18/05/2026
Como Deleuze e Guattari nos provocam, o desejo não pede licença à razão, ele produz mundos e cria passagens (DELEUZE; GUATTARI, 2010). Negar essa potência é o gesto fundante da violência manicomial, que o Brasil conheceu em práticas como eletrochoque e lobotomia em série (ARBEX, 2013), e que hoje se infiltra em várias comunidades terapêuticas e outras formas de confinamento mascarado (DIAS et al., 2022).
O cuidado em saúde mental é indissociável da circulação pela cidade e da conquista de territórios afetivos livres (AMARANTE, 1995; BRASIL, 2001). A subjetividade se forja no encontro com a diferença, no conflito, no contraste, e é justamente essa abertura que as estruturas de reclusão tentam sufocar (ROLNIK, 1989). Não há clínica ética onde se retira a liberdade: a cura passa também por desmontar a instituição que nega a existência do outro (BASAGLIA, 1985).
Lutar contra a lógica manicomial é afirmar que o sofrimento psíquico não destitui ninguém do direito de existir e habitar o mundo e de ser afetado por ele, porque a saúde começa onde a liberdade encontra escuta. E isso é algo que nós, principalmente, como futuros psicólogos nunca devemos nos permitir esquecer.
REFERÊNCIAS
AMARANTE, Paulo. Loucos pela vida: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1995.
ARBEX, Daniela. Holocausto Brasileiro. São Paulo: Geração Editorial, 2013.
BASAGLIA, Franco. A instituição negada. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
BRASIL. Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1. São Paulo: Editora 34, 2010.
DIAS, Hildaléa et al. Luta Antimanicomial, Reforma Psiquiátrica e os desafios contemporâneos no Brasil. Memorandum, n. 39, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.35699/1676-1669.2022.39251
ROLNIK, Suely. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. São Paulo: Estação Liberdade, 1989.