21/04/2023
INFRAESTRUTURAS POLICÊNTRICAS E O DELIBERACIONISMO FACCIOSO NA UNILA: O FUTURO JÁ NÃO É COMO ERA ANTIGAMENTE
A infraestrutura da UNILA possui desafios relacionados não apenas às suas instalações físicas, mas a todas as plataformas que proporcionam as interações dos seus membros. Isso inclui obviamente uma estrutura multicampi apartada da vida cívica de Foz do Iguaçu e isolada no espaço de segurança de Itaipu, muitas vezes hostil às particularidades da interação acadêmica. Mas também inclui as novas sociabilidades das plataformas digitais e o fato da UNILA ser uma universidade poliglota. Essas três dimensões implicam que a UNILA é regida por infraestruturas policêntricas, sem que tenha desenvolvido um circuito integrado de cultura acadêmica.
O custo da ausência de um campus próprio não pode ser medido apenas pelo aluguel que a UNILA desembolsa em instalações provisórias. A falta de um campus próprio e o funcionamento de instalações alugadas numa área de segurança nacional inibem o desenvolvimento de uma cultura acadêmica de experimentação e confiança. O campus não pode ser apenas o lugar onde se assistem aulas; precisa ser também e principalmente o centro de uma vida intelectual ativa, onde uma nova fraternidade é forjada. A ausência anômica dessa interação cívica extraclasse impõe um custo muito alto à cultura acadêmica da UNILA, configurando uma estrutura multicampi policêntrica disfuncional. Por isso, é imperativo que a UNILA aproveite os ventos políticos favoráveis para concluir e por em funcionamento o campus Niemeyer.
Seguindo as tendências mundiais, a vida acadêmica da UNILA passa de uma transição dramática nos padrões de sociabilidade. Anteriormente mediadas pelo texto escrito físico, a vida acadêmica agora é desafiada por aquilo que Nicholas Carr tem chamado de mentalidade malabarista das redes. As plataformas digitais - onde a comunidade acadêmica agora consome a maior parte do tempo - são também uma infraestrutura policêntrica. Essa mudança de hábito na economia da atenção, impulsionada pelas redes sociais, não veio sem custos: ainda de acordo com Carr, toda tecnologia intelectual encarna uma ética intelectual, ou seja, um conjunto de premissas acerca de como funciona ou deveria funcionar a mente humana. As redes sociais são uma nova tecnologia intelectual que oferece estímulos sensoriais e cognitivos – repetitivos, intensivos, interativos e viciantes – que são capazes de provocar alterações rápidas e profundas nos circuitos cognitivos, prejudicando nossa capacidade de atenção e retenção de forma inédita. Contrabalancear essa tendência dispersiva e fragmentada é fundamental para criar uma identidade integracionista.
A configuração poliglota da UNILA é outra infraestrutura policêntrica. Embora seja uma universidade declaradamente bilíngue, a UNILA possui pelo menos três idiomas francos: português, francês e espanhol; além de minorias étnicas e linguísticas nativas. Embora possua um intensivo programa de ensino de línguas, a UNILA está longe de ter uma maioria fluente em pelo menos dois idiomas. Há, portanto, uma barreira linguística que precisa ser superada para garantir a integração da comunidade acadêmica da UNILA.
Tais infraestruturas policêntricas organizaram a UNILA, mas são também os principais desafios para seu projeto integracionista - criando espaço para um deliberacionismo faccioso. Em outras palavras, a universidade ainda é vulnerável à paralisia decisória, à incapacidade de vertebrar rotinas institucionais, e ao oportunismo de origem corporativista, partidário e até mesmo místico-religiosa. Como uma instituição jovem que ainda luta pelo reconhecimento acadêmico dentro e fora do Brasil, a UNILA é vítima de estratégias de captura política predatória que se colocam muitas vezes em oposição direta às rotinas acadêmicas mais rudimentares. Ameaçam requisitos de qualidade para o funcionamento da universidade, empurrando estudantes e professores para evasão. A Chapa 1, Abaporu, UNILA! acredita que é preciso superar os efeitos desestruturadores do seu modelo policêntrico para que a UNILA possa criar uma cultura intelectual acadêmica que projete a universidade como um centro de referência na América Latina e Caribe.