24/05/2017
Plots de Vento
Plot twist: em um giro tão rápido quanto inesperado, meu pé acertou a arma do assaltante, jogando-a para longe na escuridão, e meus punhos se fecharam, um em seu braço estendido e, o outro, em suas costas, forçando-o ao chão e rendendo seus movimentos. Liguei para a polícia. Hoje, eu salvei o dia.
Mas as pernas movimentam-se maquinalmente pelo caminho habitual, na ausência de qualquer reação apropriada. O corpo está fraco, a mente cansada, evito pensamentos para não desanimar. Pelo menos, preciso chegar em casa.
Plot twist: velas estão acesas e espelhadas pela sala de estar. As luzes estão apagadas. Na penumbra, minha esposa se aproxima com seu gingado suave. Suas pernas claras estão escurecidas pela cinta-liga e a cintura tentadora protegida por um espartilho vermelho, da cor do batom que brilha às velas no seu sorriso.
-Oi, gostoso.
-Eu acabei de ser assaltado – é o que consigo dizer, sem esconder minha tristeza, mas sem qualquer intenção de arruinar o clima.
-Não se preocupe – ela me guia até o sofá, acariciando minhas costas e me faz sentar – Eu estou com muitas saudades de você – ela se senta no meu colo, com as pernas envolvendo as minhas – Hoje você não precisa se preocupar com mais nada além de mim.
Mas eu acordo novamente sozinho, na cama de casal parcialmente vazia, um pouco mais cedo que o de costume. Tomo um banho, como de costume. Barbeio-me, como de costume. Visto-me, tomo um café – preto, sem açúcar – e entro no carro, como de costume. Mas hoje está muito quente, então me permito ir sem o paletó, para variar.
Plot twist: há uma briga na delegacia. Ágil como um felino, separo o agressor do agredido e descubro que fiz a escolha certa: o homem caído no chão porta uma camiseta preta com símbolos da Polícia de Curitiba. O bandido tenta fugir, mas eu consigo lhe derrubar no chão, não resistindo em lhe passar um sermão de como a vida é difícil, mas a violência não ajuda. Percebo então que o malfeitor era o mesmo da noite anterior e, após o policial prendê-lo e me agradecer muito, consigo meu celular de volta.
Mas o boletim de ocorrência demora para sair, o funcionalismo público é lento, e os ponteiros do relógio correm ameaçadoramente contra mim. Enfim, chego ao estacionamento. Cruzo o pátio entre os carros, em direção ao prédio imponente com os dizeres “Moinhos de Vento” abaixo da silhueta de um cavaleiro empunhando uma lança. Tento evitar pensar no sadismo irônico de quem decidiu nomear uma empresa de televisão em homenagem ao personagem que ficou famoso por desperdiçar sua vida. Como de costume, falho.
Bato o ponto. Espero o elevador. Entro no elevador. “O 12º, por favor”. Saio do elevador. A caminhada sem esperança até minha mesa. Ligar o computador. Fazer outro café enquanto a máquina decide se funciona ou não – com leite, dessa vez. Sentar na escrivaninha. Abrir o Excel, as planilhas do Word e, só dessa vez, o Google Chrome. Só preciso conferir se alguém me mandou mensagem, afinal, estou incomunicável de outras formas, uma vez que não mais possuo celular.
Plot twist: De todas as mensagens que o site me mostra, a que mais me chama atenção é de Rafa: “Quanto tempo, amigo, e quantas saudades! O que você pretende fazer essa tarde? Se tiver um tempo livre, apareça em casa. Talvez, podíamos até reunir a velha banda pra tirar um som. Aquele abraço!”. Sem pensar duas vezes, desligo o computador, pego o carro e vou ver meu antiquíssimo amigo.
Mas a única notif**ação que o Facebook me mostra são trinta curtidas no post sobre o assalto. Dez são reações tristes. Nenhum comentário. Nenhuma mensagem. Fecho o site frustrado.
Sou convidado para a salinha do meu chefe. É uma sala pequena, cuja porta dá para as demais mesas com meus colegas. Cruzo a distância em passos curtos e lentos, cogitando se fiz a escolha certa em vir sem paletó. Minha camisa clara parece ser a única da sala que veio desacompanhada. Não quero passar a impressão de desleixado. Fecho a porta discretamente ao passar.
-Precisamos conversar – começa o homem por trás dos óculos.
Plot twist:
-Não, não precisamos. Eu não me importo a mínima com o que você tem a dizer. E você não se importa a mínima com o que eu tenho a dizer. E, sabe o que mais? Ninguém se importa a mínima com p***a nenhuma que a gente faz aqui. Essa m***a estúpida de canal de televisão, somos escravizados em um trabalho medíocre, numa vida medíocre para que uns gordos medíocres possam jantar enquanto assistem a novela. E você ainda se acha o dono do mundo porque tem uma salinha minúscula no meio dessa m***a toda. Quer saber? Eu quero que se f**a. Esse trabalho, essa empresa e você! Eu é que não vou f**ar arrastando meus dias, esperando pela minha morte, num trabalho escroto, e menosprezando meus pares porque eu tenho um dígito superior no meu pagamento. Fique à vontade com seu trabalho m***a, e espero que um dia você tenha a coragem de perceber como você desperdiçou sua vida inteira atrás de Moinhos de Vento.
A transmutação no rosto do homem é tão expressiva quanto cômica. Primeiro, o choque do inesperado, depois a raiva e a fúria subindo como o vermelho no seu pescoço. Mas eu bato a porta na sua cara antes que ele comece a bravejar. Grito algumas palavras aos demais e saio, sem sequer voltar para minha mesa para pegar meus pertences. Entro no meu carro e dirijo, sem direção alguma, até sair da cidade e além. Na rodovia, abro o vidro e deixo os pingos suaves da chuva açoitarem o sorriso mais sincero que eu dou em anos.
Mas eu fecho sua porta suavemente, sem fazer nenhum barulho, logo após contar a triste história da noite anterior e pedir perdão pelo atraso. Ele faz qualquer sinal que eu não me importo e diz qualquer coisa igualmente irrelevante. Eu nunca me atrasava, não precisava mesmo de sermão.
O horário passa, como de costume, estupidamente lento. Eu me permito olhar para o relógio algumas vezes. Faltam duas horas para o almoço. Uma hora. Almoço no restaurante do prédio, que é um pouco mais caro, mas a comida é melhor. Dou-me esse direito, não estava sendo um dia bom. Mais quatro horas. Três horas. Duas horas. Uma. Meia-hora. Vinte minutos. Quinze. Dez.
Com cinco, eu desligo meu computador angustiado. O ar dentro da empresa estava me fazendo mal. Sinto minha pressão baixando e a respiração ofegante. Esperar elevador. Descer de elevador. Sair. Bater o ponto. Ainda faltam dois minutos para dar meu horário. Respiro e vou tomar uma água.
Olho para o copo distraído. É meu primeiro copo de água o dia inteiro. Foram algumas xícaras de café, soda no almoço e só. A água me olha de volta com cara cansada. Aquilo me fazia falta. Não era só isso. Tanta coisa me fazia falta. Eu tinha esse vazio...
Enfim, 18 horas. Viro o conteúdo do copo e descarto-o no lixo apropriado. Bato o ponto e volto para o carro. Nem ligo a rádio para voltar para casa, não é muito tempo. Mantenho sempre entre cinco a dez quilômetros por hora a baixo da velocidade máxima. Não preciso de uma multa agora.
Plot twist: Um carro passa ao meu lado correndo pelo farol fechado. O outro carro, que estava em sua vez de atravessar o cruzamento, é acertado em cheio, exatamente no meio, e arrastado por uns bons metros antes da inércia o parar. Eu já estou correndo em direção ao acidente, atravessando o cruzamento movimentado com a destreza de uma raposa. Chego ao local e um dos carros está capotado. O calor indica que algo está pegando fogo. Arrasto-me por sobre os vidros quebrados no chão e vejo uma mulher semiconsciente, presa de ponta-cabeça pelo cinto. Pelo espaço quebrado da janela, entro e tento soltar o cinto da mulher. O calor me deixa nervoso e o cinto não abre, mas eu tenho uma boa ideia. Corto-o com um caco de vidro que estava ali, manchando meu ato de heroísmo com meu sangue. Suporto o peso da mulher com tranquilidade e a arrasto para longe da confusão, sentando-a na calçada. Ela balbucia alguma coisa que soa como “minha criança” e eu, ligeiro, corro para o carro olhar no banco de trás. Em choque e desespero, uma menininha de não mais que sete anos me olha com os olhos azuis gigantes. Está acuada do outro lado do veículo, sem reação. Eu converso com ela. “Está tudo bem” “Você precisa vir comigo” “Sua mãe está preocupada”. Ao que ela lentamente se aproxima, dando-me tempo suficiente para salvá-la do inferno quente que é aquela situação.
Corro com a criança no colo enquanto o carro explode atrás de mim. O sorriso de tranquilidade no rosto da mãe, de conseguir rever sua criança salva, é tão sincero que eu não consigo evitar de sorrir também. Deito a criança no chão, ao lado da mãe, ordeno a um passante para chamar a ambulância e evito que as pessoas se aproximem muito da família. Tento lembrá-las da importância de respirar. Volto para casa com o coração leve e um agradecimento profundo.
Mas uma sinfonia de buzinas ressoa atrás de mim e eu tiro meu carro lentamente do cruzamento. Abro a porta do apartamento cedo, mas sei, antes de entrar, que ele ainda está vazio. Antes de fechar a porta, já abri os primeiros botões da camisa. A chave no chaveiro e entro no quarto. Primeiro tirar o cinto. Depois os sapatos. Depois terminar de abrir a camisa e colocá-la para lavar. Dobrar meticulosamente a calça. Vestir as roupas leves e sair para a caminhada. Pelo menos, não preciso me preocupar com levar o celular, esta noite.
Volto para casa suado e vou direto para o banho. Ao sair, não estou mais sozinho. Mas minha esposa simplesmente ignora a sua prolongada ausência. Eu também o faço. Comento sobre o assalto. Ela ri, sarcástica:
-Como se já não tivéssemos problemas o suficiente.
Jantamos em silêncio. Melhor dizendo, tomamos café. Comemos pão e bolachas, nada muito mais. Trocamos algumas palavras sobre o dia enquanto nos preparamos para dormir. Enfim, deitamos na cama e viramos, cada um para seu respectivo lado, de costas um para o outro. Apagamos as luzes. “Boa noite”. Fecho os olhos. Respiro fundo. Durmo. Tento.
O que foi? Esperava um plot twist?
Eu também.
-Dottoly