12/05/2016
Um pouco do que é o movimento antifascista que, automaticamente, explica o porque da Chapa se caracterizar e se espelhar nessa ação:
O movimento Antifascista nos moldes "Antifa" surge no começo dos anos 80 na Europa com a forte ascensão da extrema direita no continente motivada pela crise econômica do capitalismo. Antes a referência ao Antifascismo era apenas de oposição a regimes autoritários, mas à partir desse período ele se fragmenta como identidade, cultura e movimento.
Com a crescente onda conservadora no continente, aumenta o número de grupos que utilizam práticas violentas contra negros, imigrantes e outras minorias dos guetos europeus. Um exemplo disso é o caso Inglês, em que a Frente Nacional (National Front), recrutará neo-nazistas como seguranças em suas passeatas e posteriormente vão atuar contra a imigração paquistanesa, indiana e jamaicana no Reino Unido. Na França e Grécia o alvo são os imigrantes africanos e árabes com a Ação Francesa e a Aurora Dourada (Golden Dawn), também aliados a gangues de rua que utilizam a violência como prática política. Essa tendência agressiva dos partidos e movimentos conservadores na Europa se espalhou por diversos países europeus, tendo uma grande força na Polônia, Suécia, República Tcheca, Espanha, Portugal, Alemanha e Rússia .
Ambos os grupos conservadores compartilham ideologias políticas similares, porém alteradas apenas pelas especificidades de suas determinadas regiões, o nacionalismo como resposta a imigração e diversidade cultural é a principal bandeira desses grupos, a crise do capitalismo nos anos 80 gerada pela redução da atuação do estado, submisso a políticas neoliberais, vai gerar desemprego em massa e os bodes expiatórios serão os imigrantes que fugiam de seus países saqueados economicamente e politicamente pelos próprios europeus. Esses grupos de direita vão culpar o estrangeiro como principal causa para o desemprego, desviando o foco da culpabilidade do sistema econômico, apoiado pelas elites de seus países no saque da matéria prima e humana nas nações africanas e asiáticas.
O racismo vai ser um aspecto forte e grande aliado da xenofobia, a eugenia europeia não foi apenas um aspecto do nazismo e fascismo, ironicamente ela se perpetuou na mentalidade eurocêntrica dos grupos conservadores, independente do país e histórico do mesmo, um exemplo disso é que em países aliados o racismo teve forte voz contra a imigração como no caso da Inglaterra com a forte imigração jamaicana e a França com a imigração africana. Nos anos 80, grupos neo-nazistas assumidos eram a linha de frente dos partidos nacionalistas, até mesmo a Rússia não escapou disso, os Nacionais Bolcheviques deturparam o “socialismo” a um nível étnico.
A religião vai ser outro aspecto em comum com esses grupos de direita, o cristianismo vai ser utilizado como massa de manobra para a adesão de mais membros em suas fileiras, na intenção de manter uma cultura purista europeia, utilizando do anacronismo moral para justificar os bons costumes dentro da mentalidade branco-burguesa.
O comunismo mesmo em crise com a URSS, vai ser outro argumento para espalhar o medo e a aversão ao socialismo, isso propositalmente vai legitimar o discurso da meritocracia, do individualismo e da competição dentro da sociedade e indiretamente fortalecer uma mentalidade liberal a cerca de organização enquanto comunidade. As gangues de rua financiadas pelos partidos conservadores vão dar atenção especial a militantes da esquerda, pelo revanchismo histórico na segunda guerra mundial e pela divergência de opiniões políticas, muitos comunistas e anarquistas serão assassinados nas ruas e seus assassinos não serão julgados, pois muitos juízes vão se identificar com as ideias conservadoras dos agressores. Essa ausência do poder jurídico em encarar esse conflito político de forma imparcial, vai ser um dos fatores que vão legitimar a mobilização independente e civil de grupos Antifascistas.
Em resposta a toda essa ascensão totalitária, militantes anarquistas e comunistas vão se aliar criando de forma independente um movimento único em todo o continente para confrontar gangues que utilizam do medo como instrumento de poder. O movimento antifascista surge com uma postura de rua e não institucional, muitas vezes abraçando a ação direta como um fim para barrar as agressões sofridas pelas minorias. Bairros de imigrantes vão começar a receber uma proteção que não recebiam das instituições, grupos antifascistas vão começar a patrulhar áreas em que neonazistas e nacionalistas cometiam seus crimes para defender a população não nativa da perseguição.
Os antifascistas vão utilizar a contracultura para subverter e desconstruir valores de intolerância e autoritarismo, talvez seja esse um dos principais discursos dentro do movimento como arma para se opor de forma intelectual a seus inimigos, o conceito de desconstrução como fator essencial para reeducar as pessoas, desconstruindo o racismo, machismo, homofobia, posturas autoritárias e aversão a outras culturas. A perspectiva libertária é um aliado nesse processo de reconstrução. Demonstrando os privilégios que cada um tem em nossa sociedade, levamos a reflexão das relações de poderes na ordem vigente. Consciência política para os antifascistas é uma mobilização individual e coletiva como forma de avançar na luta de classes e contra as desigualdades de poderes dentro da sociedade. Essa união se deu não através de idealizações políticas em grupos com características próprias, mas, sim através da realidade cotidiana ao analisar a sociedade e perceber o risco eminente de uma extrema-direita forte, com poderes institucionais ou militares.
- E aqui no Brasil ?
No Brasil o movimento Antifascista chega no começo dos anos 90 agarrado as culturas Punk/ Skinhead e nos círculos de discussões políticas, vai permanecer pelo resto da década longe dos holofotes da mídia por ser tratado como um simples conflito de gangues. A partir dos anos 2000, ele vai ganhar espaço em outras subculturas de rua, legitimando sua expressão independente. O movimento antifascista no Brasil vai se manter descentralizado, operando em várias células autônomas em diversas cidades e estados do país. Não existem hierarquias e lideranças, as decisões são tomadas de forma coletiva na célula antifascista, prezando em comum com o movimento a coerência ideológica contra o autoritarismo e seus derivados culturais e políticos. Cada célula opera de maneira diferente, atendendo as especificidades da sua região. Dependendo da cidade com uma concentração populacional elevada, maior é conflito político, e o mesmo acaba se tornando violento, tendo em vista a grande atividade de grupos da extrema-direita que utilizam posturas agressivas para impor suas ideias.
- Como é a ação da Antifa ?
É muito relativo dizer como é o modo de ação, alguns grupos direcionam seu ativismo a cultura, aos debates teóricos, a arte como forma de propaganda política. Uma ação direta pode variar desde um grafite no muro até uma caçada noturna a possíveis adversários políticos. O objetivo das ações enérgicas é intimidar pessoas propensas à atos de intolerância que envolvam violência física, fazendo-as recuar, enquanto de contramão outros grupos promovem eventos relacionados a música, arte e cultura; suavizando o discurso antifascista.
Um grande paradoxo no movimento é a forma que o construtivo e destrutivo se relacionam, seria incoerente pensar que esse movimento não procura destruir algo, mas o que muitas vezes não se percebe é que o mesmo, também quer construir. É possível encontrar nos centros urbanos diversos militantes antifascistas envolvidos com as atividades culturais, participando das discussões políticas, talvez quando o assunto seja esses militantes, o preconceito com o ganguismo obscureça a perspectiva de que o radicalismo da Antifa é diferente do extremismo político da direita. O radicalismo vem da raiz, do espirito que move a ideia, sem se perder em sub-rótulos e dogmas. O extremismo da ideia é o limite ultrapassado pela ignorância. Todo movimento político tem suas contradições, essa relação de óleo e água das ações práticas e teóricas, é apenas uma consequência da diversidade no movimento, talvez o ponto que o Antifascismo ganhe mais força e coerência é no fato de não idealizar e sim de combater e negar.
Na perspectiva dos antifascistas existe uma perseguição ao negro por toda questão da escravidão no país, ao homossexual por causa do moralismo religioso, à mulher por causa da sociedade patriarcal, ao favelado pelas questões de desigualdade, aos comunistas anarquistas por questões políticas e a tantas minorias que não se veem representadas politicamente pelo governo e por grande parte da sociedade. Esses grupos percebem que sua identidade cultural está sendo sufocada pela meritocracia, pela competição capitalista, pelo consumo como forma de viver e pela conduta moral padronizada pelos grupos dominantes.
- Contra quem os antifascistas lutam ?
Entre grupos de direita atuantes no Brasil e considerados perigosos, vale destacar dois: Os Carecas e os White Powers.
Os carecas se dividem em 3 sub grupos: Carecas do Brasil que abrange todo o país, Carecas do Subúrbio e os Carecas do ABC que se restringem apenas a São Paulo. Ambos são nacionalistas, a favor de uma sociedade moralista, muitos militantes tem simpatia com o Integralismo, essa ideologia sendo mais forte nos Carecas do ABC. Porém os Carecas do Subúrbio e ABC tem muito mais forte o regionalismo como fermento nacionalista, que o nacionalismo patriótico dos Carecas do Brasil. Se apresentam como subculturas urbanas e alguns militam em movimentos separatistas, abominando a migração de haitianos, cubanos, pessoas de outras regiões como nordestinos e etc. Muitos estrangeiros são agredidos e perseguidos nas cidades, na visão de alguns carecas eles roubam seus empregos, e representam uma ameaça para seu modo de vida, o estrangeiro paga caro, pois muitas vezes é tratado como um possível inimigo ao país, talvez essa justificativa econômica e patriótica seja uma das consequências da competição, promovida pela meritocracia (conceito defendido por esses ativistas).
Normalmente a situação do sistema econômico incentiva a essa tensão, pois ambos os grupos são de postura proletária, porém os carecas são conservadores, enxergando na esquerda uma ameaça ideológica a seus valores morais e no imigrante a possibilidade de perder sua renda. Os Carecas do Brasil tem uma visão mais integral do país, seu nacionalismo patriótico não excluiu a xenofobia, pois incentiva a rejeição a pessoas de outros países, na mesma estética do preconceito regional praticado por outros grupos. Homofóbicos declarados, os carecas agridem homossexuais, utilizam da religião como argumento para negativizar a homo-afetividade, também utilizam discursos machistas para ofender e rebaixar a luta de militantes feministas. Se assumem a favor de ditaduras militares e discursos de ordem, na rivalidade política sua postura é totalmente anti-comunista/socialista. Muitos ativistas marxistas ou de esquerda são perseguidos e agredidos. Os Carecas em seu discurso refletem a mentalidade paranoica vendida em 1964 para saciar a fome do patriotismo opaco da classe trabalhadora.
Os White Powers formam um grupo a parte, pois se caracterizam pela simpatia ao Nazismo e discursos raciais. Eles têm divergências com os Carecas por essa postura ra***ta, mas se unem quando é conveniente. Normalmente o perfil do White Power é o jovem de classe média/alta que não se encaixa em nenhum grupo social e encontra refúgio nesse movimento. São de sua autoria a maioria os casos de agressões a negros e homossexuais nas cidades, a cultura do ódio e violência é o motor que dita à legitimidade de seus atos. Buscam no Odinismo a justificativa para sua pureza racial, se escondem no discurso de liberdade de expressão para encobrir seus interesses étnicos. São muito ativos em São Paulo e na região sul do país, lugares de maior concentração de imigrantes alemães e italianos. Assim como os carecas tem posturas machistas e cultuam a virilidade masculina como padrão de homem. O culto ao corpo e a necessidade de ser superior aos seus inimigos, incentivam a musculação e prática de artes marciais, é muito comum andarem armados com facas e soco inglês.
A relação entre os Antifascistas e os grupos de extrema direita está ligada a um ciclo de ódio e retaliações políticas violentas. Um existe para o outro deixar de existir, são os dois lados radicais que equilibram a sanidade dos indecisos. Porém o fato de serem radicais não os coloca como semelhantes, pois um a direita que manter privilégios e o outro a esquerda quer desconstruí-los.
Porém de modo geral os antifascistas se posicionam contra posturas nacionalistas, homofóbicas, sexistas, eugênicas, elitistas, ra***tas, especistas, machistas e etc.
- Qual a proposta do Antifascismo ?
O antifascismo aqui tem seu desenvolvimento muito bem estruturado na ação, talvez essa seja o principal ponto, porém ideologicamente ele não é fragmentado de forma única. A diversidade de ideologias políticas e conceitos filosóficos é um ganho, porém uma dificuldade. É muito comum divergências políticas resultantes das diversas correntes ideológicas dentro do movimento, porém o antifascismo se direciona como frente de unidade. A Antifa se coloca como interesse em comum e não um grupo com ideologias padronizadas. Essa pluralidade política reforça o teor democrático do movimento em aceitar e reconhecer aqueles que procuram a causa.
A proposta do movimento Antifascista moderno é a ação imediata, seja ela de forma prática, teórica ou pedagógica. Existem algumas diferenças que obscurecem a visão da sociedade a respeito desse conflito nas cidades, por isso é comum tratar os casos de enfrentamento político como simples brigas de gangues. O contexto vai muito além da visão limitada da sociedade e do estado em relação ao assunto, esse conflito é uma consequência da herança política e de todas as lutas sociais na história do nosso país. Na visão dos antifascistas sua militância é necessária para desviar a atenção de facções políticas opostas, desviando o ódio e intolerância de possíveis agressores para si mesmos, esses ativistas se colocam a frente, fazendo um trabalho que é omitido pelo estado e pela sociedade. Crimes de ódio não são abordados com frequência nos jornais, pois envolvem também desigualdades sociais indigestas a classe média, porém essa prática está se tornando cotidiana no país e o mais perigoso, cultural. Esse extremismo não é apenas político, mas também étnico, talvez por causa da miscigenação em nossa sociedade, da forte influência de culturas divergentes como africana, europeia e asiática; O fato é que os enfrentamentos históricos sociais, unidos a uma disputa política global entre esquerda e direita refletem hoje, a profundidade da tensão entre classes e preconceitos culturais.