26/04/2026
Sermão – 4º Domingo da Páscoa (Domingo do Bom Pastor)
Amados irmãos e irmãs em Cristo,
a paz e o bem!
Neste 4º Domingo da Páscoa, a Igreja nos convida a contemplar uma das imagens mais ternas e, ao mesmo tempo, mais desafiadoras do Evangelho: Cristo, o Bom Pastor. As leituras que ouvimos — Atos dos Apóstolos (2,42-47), o Salmo 23, a Primeira Carta de Pedro (2,19-25) e o Evangelho de João (10,1-10) — nos conduzem a uma profunda reflexão sobre cuidado, comunhão e responsabilidade.
Jesus afirma: “Eu sou o Bom Pastor… Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância.”
Mas que vida é essa? E para quem ela é destinada?
1. O Pastor que conhece e chama pelo nome
No Evangelho, Jesus não fala de um pastor distante, frio ou autoritário. Ele fala de um pastor que conhece suas ovelhas pelo nome. Isso significa intimidade, dignidade e reconhecimento.
Num mundo como o nosso — marcado pela massificação, pela cultura do descarte e pela invisibilidade dos mais pobres — essa afirmação é revolucionária.
No Brasil e no mundo, milhões de pessoas não são chamadas pelo nome: são números em estatísticas, são corpos esquecidos nas periferias, são rostos invisíveis nas filas da fome, da violência e da exclusão.
O Bom Pastor nos ensina que ninguém é anônimo diante de Deus.
E aqui ressoa o ethos anglicano: uma fé que une Escritura, tradição e razão para afirmar a dignidade de toda pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus. E ressoa também o carisma franciscano: ver em cada rosto humano — especialmente no pobre e no ferido — o próprio Cristo.
2. A comunidade que partilha e cuida (Atos 2,42-47)
A primeira leitura nos apresenta a Igreja nascente:
“Todos viviam unidos e tinham tudo em comum.”
Não era apenas uma comunidade de culto, mas de partilha concreta. Não bastava rezar juntos — era preciso viver juntos, cuidar uns dos outros, repartir o pão.
Essa Palavra nos interpela diretamente.
Vivemos em uma sociedade profundamente desigual. Enquanto poucos acumulam excessos, muitos lutam pelo mínimo. A fé cristã não pode ser reduzida a um discurso espiritual descomprometido com a realidade social.
A Eucaristia que celebramos só é autêntica quando se desdobra em solidariedade.
Como nos lembra São Francisco de Assis:
“É dando que se recebe.”
E como Igreja Anglicana, somos chamados a ser uma comunidade inclusiva, reconciliadora e comprometida com a justiça — uma Igreja que não fecha os olhos diante das dores do mundo.
3. O Pastor que sofre com suas ovelhas (1 Pedro 2,19-25)
A segunda leitura nos recorda que Cristo é o pastor que sofre conosco e por nós.
Ele não conduz de longe — Ele caminha no meio das dores humanas.
Num tempo de tantas feridas — violência, intolerância, crises políticas, guerras, deslocamentos forçados, sofrimento ambiental — somos chamados a reconhecer: Deus não está ausente. Ele está presente nas cruzes da história.
Mas atenção: isso não justifica a dor. Pelo contrário, nos convoca a combatê-la.
Ser discípulo do Bom Pastor é tornar-se também sinal de cuidado.
É assumir uma espiritualidade encarnada, que não foge do mundo, mas o transforma.
4. O Salmo 23: confiança em meio à escuridão
O Salmo nos diz:
“O Senhor é meu pastor, nada me faltará.
Mas o mesmo salmo reconhece:
“Ainda que eu caminhe pelo vale da sombra da morte…”
Ou seja, a fé não nos livra das dificuldades — mas nos garante que não estamos sozinhos nelas.
Hoje, muitos caminham por vales sombrios: desemprego, depressão, insegurança, medo do futuro. Como Igreja, precisamos ser presença de co***lo, esperança e direção.
5. Quem são os “ladrões e assaltantes” hoje?
Jesus também alerta:
“Quem não entra pela porta é ladrão e assaltante.”
Esses “ladrões” continuam presentes:
* São sistemas que exploram e desumanizam;
* São lideranças que manipulam a fé para dominar;
* São discursos que dividem, alimentam o ódio e negam a dignidade do outro;
* São estruturas que impedem a vida plena.
O Bom Pastor, ao contrário, liberta, inclui e conduz à vida abundante.
6. Chamados a ser pastores com Cristo
Queridos irmãos e irmãs,
o Evangelho não nos convida apenas a admirar o Bom Pastor — mas a **participar de sua missão**.
Cada um de nós é chamado a ser sinal de cuidado:
* Na família, sendo presença de amor;
* Na sociedade, sendo voz de justiça;
* Na Igreja, sendo instrumento de comunhão;
* No mundo, sendo testemunha da paz.
O carisma franciscano nos recorda:
somos irmãos e irmãs de toda a criação.
O ethos anglicano nos recorda:
somos responsáveis pela construção de uma fé viva, inteligente e comprometida.
Concluindo...
Neste Domingo do Bom Pastor, deixemos ecoar em nosso coração a voz de Cristo.
Ele nos chama pelo nome.
Ele nos conduz com amor.
Ele nos envia em missão.
Que possamos reconhecê-lo, segui-lo e, sobretudo, imitar o seu pastoreio — com ternura, coragem e compromisso com a vida.
E que, ao celebrarmos esta Eucaristia, possamos sair daqui como uma comunidade que não apenas escuta a voz do Pastor, mas que se torna também voz de esperança para o mundo.
Amém.
Paz e bem!
*Frei Luciano Campelo