15/12/2017
José Lemos*
Uma das sabedorias e generosidades da mãe Natureza para conosco que vivemos deste lado do planeta está associada à safra de caju que começa em agosto, atinge o seu pico em outubro, e declina até a chegada das chuvas, no final de dezembro. Portanto, a safra de caju acontece no período de estiagem. Isto, para quem mora deste lado do País, tem uma enorme relevância social. Por causa da estiagem e, devido às secas cíclicas, os agricultores do semiárido encontram guarida numa atividade única, que lhes consegue gerar ocupação e renda, depois de passada a quadra chuvosa (janeiro a junho deste lado do Brasil) em que as lavouras anuais, se conseguiram vingar, já foram colhidas.
Ainda prevalece por aqui o “cultivo”, em signif**ativa maioria, por geração espontânea, em que a difusão da semente do cajueiro é colocada sobre o solo pela ação dos agentes físicos e biológicos que a natureza providencia. Não são, no geral, cultivos, quando se fala de um ponto de vista agronômico, em que o ser humano interfere na natureza semeando ou plantando mudas, acompanha o desenvolvimento da cultura, lhe provendo todos os tratos culturais para obter boas colheitas de castanha (o fruto) e do pedúnculo (pseudo-fruto), que é a parte colorida e vistosa do caju. Os cajueiros maranhenses, de forma generalizada, são “cultivados” assim.
Isso acontece também porque a espécie que prevalece por aqui é a que chamamos de “cajueiro gigante”, cuja primeira colheita apenas acontecerá oito a dez anos depois da brotação da semente. Uma árvore bonita, mas com baixa produtividade, além de ter um custo elevado para a colheita dos frutos em grandes alturas.
O principal produto comercial do cajueiro é a castanha. Por esta razão, algo como 80%, dos pseudofrutos (pedúnculos hipertrofiados), é desperdiçado, até porque no ato da coleta caem sobre o solo, machucam e perdem qualidade para o consumo in natura, ou para serem transformados em sucos, doces e outras delicias do caju.
Em 2002 a EMBRAPA lançou o cultivar BRS226 que é conhecido com cajueiro “anão precoce”. É assim identif**ado devido ao seu pequeno porte na fase adulta. Raramente ultrapassa 2,5 metros de altura, permitindo que os frutos possam ser colhidos com as mãos. O clone é recomendado para o mercado de amêndoa, mas seus pedúnculos, ou falsos frutos, vêm agradando também às indústrias de sucos. Segundo a EMBRAPA: “Essa variedade se mostra mais resistente às pragas e doenças, que ocorrem em cajueiros nos grotões e chapadas do semiárido nordestino”.
Atualmente os maiores produtores de caju são os semiáridos do Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí. As áreas dos pomares com cajus nestes estados representam, respectivamente: 63%; 15,5%; e 14,1%, do que existe no Brasil. No Maranhão estão apenas 1,9% dessas áreas. O Leste do Maranhão, onde está o nosso semiárido, que tem dificuldades de cultivar lavouras devido à intermitência das chuvas, possui enorme potencial para alavancar cultivos de cajueiros em escala comercial, tanto em nível familiar como de pequenas e médias empresas.
Naquela área que padece de pobreza generalizada, poderão brotar dos solos fracos, arenosos, de irregular pluviometria, elevada temperatura e baixa umidade, arbustos de cajueiros, cujas inflorescências, a partir de maio, atrairão abelhas e nos meses de agosto brotarão as belezas coloridas, de gostoso aroma e sabores dos cajus.
Agora que o Maranhão foi reconhecido como tendo áreas semiáridas, as nossas energias devem se voltar para tentar criar condições de vida digna para as populações dos municípios já incorporados. Em Araioses, a principal atividade das áreas rurais é a degradante coleta de caranguejo uçá que, além de está contribuindo para devastação da espécie, os catadores são explorados por um único atravessador de Fortaleza. Os catadores recebem entre R$0,50 a R$0,75 por animal e aqui em Fortaleza os preços variam de R$5,00 a R$20,00 a unidade. Os caranguejos são alguns dos animais mais maltratados, desde a coleta até a morte terrível em caldeirões com agua em fervura.
Araioses no Semiárido pode se transformar num celeiro produtor de cajus. Atividade que pode se espraiar para Timon, Tutoia e ocupar todo o Leste Maranhense...
Temos potencial para nos juntar ao Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí e nos transformar em grandes produtores de castanha e de pedúnculo. Com acesso, de forma diferenciada, aos recursos do Fundo Constitucional do Nordeste (FNE) que beneficia as áreas sob o semiárido, podem brotar projetos de plantio de pomares de cajueiros que terão grande relevância econômica, social e ambiental para aquela área.
A atual produção de caju, ainda que de forma precária, é realidades no leste maranhense... Mas pode se transformar em atividade de elevada rentabilidade, envolvendo agricultores de diferentes portes, gerando renda, riqueza e mudando aquela paisagem desnuda de cobertura vegetal, que f**ará esverdeada com os arbustos de cajueiros. De quebra, o Semiárido maranhense também pode se transformar em grande produtor de mel de abelhas “Tiuba” que “gostam muito de visitar as flores de cajueiros”, como nos ensinam os meliponicultores que ali existem em quantidade até razoável, apesar da dificuldade de floradas causada pelo clima semiárido.
Caju no Semiárido Maranhense pode ser um belo mote para o futuro imediato.
===============
*Texto publicado em 16/12/2017.