersa no mundo manifesto para lhe dar vida. É a vida que acontece, a força bruta que cria formas.
A iniciação, entretanto, é um processo inverso. É aqui que o MUA vira e se torna AUM. A passagem representa a consciência retornando à fonte.
Se o MUA é a emissão, o AUM é a reabsorção: A-U-M:
É o processo vocal que parte da garganta (A), atravessa o palato (U) e se fecha nos lábios e nariz (M), trazendo o som para dentro, em direção ao silêncio da mente.
É a jornada do iniciado: deixar de ser apenas um produto da natureza para se tornar um construtor consciente que traça a corrente do som até o Silêncio Original.
Água Corrosiva: o poder hermético do som
Neste contexto, a música não é apenas um prazer estético, mas uma operação de alquimia interna. Os antigos textos herméticos falam da Água Corrosiva, aquele solvente capaz de dissolver até os metais mais duros.
A música atua exatamente assim nas “concreções do ego”. O ego é uma estratificação de hábitos, medos e defesas que se instalaram na nossa essência como pedra calcária. A música ritual, com a sua precisão geométrica, penetra nestas defesas:
1. Infiltrar-se: entrar onde a palavra racional não consegue chegar.
2. Corrói: vibra na mesma frequência das nossas rigidezes, despedaçando-as.
3. Resolver: reduz o ego ao estado líquido, permitindo que a consciência flua novamente.
Renovação constante: música nova para o Ser eterno
Mas a música não é um artefato que deve ser guardado sob um vidro. Está vivo, assim como está vivo o Ser que foi, é e será. Por isso a harmonia deve ser sempre renovada. Não podemos esperar dissolver a dureza do coração contemporâneo utilizando apenas as linguagens do passado.
O ser humano muda e com isso o instrumento sonoro que passa por ele deve evoluir. A procura de uma música nova, adequada à linguagem do nosso tempo, não é uma traição, mas um dever: significa manter o ritual pulsante, capaz de falar ao homem de hoje com a mesma força que os construtores de catedrais.
A palavra que vira teclado: sustenidos e bemóis
Existe uma imagem final que transforma o símbolo em ação. Se baixarmos o olhar, vemos o chão xadrez: aquele dualismo de preto e branco sobre o qual apoiamos os pés, o campo de batalha da nossa existência entre a luz e a sombra.
Um dualismo que é apenas aparentemente estático. Na verdade, se olharmos para o teclado de um piano, aquele piso subiu, tornou-se um instrumento. O maçom não é apenas aquele que aprende a caminhar em equilíbrio sobre o mosaico. É ele quem aprende a tocar.
O teclado nos ensina que não se pode compor música usando apenas as teclas brancas. Uma melodia toda branca é plana, infantil. Precisamos de sustenidos e bemóis – aquelas teclas pretas que representam nossas “alterações”, nossas dores, nossas sombras – para criar a verdadeira Harmonia. O segredo não é escolher uma cor, mas sim ter o toque capaz de uni-las num acorde vibrante.
Cada vez que a Coluna da Harmonia ressoa numa sessão, testemunhamos uma nova génese. Somos seres feitos de som que esqueceram a sua própria melodia. A música é o chamado que nos lembra que a nossa verdadeira pátria não é apenas a pedra feita de matéria que pisamos, mas o sopro que a habita.
(Artigo de Hermes, publicado no Expartibus).
Venha viver esse propósito!
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