31/08/2018
Trauma e sua principal consequência psiquiátrica
Por Raquel Gonçalves
Você já passou por um trauma? Antes de responder à essa pergunta, você sabe que situações são consideradas eventos traumáticos? Esta definição gera muita polêmica na área da saúde mental. Na década de 80, acreditava-se que trauma era um episódio catastrófico que estava fora da cadeia de acontecimentos usualmente experimentados pelas pessoas. Contudo, pesquisas subsequentes revelaram que eventos que podem levar ao desenvolvimento de transtorno de estresse pós-traumático, ou TEPT,estão longe de ser incomuns. Nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo, quase 90% da população já passou por algum evento como assalto, morte de um ente querido, acidente de trânsito etc. Mas isso não é “privilégio” de países em desenvolvimento. Uma evidência disto é que mais da metade da população dos Estados Unidos já sofreu traumas psicológicos.
Após a publicação de dados como estes, o trauma passou a ser definido como um evento que envolvesse morte, sério ferimento ou grave ameaça à sua integridade física ou a de outros. Você poderia ser traumatizado caso o evento acontecesse com você, caso você fosse testemunha ou simplesmenteficasse sabendo de uma ocorrência desta ordem com alguém emocionalmente próximo. Além disso, era necessário que a experiência provocasse intenso medo, impotência ou horror. Na última edição do Manual Estatístico e Diagnóstico dos Transtornos Mentais (DSM-5), publicado em 2013, a definição de trauma sofreu novas modificações. Agora é considerado trauma qualquer evento que envolva morte ou ameaça de morte, lesão grave ou violência sexual. Não é mais necessário experimentar intenso medo, impotência ou horror no momento do trauma para receber o diagnóstico de TEPT. Exemplos de eventos considerados traumáticos atualmente incluem ataque físico, assalto, abuso físico infantil, ameaça ou ocorrência real de violência sexual (p. ex., penetração sexual forçada, penetração sexual facilitada por álcool/droga, contato sexual abusivo, abuso sexual sem contato, tráfico sexual), sequestro, ser mantido refém, ataque terrorista, tortura, encarceramento como prisioneiro de guerra, desastres naturais ou perpetrados pelo homem e acidentes automobilísticos graves. Ainda, quando o evento ocorre com alguém próximo, ele deve ser súbito e acidental, como, por exemplo,ataque pessoal violento, suicídio, acidente grave e lesão grave. Ou seja, morte por causas naturais experimentadas por entes queridos não entram mais na lista deeventos traumáticos.
Agora que você sabe o que é trauma, vamos às consequências. A maioria das pessoas que passa por uma ou mais situações deste tipo se recupera sem desenvolver nenhum quadro psiquiátrico. São as chamadas “resilientes”. Contudo, cerca de 5% das pessoas expostas a um evento desta ordem desenvolve TEPT, que é a principal consequência psiquiátrica do trauma. Este transtorno mental é caracterizado por quatro categorias de sintomas: (1) revivescência – por mais que a pessoa não queira lembrar do que aconteceu, o trauma retorna de forma recorrente através de pensamentos desagradáveis, pesadelos, flashbacks que ocasionam angústia e reatividade fisiológica; (2) evitação dessas lembranças e de estímulos que lembrem o trauma, como, por exemplo, deixar de dirigir após um acidente automobilístico; (3) alterações negativas na cognição e no humor – como sentimentos recorrentes de raiva, culpa, vergonha, dificuldade em relembrar aspectos importantes do trauma, pensamentos excessivamente negativosa respeito de si mesmo ou do mundo, culpa exagerada a respeito de si ou de outros sobre a causa do trauma, redução do interesse em atividades que antes proporcionavam prazer, dificuldade em experimentar emoções positivas, sensação de isolamento e (4) hiperestimulação autonômica – insônia, reações de sobressalto exageradas, hipervigilância, comportamento autodestrutivo, irritabilidade, dificuldade de concentração.
Talvez você esteja se perguntando: “e se alguém experimentar esses mesmos sintomas após um divórcio, morte de um familiar por câncer ou algum outro evento que não seja considerado trauma?”Apesar desses eventos não serem classificados como traumáticos, caso uma pessoa experimente os sintomas descritos acima, ela receberá o diagnóstico de outro transtorno relacionados a trauma e estressores, como, por exemplo, transtorno de adaptação. Isso não modifica a conduta do psiquiatra e do psicólogo. É apenas uma separação didática para outros fins que não devem influenciar negativamente o tratamento.
Caso você reconheça esses sintomas em alguém próximo ou em você mesmo, o Instituto de Psiquiatria da UFRJ (IPUB) possui um ambulatório de trauma com uma equipe de profissionais especializados em TEPT. O tratamento é gratuito e pode ser agendado pelo telefone (21) 99849-0851.