24/03/2020
NOTA DO CACAU SOBRE A SUSPENSÃO PARCIAL DAS ATIVIDADES NA UNISUL E DIFICULDADES ENFRENTADAS PELO CURSO
O CACAU (Centro Acadêmico de Arquitetura e Urbanismo da Unisul) se reuniu virtualmente na manhã de segunda-feira, 23 de março de 2020, para discutir sobre o andamento das aulas virtuais desde que foram suspensas as atividades presenciais da nossa universidade em virtude da pandemia causada pelo COVID-19 (coronavírus). Levando em consideração que o período de isolamento social pelo qual passamos tende a se estender, definimos por expor nossos posicionamentos e discussões para os demais estudantes, corpo discente e gestão da universidade. Em primeiro lugar, nos chama atenção a forma como a UNISUL está tratando a questão da pandemia. Como solução para uma situação de grande complexidade e que gera diversos impactos na vida de toda a comunidade acadêmica, a instituição fez a transferência de todas as atividades presenciais para o modo virtual, mantendo, assim, as atividades da universidade, sem qualquer preocupação com as consequências disso.
Entendemos a excepcionalidade da situação que vivemos, porém, justamente por isso, acreditamos que a universidade tinha o dever de suspender efetivamente suas aulas. Por conta da pressa em que foram tomadas as decisões pela Reitoria, estudantes, professores e técnicos tiveram que conciliar as atividades com as novas condições de ensino e trabalho sem nenhum tipo de preparo ou período de adaptação e, além disso, não houve diálogo da gestão com os acadêmicos e professores para entender a viabilidade de transferir as aulas para o ambiente virtual, tendo cuidado com as especificidades de cada curso. O resultado disso está sendo sentido agora. Desorganização, problemas nas plataformas virtuais da instituição, dificuldades de comunicação com os professores, prazos de entrega de projeto e trabalhos para essa semana, etc. Todos estes problemas poderiam ter sido minimizados com a suspensão das aulas, por pelo menos uma semana, para que houvesse tempo para uma melhor adaptação para as formas virtuais. Sem isso, nossos planos de ensino permanecem incompatíveis com o Ensino a Distância, nossos calendários de entregas e assessoramentos se mantiveram e os estudantes e professores têm que se virar para dar conta dos trabalhos. É importante lembrar que a situação de calamidade que vivemos é geral, assim como os estudantes, os professores e demais funcionários têm familiares nos grupos de risco, tem avós, pais e filhos em casa para dar atenção e esta transição abrupta para o meio virtual não ofereceu tempo de adaptação à nova rotina e não leva em consideração as dificuldades que os membros da comunidade acadêmica podem estar enfrentando.
A postura da universidade, infelizmente, não nos surpreende. No decorrer deste mês, o nosso curso esteve na linha de frente das mobilizações estudantis contra a precarização do ensino na UNISUL. A instituição, sem nenhum diálogo e após o início do semestre, impôs novas regras para as orientações de TCC, para as disciplinas de projeto e determinou a entrada de disciplinas essenciais do nosso currículo para o EaD, o que signif**a uma perda imensa para o nosso curso, implicando numa diminuição da qualidade do nosso ensino. Da mesma forma que a gestão compartilhada da Fundação UNISUL com o Grupo Educacional Ânima aplicou essas mudanças, rompendo contrato e sem nenhum aviso prévio aos professores e estudantes, está fazendo agora neste momento delicado. Sem preparo e adaptação, os professores estão tendo que fazer malabarismos para dar as aulas por meio das plataformas virtuais e nós, estudantes, estamos nos virando para conseguir dar conta de trabalhos e entregas nesse novo formato. A reitoria se porta como se a universidade estivesse lidando bem com a situação, porém sentimos o contrário.
O curso de arquitetura tem como espinha dorsal as disciplinas de projeto, que temos desde a primeira fase até a conclusão do curso. O projeto de arquitetura demanda dos estudantes e professores um empenho muito grande, longas horas de trabalho coletivo, atenção aos detalhes, reflexões, coleta de dados em campo - conversas com a população, visitas aos terrenos e cidades de intervenção - confecção de maquetes, experimentação, etc. Com certeza, a qualidade das nossas aulas, dos nossos projetos e, por consequência, da nossa formação profissional, decairão vertiginosamente por conta dos impedimentos que a situação de quarentena nos impõe e da posição da universidade em manter as aulas como se o cenário não fosse caótico. As disciplinas de projeto, pelas características citadas acima, não são compatíveis com a Educação a Distância. Da mesma forma, nos questionamos sobre a qualidade do ensino e das formações dos demais estudantes da nossa universidade, entendendo que cada curso possui especificidades e será necessário tomar medidas diferentes para cada um. Exposto isso, acreditamos que as disciplinas de projeto devem ser suspensas no semestre 2020.1 e retomadas apenas quando as aulas presenciais puderem ser retomadas.
Ressaltamos, também, que se as disciplinas teóricas do nosso curso forem mantidas durante esse semestre, é imprescindível que haja uma reformulação dos calendários e dos planos de ensino. A simples transferência das disciplinas presenciais para o ambiente virtual não é suficiente, vale lembrar que os professores das disciplinas virtuais que já são ofertadas pela nossa universidade tem capacitação própria para essa tarefa e experiência distinta dos professores das disciplinas presenciais. Nesse sentido, torna-se imperativo que o CACAU exponha a sua posição sobre a Educação a Distância: Acreditamos que o Ensino a Distância signif**a mais um passo para o aprofundamento da precarização do ensino, é uma forma de impor condições de trabalho degradantes aos professores e de reduzir os custos com a contratação, acarretando em perda de qualidade. Somos contrárias a entrada de qualquer disciplina do curso de arquitetura e urbanismo para o modelo EaD e aceitamos essa proposição apenas sob as circunstâncias específ**as causadas pelo coronavírus em que nos encontramos e desde que seja feito o diálogo envolvendo coordenação, estudantes e professores para a definição de quais disciplinas são viáveis virtualmente. Após o período de quarentena, continuaremos as nossas mobilizações no curso contra as reformulações impostas pela gestão formada pela Fundação Unisul e Ânima.
Com a transferência das aulas presenciais para o modo virtual, defendemos também a redução das mensalidades. Nosso posicionamento vem na linha do que foi exposto na nota da União Nacional dos Estudantes sobre o assunto*. Considerando a redução de gastos com estrutura, manutenção, energia, limpeza, etc. e ainda a possibilidade de não termos condições de trabalhar nos próximos meses, acreditamos não haver fundamento para a cobrança de mensalidades integrais. Não há cabimento continuar cobrando a mensalidade como se as aulas presenciais estivessem acontecendo. Cursos a distância são consideravelmente mais baratos por não necessitar da infraestrutura que os cursos presenciais demandam. Dado o estado de exceção que nos encontramos, é preciso dar mais atenção para questões de permanência estudantil, muitos estudantes podem enfrentar dificuldades para continuar pagando as mensalidades por não conseguirem trabalhar nesse período. Reiteramos que a diminuição da mensalidade não deve - de forma alguma - afetar os professores e seus salários. É de nossa compreensão que os professores devem ter seus direitos garantidos, recebendo o salário integral e assistência da instituição para o que mais couber durante todo o período em que estiverem impossibilitados de trabalhar, seja por suspensão das aulas ou por motivos de saúde.
Também nessa linha, exigimos que a universidade amplie o período de trancamento de disciplinas e do curso. Como está evidente, muitos são os prejuízos com a manutenção das aulas nas condições postas. Os estudantes que se sentirem lesados pela obrigação de fazer as disciplinas virtuais, no lugar de presenciais, devem ter o direito de parar as disciplinas, ou o curso como um todo, e retomar quando se encerrar o período de quarentena sem a cobrança de taxas ou da mensalidade. O artigo 81 do Regimento Geral da UNISUL prevê que o estudante tem direito a trancar o curso apenas por dois semestres, consecutivos ou não, ao decorrer do curso. Defendemos que neste momento, o procedimento seja facilitado pela instituição e que o trancamento motivado por conta da crise causada pelo COVID-19 não seja contabilizado. Dada a nova forma como a UNISUL vem disponibilizando as disciplinas - abrindo turmas para cada unidade de aprendizagem apenas uma vez ao ano -, acreditamos ser fundamental que as disciplinas que foram abertas neste semestre, sejam ofertadas também no próximo (2020.2), para que os estudantes não sofram com o atraso de um ano inteiro no curso.
Com isto posto, ressaltamos a irresponsabilidade da UNISUL pela forma que foi feita a suspensão das aulas presenciais, pois na realidade as atividades tiveram continuidade virtualmente de forma despreparada. Ressaltamos que num momento delicado como esse, a postura mais coerente seria a de suspensão efetiva das atividades, ao menos para que se tenha um período de preparo e discussão antes da aplicação das aulas virtuais. Ao contrário do que vemos nas demais universidades que são referência no estado, a UFSC e a UDESC, a UNISUL insiste em manter as atividades como se a situação que vivemos pouco impactasse nas vidas da comunidade acadêmica. Abaixo listamos as nossas reivindicações:
- Suspensão das disciplinas de projeto até que aulas presenciais sejam possíveis novamente;
- Redução das mensalidades durante o período de quarentena;
- Reformulação de planos de ensino e calendário das disciplinas teóricas que
continuarem no ambientevirtual;
- Ampliação do período de trancamento de curso e de disciplinas, sem prejuízo
para os estudantes;
- Abertura, no próximo período (2020.2), das mesmas disciplinas ofertadas no
semestre 2020.1.
Centro Acadêmico do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Unisul - CACAU