23/02/2026
No último dia 20 de fevereiro, nosso grupo de estudos E-tica se reuniu para debater a leitura do artigo “Manipulação e o âmbito afetivo das redes sociais”, de Alexander Fischer, presente no livro “A Filosofia da Manipulação Online”(Fleur Jongepier e Michael Klenk).
A conversa partiu de um ponto central do texto: as redes sociais não são apenas meios de informação, mas ambientes afetivos. Elas organizam e intensificam emoções (como medo, raiva, entusiasmo e pertença) e, por isso, criam condições especiais para a manipulação: muitas vezes, não agimos pelo melhor argumento, mas pelo que consegue capturar nossa atenção e acionar disposições emocionais.
Um conceito-chave foi o de pseudoambiente: uma “realidade montada” por recortes, repetições e enquadramentos que passa a mediar nossa percepção do mundo. Nesse cenário, o que pesa não é só verdadeiro/falso, mas o que é afetivamente convincente, o que parece urgente, ameaçador ou salvador. Assim, a manipulação pode operar moldando o contexto emocional no qual certas reações se tornam quase automáticas.
Para descrever o mecanismo, Fischer propõe o Modelo PEM. Em vez de coerção (que remove escolhas) ou persuasão racional (que convence por razões), a manipulação pode agir reconfigurando o campo do desejável: certos fins passam a aparecer como mais atraentes, recompensadores ou inevitáveis e outros, como repulsivos. O PEM ajuda a entender por que, online, o “convencimento” muitas vezes ocorre por atalhos afetivos: altera-se a experiência do que queremos antes mesmo de discutirmos por quê.
Também debatemos como recursos típicos das plataformas feeds algorítmicos, métricas de engajamento, microdirecionamento e dinâmicas de bolhas, podem amplificar esse processo, explorando vulnerabilidades não apenas cognitivas, mas sobretudo afetivas.
A pergunta que ficou foi direta e urgente: como proteger a autonomia quando o ambiente em que formamos preferências é desenhado para modular o que sentimos e, com isso, o que escolhemos?