GPL Página de divulgação de textos do GPL (de escrita literária) da UFPR. Envio de textos para publ O único requisito é gostar de escrever.

O Grupo Paulo Leminski foi criado para reunir estudantes que se interessem pela escrita e que estejam dispostos a conversar sobre seus anseios e receios, discutir sobre assuntos pertinentes à atividade de escrever, compartilhar textos e fornecer incentivo mútuo. Todos e todas são bem-vindos. Todas as sextas-feiras, às 12h, na sala 202 (do departamento de Psicologia) do Prédio Histórico da UFPR.

16/11/2022

Meu madruga era um cara bacana - um dia após ontem.

Só era meio trouxa mesmo, até porque, quem não é de vez em quando?

Quem nunca, né? Afinal, num momento como esse, você não faria?

Depende, é claro, de colhõoes, mas a tentação sempre encoraja!

A língua pinga em óleo, a mão tremelica, mas a vontade empurra.

Empurra, mascara, mas cede.

E depois de ceder, não tem mais volta.

Ah, mas também que se f**a!

Assim disseram, no unanimato.

- Moloch, o ressurgido.

segurem vossas pelancas, estamos prestes a postar um novo moloch
16/11/2022

segurem vossas pelancas, estamos prestes a postar um novo moloch

Caros amigxs!Meu nome é Henrique, eu sou um dos membros do GPL e estou em vias de lançar meu primeiro livro, Dois Dedos ...
10/11/2019

Caros amigxs!

Meu nome é Henrique, eu sou um dos membros do GPL e estou em vias de lançar meu primeiro livro, Dois Dedos de Poesia para Abrir o Apetite!

Contudo, como eu não tenho recursos para arcar com os gastos editoriais e gráficos, eu estou realizando um financiamento coletivo pelo Catarse para conseguir realizar esse sonho, através do link:

https://www.catarse.me/dois_dedos_de_poesia

Deem uma olhada e, se gostarem, apoiem e compartilhem pra ajudar a literatura nacional!

Contos que abrem o apetite para a literatura, levemente inebriante como toda poesia acaba sendo.

11/09/2019

Quebrar as correntes não adianta nada
Comer arroz é uma piada
HAHAHAHA! Eu detesto uva passa!
Passa? Não tão passada quanto sua mãe!
Aquela burguesa mocoronga é uma ameixa seca!
E entre os frutos, ameixa me deixa ser roxa; que coisa!

Moloch, o Breve.

06/10/2017

Entre os dias 23 e 28, a Biblioteca Pública do Paraná realiza sua primeira Festa Literária (Flibi). O evento conta com a presença de mais de 20 escritores, que participam de palestras, bate-papos e lançamentos de livros. A programação ainda inclui oficinas, sessões de cinema, apresentações musicais e teatrais. O homenageado desta edição de estreia é o escritor Manoel Carlos Karam (1947-2007). Todas as atividades são gratuitas. Saiba mais: http://bit.ly/2xYL8uI

25/09/2017

Comentário de Deus sobre os humanos:

É por isso que eu odeio advogados. Vocês, humanos, são tão apaixonados pela sua racionalidade, pelo seu pensar, que esquecem do sentir. Tão preocupados com sua limitada lógica, com essa dialética precária, com sua razão ínfima, que não são capazes de compreender nem a própria ignorância. Tudo está errado. Dei-lhes exclusivamente um pequeno discernimento, mas isso é o que vos difere dos demais. É justamente o seu sentir, que vos é pleno, que vos une com o resto dos seres, como parte do Todo. Não seu pensar. O amor e a compaixão, guias e norteadores que são, são colocados atrás da ceticidade e da frieza de sua razão tão parca. A felicidade simples e o amor perdem para a inevitável tristeza do seu não conhecimento. A supremacia da lógica é tirana. E o advogado, assim como todo o sistema jurídico, é superestimado e incompetente. Abandonem a eternamente fracassada ciência. Abandonem as discussões sem fim. E, pelo amor de Mim, abandonem de uma vez por todas os advogados!

-Dottoly

04/09/2017

Carta aos Lobos

Tem algo que eu quero te dizer,
Isso não tem nada a ver comigo, não tem nada a ver conosco.
Só quero dizer que não deveria ter sido grosso contigo. Só porque não quero te ver não signif**a que devo te hostilizar.
Se você ainda está mal pelo que houve, espero mesmo que isso possa te ajudar, porque no final do dia, acredito que todo mundo merece ser feliz.
Não sei como você se sente em relação a mim, não sei se é fraco ou forte, se é raiva ou ressentimento. Espero que você saiba.
Mas o que você é pra mim, bem honestamente, é um fantasma.
Entre o que aconteceu entre a gente, e depois o término e depois aquela época estranha em que eu era totalmente obcecado por você eu conheci várias ###XXs, algumas mais reais que as outras. As vezes a melhor delas - que não sei se realmente existiu - insiste em me vir em mente, e acredite, eu tentei proativamente te esquecer.
Não signif**a que eu pense em você o tempo todo, mas as vezes eu me pego me sentindo melancólico, e as vezes eu me pego ansioso, achando que você está por perto.
E de repente... você está.
E eu não faço ideia do que fazer.
Eu não sei mais quem você é e quem quer que seja, eu realmente acredito que nós nos machucamos demais para me dar qualquer vontade de querer descobrir.
E eu quero perder esse fantasma.
Não quero me assustar quando te encontrar do lado de casa e pensar "o que caralhos ela tá fazendo aqui" até lembrar que a sua escola de francês f**a ali do lado e é provavelmente isso que você está fazendo no meu bairro.
Não sei como fazer isso mais do que já faço.
Acho que melhorei antes que você, por "n" motivos que não cabem ser discutidos aqui. Mas isso não é uma competição, e o quanto melhor você me superar, melhor vai ser a sua vida também.
Veja, lá no fundo eu me preocupo com a ###Xinha, da escola ainda. E não é por saudosismo, mas essa é a pessoa que eu conheci e cativei, e se fomos tóxicos por nos aproximarmos, entendo que é melhor que estejamos distantes da vida um do outro, desde que essa distância não assombre.
Essa carta é exatamente isso: se eu me assusto quando lembro de você, você deve ter o mesmo, e também deve estar com um fantasma de mim no seu pescoço, o que deve ser horrível.
E por isso escrevo como eu, puro e simples eu, desarmado, sem intenções, mas porque eu legitimamente acredito que isso possa te ajudar, e me ajudar também.

- Lebre

24/05/2017

Plots de Vento

Plot twist: em um giro tão rápido quanto inesperado, meu pé acertou a arma do assaltante, jogando-a para longe na escuridão, e meus punhos se fecharam, um em seu braço estendido e, o outro, em suas costas, forçando-o ao chão e rendendo seus movimentos. Liguei para a polícia. Hoje, eu salvei o dia.
Mas as pernas movimentam-se maquinalmente pelo caminho habitual, na ausência de qualquer reação apropriada. O corpo está fraco, a mente cansada, evito pensamentos para não desanimar. Pelo menos, preciso chegar em casa.
Plot twist: velas estão acesas e espelhadas pela sala de estar. As luzes estão apagadas. Na penumbra, minha esposa se aproxima com seu gingado suave. Suas pernas claras estão escurecidas pela cinta-liga e a cintura tentadora protegida por um espartilho vermelho, da cor do batom que brilha às velas no seu sorriso.
-Oi, gostoso.
-Eu acabei de ser assaltado – é o que consigo dizer, sem esconder minha tristeza, mas sem qualquer intenção de arruinar o clima.
-Não se preocupe – ela me guia até o sofá, acariciando minhas costas e me faz sentar – Eu estou com muitas saudades de você – ela se senta no meu colo, com as pernas envolvendo as minhas – Hoje você não precisa se preocupar com mais nada além de mim.
Mas eu acordo novamente sozinho, na cama de casal parcialmente vazia, um pouco mais cedo que o de costume. Tomo um banho, como de costume. Barbeio-me, como de costume. Visto-me, tomo um café – preto, sem açúcar – e entro no carro, como de costume. Mas hoje está muito quente, então me permito ir sem o paletó, para variar.
Plot twist: há uma briga na delegacia. Ágil como um felino, separo o agressor do agredido e descubro que fiz a escolha certa: o homem caído no chão porta uma camiseta preta com símbolos da Polícia de Curitiba. O bandido tenta fugir, mas eu consigo lhe derrubar no chão, não resistindo em lhe passar um sermão de como a vida é difícil, mas a violência não ajuda. Percebo então que o malfeitor era o mesmo da noite anterior e, após o policial prendê-lo e me agradecer muito, consigo meu celular de volta.
Mas o boletim de ocorrência demora para sair, o funcionalismo público é lento, e os ponteiros do relógio correm ameaçadoramente contra mim. Enfim, chego ao estacionamento. Cruzo o pátio entre os carros, em direção ao prédio imponente com os dizeres “Moinhos de Vento” abaixo da silhueta de um cavaleiro empunhando uma lança. Tento evitar pensar no sadismo irônico de quem decidiu nomear uma empresa de televisão em homenagem ao personagem que ficou famoso por desperdiçar sua vida. Como de costume, falho.
Bato o ponto. Espero o elevador. Entro no elevador. “O 12º, por favor”. Saio do elevador. A caminhada sem esperança até minha mesa. Ligar o computador. Fazer outro café enquanto a máquina decide se funciona ou não – com leite, dessa vez. Sentar na escrivaninha. Abrir o Excel, as planilhas do Word e, só dessa vez, o Google Chrome. Só preciso conferir se alguém me mandou mensagem, afinal, estou incomunicável de outras formas, uma vez que não mais possuo celular.
Plot twist: De todas as mensagens que o site me mostra, a que mais me chama atenção é de Rafa: “Quanto tempo, amigo, e quantas saudades! O que você pretende fazer essa tarde? Se tiver um tempo livre, apareça em casa. Talvez, podíamos até reunir a velha banda pra tirar um som. Aquele abraço!”. Sem pensar duas vezes, desligo o computador, pego o carro e vou ver meu antiquíssimo amigo.
Mas a única notif**ação que o Facebook me mostra são trinta curtidas no post sobre o assalto. Dez são reações tristes. Nenhum comentário. Nenhuma mensagem. Fecho o site frustrado.
Sou convidado para a salinha do meu chefe. É uma sala pequena, cuja porta dá para as demais mesas com meus colegas. Cruzo a distância em passos curtos e lentos, cogitando se fiz a escolha certa em vir sem paletó. Minha camisa clara parece ser a única da sala que veio desacompanhada. Não quero passar a impressão de desleixado. Fecho a porta discretamente ao passar.
-Precisamos conversar – começa o homem por trás dos óculos.
Plot twist:
-Não, não precisamos. Eu não me importo a mínima com o que você tem a dizer. E você não se importa a mínima com o que eu tenho a dizer. E, sabe o que mais? Ninguém se importa a mínima com p***a nenhuma que a gente faz aqui. Essa m***a estúpida de canal de televisão, somos escravizados em um trabalho medíocre, numa vida medíocre para que uns gordos medíocres possam jantar enquanto assistem a novela. E você ainda se acha o dono do mundo porque tem uma salinha minúscula no meio dessa m***a toda. Quer saber? Eu quero que se f**a. Esse trabalho, essa empresa e você! Eu é que não vou f**ar arrastando meus dias, esperando pela minha morte, num trabalho escroto, e menosprezando meus pares porque eu tenho um dígito superior no meu pagamento. Fique à vontade com seu trabalho m***a, e espero que um dia você tenha a coragem de perceber como você desperdiçou sua vida inteira atrás de Moinhos de Vento.
A transmutação no rosto do homem é tão expressiva quanto cômica. Primeiro, o choque do inesperado, depois a raiva e a fúria subindo como o vermelho no seu pescoço. Mas eu bato a porta na sua cara antes que ele comece a bravejar. Grito algumas palavras aos demais e saio, sem sequer voltar para minha mesa para pegar meus pertences. Entro no meu carro e dirijo, sem direção alguma, até sair da cidade e além. Na rodovia, abro o vidro e deixo os pingos suaves da chuva açoitarem o sorriso mais sincero que eu dou em anos.
Mas eu fecho sua porta suavemente, sem fazer nenhum barulho, logo após contar a triste história da noite anterior e pedir perdão pelo atraso. Ele faz qualquer sinal que eu não me importo e diz qualquer coisa igualmente irrelevante. Eu nunca me atrasava, não precisava mesmo de sermão.
O horário passa, como de costume, estupidamente lento. Eu me permito olhar para o relógio algumas vezes. Faltam duas horas para o almoço. Uma hora. Almoço no restaurante do prédio, que é um pouco mais caro, mas a comida é melhor. Dou-me esse direito, não estava sendo um dia bom. Mais quatro horas. Três horas. Duas horas. Uma. Meia-hora. Vinte minutos. Quinze. Dez.
Com cinco, eu desligo meu computador angustiado. O ar dentro da empresa estava me fazendo mal. Sinto minha pressão baixando e a respiração ofegante. Esperar elevador. Descer de elevador. Sair. Bater o ponto. Ainda faltam dois minutos para dar meu horário. Respiro e vou tomar uma água.
Olho para o copo distraído. É meu primeiro copo de água o dia inteiro. Foram algumas xícaras de café, soda no almoço e só. A água me olha de volta com cara cansada. Aquilo me fazia falta. Não era só isso. Tanta coisa me fazia falta. Eu tinha esse vazio...
Enfim, 18 horas. Viro o conteúdo do copo e descarto-o no lixo apropriado. Bato o ponto e volto para o carro. Nem ligo a rádio para voltar para casa, não é muito tempo. Mantenho sempre entre cinco a dez quilômetros por hora a baixo da velocidade máxima. Não preciso de uma multa agora.
Plot twist: Um carro passa ao meu lado correndo pelo farol fechado. O outro carro, que estava em sua vez de atravessar o cruzamento, é acertado em cheio, exatamente no meio, e arrastado por uns bons metros antes da inércia o parar. Eu já estou correndo em direção ao acidente, atravessando o cruzamento movimentado com a destreza de uma raposa. Chego ao local e um dos carros está capotado. O calor indica que algo está pegando fogo. Arrasto-me por sobre os vidros quebrados no chão e vejo uma mulher semiconsciente, presa de ponta-cabeça pelo cinto. Pelo espaço quebrado da janela, entro e tento soltar o cinto da mulher. O calor me deixa nervoso e o cinto não abre, mas eu tenho uma boa ideia. Corto-o com um caco de vidro que estava ali, manchando meu ato de heroísmo com meu sangue. Suporto o peso da mulher com tranquilidade e a arrasto para longe da confusão, sentando-a na calçada. Ela balbucia alguma coisa que soa como “minha criança” e eu, ligeiro, corro para o carro olhar no banco de trás. Em choque e desespero, uma menininha de não mais que sete anos me olha com os olhos azuis gigantes. Está acuada do outro lado do veículo, sem reação. Eu converso com ela. “Está tudo bem” “Você precisa vir comigo” “Sua mãe está preocupada”. Ao que ela lentamente se aproxima, dando-me tempo suficiente para salvá-la do inferno quente que é aquela situação.
Corro com a criança no colo enquanto o carro explode atrás de mim. O sorriso de tranquilidade no rosto da mãe, de conseguir rever sua criança salva, é tão sincero que eu não consigo evitar de sorrir também. Deito a criança no chão, ao lado da mãe, ordeno a um passante para chamar a ambulância e evito que as pessoas se aproximem muito da família. Tento lembrá-las da importância de respirar. Volto para casa com o coração leve e um agradecimento profundo.
Mas uma sinfonia de buzinas ressoa atrás de mim e eu tiro meu carro lentamente do cruzamento. Abro a porta do apartamento cedo, mas sei, antes de entrar, que ele ainda está vazio. Antes de fechar a porta, já abri os primeiros botões da camisa. A chave no chaveiro e entro no quarto. Primeiro tirar o cinto. Depois os sapatos. Depois terminar de abrir a camisa e colocá-la para lavar. Dobrar meticulosamente a calça. Vestir as roupas leves e sair para a caminhada. Pelo menos, não preciso me preocupar com levar o celular, esta noite.
Volto para casa suado e vou direto para o banho. Ao sair, não estou mais sozinho. Mas minha esposa simplesmente ignora a sua prolongada ausência. Eu também o faço. Comento sobre o assalto. Ela ri, sarcástica:
-Como se já não tivéssemos problemas o suficiente.
Jantamos em silêncio. Melhor dizendo, tomamos café. Comemos pão e bolachas, nada muito mais. Trocamos algumas palavras sobre o dia enquanto nos preparamos para dormir. Enfim, deitamos na cama e viramos, cada um para seu respectivo lado, de costas um para o outro. Apagamos as luzes. “Boa noite”. Fecho os olhos. Respiro fundo. Durmo. Tento.

O que foi? Esperava um plot twist?
Eu também.

-Dottoly

08/05/2017

Agora os dias seriam para sempre solitários. Salvo os momentos de grande conexão e imersão, os quais nunca poderei manter por longos prazos, pois até do Todo é necessário respirar. Salvo também quando a sensibilidade corre livre pela floresta da minha mente, sem preocupações – os momentos de fé absurda onde me sinto embalada pelo vento como um bebê embalado por sua mãe até o sono profundo e pacífico. Como eu queria embalar você, pequena. Agora, é tu que me embalas de longe, noutro plano talvez, e o sorriso fúnebre em meu rosto faz sentido, f**a até bonito, uma beleza funesta e lânguida onde florescem as flores mais belas e cheirosas que eu já vi.
Mas na estepe onde me criei, e a qual visito regularmente, não há flores se não as que estão entre os meus dentes afiados. Brotam no meu estômago e nascem pela minha garganta. Fora isso, por onde meus olhos alcançam até bater nas montanhas longínquas, se estende esse mar de herbáceas com raras ilhas de tímidos bosques. A estepe não seria a primeira opção da maioria, mas assim vivo eu. Sempre pelo jeito mais difícil a fim de entender o que é o mundo: cicatrizes não me faltam neste couro. Aqui o cheiro fresco da grama infinita, meu tapete imperial, entope minhas narinas com liberdade. Minhas patas deslizam pelo solo e não tenho medo de me expor à luz do Sol ou da Lua – há apenas eu, e ninguém mais. Todos se foram. De longe ouço as vozes, sua sombra, seu espectro, mas não podem se aproximar. Onde minhas patas me levam nenhum mortal ousaria pisar, muito menos dentro da noite: escura e silenciosa, ela brilha com seu espetáculo de diamantes no veludo do céu imenso que se ergue sobre mim. Há paz, plenitude e nenhuma questão. O lobo da estepe respira fundo e adormece.
E agora meus olhos se abrem para o mundo, para esse mundo, tão material e sólido. É onde moro e de onde desejo desesperadamente escapar. Parece uma jaula, mas essa é uma jaula muito espaçosa. Tão espaçosa que me sinto presa do avesso, algo como livre demais, sem propósito, desandada no destino, sem norte. A saudade permanece intacta, a bússola: destruída. Meu selvagem urra e se contorce perante as limitações desde corpo – deste universo que as vezes me parece são seco, infértil e cruel. Uma vastidão de desapontamento. Farejo a bondade, minha caça solitária, por vezes me leva à exaustão completa e perco os sentidos, me dissolvo e deixo de sentir, me torno uma estátua de mármore. Só que passa a brisa quente de uma lembrança de verão, então me esquento e derreto. Há sempre algo pelo que sorrir, se procurarmos bem. Talvez eu tenha só um bom faro, nada mais.
Que fazer se não explorar, então? De que valeria a vida se não fosse a magníf**a aventura de se f***r pelos quatro cantos do mundo e descobrir todas as maravilhas escondidas, os tesouros, e dentro das pessoas: os milagres? Deixe-me viver até o fim. Não restará uma última gota de sangue, pois tenho a sede de uma matilha. Em cada canto uma história, um novo universo a se descobrir. Levanto da cadeira de balanço na varanda e então começo a corrida interminável, o lobo descendo uma gigantesca colina, tão colossalmente enorme que mal podemos notar sua inclinação. A dona da noite ainda brilha no azul claro do céu, recusa, rebelde contra o amanhecer; Ela não quer se (o)pôr. Apago meu tabaco no cinzeiro, e a fumaça que se levanta defuma minha aura. A sensação seca e quente desta neblina que chega aos meus olhos - como a neblina das primeiras horas do dia - contrasta com o mato que roça úmido em minhas patas. Elas se chocam contra o solo, barulhentas, espirrando o orvalho da alvorada – desperta agora por trás das montanhas, os titãs invencíveis. Desço do alpendre, encarando o breu da noite que ameaça me engolir e me transfigurar. Fecho os olhos. Corro e corro para o infinito, e uivo para a Lua.

- Sabina, la bruja

*Enviado pelo nosso formulário aberto ao público:

25/04/2017

Outra Mafra

A mãe telefonou para a vó. Os fios dos postes das estradas são tão firmes - e o Eli grita. O tempo se arrasta, as casas de madeira restam em pé.

Nossas vidas não vão parar, mas um pedaço da minha ficou lá.

- F.L.T.

*Enviado pelo nosso formulário aberto ao público:

12/04/2017

-Descobriu algo sobre A Espada de Pérola Filho?
-Não muito pai. Smid Renoster, o ferreiro, disse que ela não seria nada útil em uma batalha. Skat Kat, o tesoureiro, disse que ela seria valiosíssima. Hond'Slot Voogd disse que era só uma lenda.
-Fico feliz com a sua dedicação na busca, mas Smid, Skat e Hond'Slot estão errados. Ela é a melhor arma que um guerreiro pode ter, ela não tem preço e, acima de tudo, A Espada de Pérola não é uma lenda.
-Como você sabe papai?
-Porque eu já vi ela meu filho.
-E por que o senhor não a guardou?
-Ela pertencia a outra pessoa, não era correto.
-Mas o senhor é o rei, essa pessoa lhe daria a espada se assim o senhor desejasse.
-Nisso você está certo, mas a espada pertencia a um grande amigo que salvou minha vida.
-Então o senhor o deixou f**ar com a espada como agradecimento?
-Não meu filho. Deixei a espada com ele pois era o certo a se fazer.
-Mas o que A Espada de Pérola tem de tão especial?
-Vou lhe contar a história, assim como um dia ela foi contada a mim:

O jovem príncipe Tand Koning empoleira-se na cama, abraçado ao cobertor, seus olhos vermelhos seguindo os movimentos de seu pai, o rei Klou Koning, enquanto esse servia dois copos, um com água e outro com hidromel. O rei ofereceu a água ao filho, que o recusou com um gracejo pomposo que satirizava as normas de etiqueta da realeza. Seu pai deu um um sorriso com o canto da boca, o suficiente para mostrar a larga base de seu dente canino, bebeu um gole de seu hidromel, limpou a garganta e começou a contar a história:

-Houve um tempo, antes dos animais se erguerem, antes dos homens surgirem e caírem, antes mesmo de Garig existir...
-Mas essa é a história dos 8 dragões papai!
-E é mesmo. O que você sabe sobre eles?
-Bom... o professor Da Wyss contou que no início havia apenas o vazio. O vazio e os oito...
-Você sabe o nome dos oito, filho?
-Sim! - Animou-se o garoto, então assumiu uma postura solene para prosseguir, de olhos fechados - Yong, guardião do Salkhi, o vento. Enihika, guardião do Us, a água. Drage, guardião do Gal, o fogo. Draak, guardião do Ayanga, o relâmpago. Tarakona, o guardião do Delkhii, a terra. Drako, o guardião do Tsag, o tempo. E por fim, Luu, o de duas cabeças guardião do Suns, o espírito. - O jovem príncipe abriu um dos olhos para ver se o pai aprovava.

O rei acariciava sua barba, fez um sinal de aprovação com a cabeça e prosseguiu:
-Muito bem, e se eu lhe disser que Salkhi, Us, Gal, Ayanga, Delkhii, Tsag e Suns são na verdade o coração, a essência e o poder dos 8?
-Não entendo. Quer dizer que os 8 são os guardiões deles mesmos?
-Não exatamente. Ninguém sabe dizer se os Suvdan, a essência, veio antes dos Burkhan, os dragões, nem se eles são uma coisa só. Apenas que eles existem. Nesse caso, quem você acha que é o mais poderoso?
-Luu?
-E por quê?
-Porque sem alma não podemos viver!
-Mas e as plantas? elas vivem e não tem alma, nós os Urgaj e os humanos precisamos de alma. O resto da Garig vivem muito bem sem ela.
-Então é Drako! porque você pode bloquear o vento, a areia, o fogo, a agua... mas nunca o tempo, certo?
-Mais ou menos. Você está certo quanto a não poder parar o tempo. Mas não que Drako é o mais forte. Porque ninguém sabe qual dos 8 é o mais poderoso, uma vez que os próprios dragões nunca competiram. Eles vivem em harmonia entre si e é isso que deveríamos fazer também.
-Mas se eu fosse o mais forte, os outros teriam que fazer o que mandasse!
-Quem é mais forte meu filho, eu ou você?
-Você é claro papai, mas saiba que eu estou treinando bastante!
-Fico feliz com isso meu filho, mas, sendo eu mais forte, você tem que fazer o que eu quiser certo?
-Hmm.... certo...?
-Então vá dormir.
-Mas e a Espada?
-Amanhã eu termino a história, o papai tem que resolver umas coisas com a mamãe.
-O papai está brigando com a mamãe?
-Não meu filho, eu mais fácil arrancaria minhas próprias garras antes de brigar com ela, por que a pergunta?
-Ontem eu acordei porque ela estava rugindo. Eu corri o mais rápido que pude pro quarto de vocês e assim que os guardas me viram, fizeram essa mesma cara q você está fazendo... o que está acontecendo?
-Oh... eu.. er... nós... Um dia eu te conto... mas pode f**ar tranquilo, o papai e a mamãe estão bem e se amam muito.
-Jura?
-Juro!
-De nó na cauda e tudo?
-De nó na cauda e tudo!
-Então tudo bem. Agora saia dos meus aposentos pois preciso descansa, tenho um longo dia pela frente, não é fácil ser o príncipe de Koninkryk, como você bem deve saber. - disse o príncipe novamente com etiqueta satírica.
-Como desejar, vossa alteza - respondeu o rei no mesmo tom.

Pai e filho riram um pouco. Ele sorria enquanto seu filho se ajeitava na cama, mas assim que o filho fechou os olhos o rei ficou sério. Andou pelos corredores do palácio de Paleis até seus aposentos. Pegou seu ca****bo e foi até a sacada. Deixou a fumaça levar seus pensamentos, encarando a lua.

Um sorriso e uma lágrima aconteceram simultaneamente no rosto de Klou Koning, quadragésimo outavo rei de Koninkryk, senhor de Paleis e líder inquestionável dos Soogdiere.

Heitor Clay

Endereço

Prédio Histórico Da UFPR (Sala 202 Da Psicologia)
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