04/09/2019
As Valentias de Madame Satã
Madame Satã é um caráter ímpar no universo da capoeira carioca: ele representa, melhor que ninguém, a capoeiragem dos malandros antigos, da mesma forma que influencia a capoeira moderna, desenvolvida nas décadas de 1950 e 1960 no Rio de Janeiro. A capoeira tinha quase desaparecido das ruas da cidade do Rio de Janeiro após a grande repressão das maltas pelo chefe de polícia Sampaio Ferraz no início da Primeira República. No entanto, algumas de suas técnicas corporais e de sua cultura musical entraram para a pernada carioca, por ocasião das batucadas de samba. Já os seus golpes mais perigosos somente eram treinados em lugares escondidos, em alguns morros, para serem usados em brigas de rua por valentões como Madame Satã, que se destacou em muitas brigas e seus feitios impressionaram uma geração de futuros capoeiristas.
Ao mesmo tempo, Madame Satã representa muitas das contradições da sociedade em que vivia. Foi praticamente escravizado quando menino e teve que sobreviver nas ruas e também nos presídios, onde passou parte de sua vida atribulada. Sua orientação sexual (gostava de homens e tentou uma carreira artística vestindo-se de mulher no palco) o expôs a abusos constantes no ambiente homofóbico em que vivia. Como explica na sua autobiografia, muitos homens não conseguiam aceitar que uma “bicha” fosse também um valentão. Daí a constante provocação por parte de homens heteronormativos, muitos deles policiais, resultando em brigas repetidas e muita perseguição. Assim Madame Satã tornou-se um herói, já na década de 1970, para a mídia alternativa como O Pasquim e para alguns capoeiristas impressionados por suas façanhas. Por isso, nada mais justo do que prestar-lhe essa homenagem em forma de cordel, de autoria de Lobisomem, no momento em que procuramos resgatar a rica história da capoeira no Rio de Janeiro.
Matthias Röhrig Assunção
Professor titular no Departamento de História da Universidade de Essex, Inglaterra, e autor do livro "Capoeira. The History of an Afro-Brazilian Martial Art (Routledge 2005)