11/03/2022
LIVROSSeis poemas e poetas que todo homem deveria lerPoesia é constância e firmeza. Não é coisa para homens de geleia.Colaboradores MHM Por Colaboradores MHM 10 Minutos
Poesia. Seis letras que para a maioria dos homens não signif**am muita coisa.
Mas a culpa não é inteiramente nossa. Afinal, desde cedo nos é vendido o engodo de que poesia poderia ser exemplif**ada como a expressão de sentimentos — em sua grande parte amorosos — unidos por uma linguagem açucarada mais ou menos rebuscada.
Bobagem. Fomos enganados.
E uma das possíveis razões pode ser encontrada no fato de que nossa literatura tenha surgido da influência de um tipo anacrônico de Romantismo, aquele movimento estético e político que atingiu a Europa no final do séc. XVIII e se estabeleceu dominante por quase metade do séc. XIX.
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Se antes copiávamos, pura e simplesmente, os modelos do Velho Continente, onde dialogávamos intimamente com os mitos gregos e sua estética classicista, o Romantismo desembarcou aqui em 1835 e não prometeu pouco: A ideia era fundar uma literatura genuinamente nacional.
Porém, ele foi absorvido por nós tardiamente e de segunda mão — muito mais francês que alemão e inglês, infelizmente — e as coisas fugiram bastante das diretrizes iniciais. E aqui tudo começou a desandar.
Enquanto o Romantismo europeu era multifacetado e plural, o Romantismo brasileiro era provinciano, deslocado e um tanto quanto anacrônico. Ao mesmo tempo em que se iniciava o processo de industrialização, falávamos de retornar às nossas identidades indígenas; aumentávamos a importação de escravos e fazíamos loas à liberdade; buscávamos um futuro para o país e falávamos de flores e morte.
E o mais importante: entre nós o Romantismo firmou-se como sinônimo de literatura confessional. Basta uma rápida consulta na literatura de então para perceber como essa influencia é sentida ainda hoje, onde o uso da primeira pessoa no singular é maciça.
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O problema, então, é antigo e consolidado. Mas não é incontornável – felizmente. É preciso fugir do senso-comum.
Poesia não se reduz a falar de amores não correspondidos. Poesia não é exprimir aquela nostalgia neurótica de imaginar o que já foi e não é mais. Poesia não é dizer coisas bonitinhas.
Ser poeta não é estar deslocado da realidade. Ser poeta não incorporar o tipo esquisito que usa roupas surradas e óculos démodè. Poesia não é tipo.
Poesia é aquela broca que nos afunda na realidade.
Signature
O poeta é – como disse Ezra Pound – a “antena da raça”. Aquele que, imerso no mundo, nega o escapismo, o vácuo e a inutilidade das contingências que nos afastam da vida.
E nisso está a masculinidade da poesia: a assunção dos deveres quando não queremos dever algum. A poesia está na imposição da formação de nossa consciência quando estamos a viver na comodidade do rebanho. Poesia é a unidade entre o pensar e agir, entre idealizar e fazer.
Poesia é constância e firmeza. Não é coisa para homens de geleia. Confira abaixo seis poemas de seis poetas que todo homem deveria ler:
“Se”, de Rudyard Kipling (1865 – 1936)
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Se és capaz de manter tua calma, quando
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.
Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,
de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.
Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.
De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.
Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e – o que ainda é muito mais – és um Homem, meu filho!
“George Gray”, de Edgard Lee Masters (1868 – 1950)
Mono Print
Muitas vezes observei
a figura de mármore que esculpiram para mim:
um barco ancorado com as velas recolhidas.
Não representa a minha chegada a um porto de destino,
mas a minha existência.
Pois o amor foi-me oferecido e eu fugi dos seus enganos;
o desgosto bateu-me à porta, mas eu tive medo;
a ambição chamou por mim, mas eu receei a maré.
No entanto, sempre desejei dar um sentido à minha vida.
Agora sei que devemos erguer as velas
e tomar os ventos do destino
aonde quer que conduzam o barco.