Lapethi Ufrrj-Im

Lapethi Ufrrj-Im Laboratório de Pesquisas LAPETHI, coordenado pelo prof. Dr. José D'Assunção Barros.

O Laboratório de Pesquisa em Teoria de História e Interdisciplinaridade (UFRRJ -IM) tem o prazer de apresentar o grupo I...
11/10/2024

O Laboratório de Pesquisa em Teoria de História e Interdisciplinaridade (UFRRJ -IM) tem o prazer de apresentar o grupo ImagoH.

O grupo de pesquisa ImagoH é constituído por pesquisadores da graduação e pós-graduação com foco em História e Imagem, sob coordenação da profa. Ma. Tainara Vasconcellos, funcionando na modalidade virtual (para público amplo) e presencial (alunos da UFRRJ).

✨ O que fazemos? Investigamos o uso das imagens na História como fonte e objeto de pesquisa. Como moldam, refletem e transformam narrativas históricas, analisando fotografias, pinturas, hq's, filmes e mídias digitais. As análises buscam compreender não apenas o contexto de produção das imagens, mas também seu impacto na memória coletiva e na construção da identidade, além de fomentar o debate a partir da leitura de textos e apresentação de trabalhos.

Acompanhe nossas descobertas, reflexões e projetos! Compartilharemos:

•Resultados de pesquisas
•Eventos e palestras
•Curiosidades sobre a história da imagem
•Dicas de livros e filmes
•Interações com outros grupos e especialistas da área

🤝 Junte-se a nós! Se você é apaixonado por história e imagem e suas interconexões, este é o lugar para você. Vamos construir um espaço de troca de ideias e conhecimento!

✨ Encontros mensais pelo meet

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🔗 [Amanhã abriremos as inscrições para nosso PRIMEIRO encontro virtual]

POR UMA CLIOPÉDIA COLABORATIVA – LANÇANDO A IDEIA“Conhecemos, nos dias de hoje, a chamada Wikipédia – que basicamente é ...
28/09/2024

POR UMA CLIOPÉDIA COLABORATIVA – LANÇANDO A IDEIA
“Conhecemos, nos dias de hoje, a chamada Wikipédia – que basicamente é um conjunto de textos construídos a muitas mãos (ou muitas teclas), sem autoria e submetidos a permanentes alterações que podem ser implementadas por qualquer participante da rede mundial de computadores. No que tange ao conhecimento histórico, a Wikipédia apresenta textos bem confiáveis, mas também um número ainda maior de textos que não tem utilidade historiográf**a porque nem sempre foram produzidos por historiadores profissionais ou estudiosos confiáveis, e tampouco dentro dos critérios aceitos pela historiografia profissional.
Minha ideia é que poderia ser elaborada uma Enciclopédia Historiográf**a Virtual a que só tivessem acesso, como autores, os historiadores que comprovassem sua formação ou conhecimento historiográfico. Inseridos no sistema, uma multidão de historiadores poderia trabalhar a elaboração espontânea de grandes textos virtuais, multi-autorais, sobre os diversos temas pertinentes à historiografia dos vários períodos. Todos os textos desta Enciclopédia Virtual Multi-Autoral – à qual teriam acesso todos os freqüentadores da Internet – seriam certamente confiáveis face a suas condições de produção estritamente historiográf**as, e poderiam ser checados regularmente por equipes específ**as de historiadores para verif**ar a precisão de suas informações e a validade de suas análises.
Essa ideia, não sei se já foi tentada ou se está sendo realizada, mas se não foi, apresento como uma sugestão para os que puderem realizá-la. Estaríamos diante das possibilidades de criação de um Projeto que abriria caminhos no interior de uma nova modalidade historiográf**a, que estaria relacionada com a História Virtual, e que através da sua realização estaria questionando a obrigatoriedade da fixidez textual e da autoria única como aspectos necessários da Escritura da História. Neste caso, a própria multivocalidade de uma escrita polifônica, à qual nos referíamos atrás, poderia ser trazida, através dos recursos visuais, para a questão da autoria historiográf**a, e teríamos de fato um texto construído a muitas mãos e incluidor de inúmeras vozes, concretizando a possibilidade de uma verdadeira “polifonia historiográf**a”.
De fato, este empreendimento estaria permitindo algo novo no que se refere a duas características que foram apresentadas pela História até hoje, pelo menos o tipo de História que se escreveu no decorrer da história da civilização ocidental. A História, até os dias de hoje, parece ter mantido incólumes dois traços muito fortes de identidade: a “autoria declarada e única” (um autor singular e específico que escreve o texto) e a “fixidez textual” – ou seja, o fato de que aquilo que foi escrito f**a imobilizado para ser lido sempre da mesma maneira. Mas será necessário que sempre, e em todos os momentos, seja assim?”.
[trecho extraído de BARROS, José D’Assunção. 'A Expansão da História". Petrópolis: Editora Vozes, 2013].

TEORIA, MÉTODO E DISCURSO: TRÊS ASPECTOS CONSTITUTIVOS DE UMA DISCIPLINA“três aspectos basilares devem ser considerados ...
26/09/2024

TEORIA, MÉTODO E DISCURSO: TRÊS ASPECTOS CONSTITUTIVOS DE UMA DISCIPLINA
“três aspectos basilares devem ser considerados quando se fala na constituição de um ‘campo disciplinar’. Eles se relacionam ao fato de que nenhuma disciplina adquire sentido sem que desenvolva ou ponha em movimento certas teorias, metodologias e práticas discursivas (2 a 4). Mesmo que tome emprestados conceitos e aportes teóricos originários de outros campos de saber, que incorpore métodos e práticas já desenvolvidas por outras disciplinas, ou que se utilize de vocabulário já existente para dar forma ao seu próprio discurso, não existe disciplina que não combine de alguma maneira Teoria, Método e Discurso. Bem entendido, um campo disciplinar não se desenvolve no sentido de possuir apenas uma única orientação teórica ou metodológica, mas sim de apresentar um certo repertório teórico-metodológico que é preciso considerar, e que se torna conhecido pelos seus praticantes, gerando adesões e críticas várias. Da mesma maneira, o desenvolvimento de um campo disciplinar acaba gerando uma linguagem comum através da qual poderão se comunicar os seus expoentes, teóricos, praticantes e leitores. Há mesmo campos disciplinares que acabam gerando certo repertório de jargões, facilmente reconhecível como dialeto específico de determinado campo de saber, mesmo externamente.
Qualquer campo disciplinar, enfim, à medida que vai se constituindo, vai também se inscrevendo em certa modalidade de Discurso, por vezes com dialetos internos. É por isso que não é possível a ninguém se transformar em legítimo praticante de determinado campo disciplinar, se o iniciante no novo campo de estudos não se avizinhar de todo um vocabulário que já existe previamente naquela disciplina, e através do qual os seus pares se compreendem reciprocamente e se intercomunicam”.

[texto extraído de 'Interdisciplinaridade - na História e em outros campos de saber'. Petrópolis: Editora Vozes, 2019].

AS DIFERENTES ESCALAS DE VISIBILIDADE"Quero falar, neste momento, nas escalas invisíveis. Quando ocorreu em 8 de março d...
22/09/2024

AS DIFERENTES ESCALAS DE VISIBILIDADE
"Quero falar, neste momento, nas escalas invisíveis. Quando ocorreu em 8 de março de 1857 uma manifestação espontânea de trabalhadoras da indústria têxtil, em Nova York, e este movimento de protesto foi brutalmente reprimido pela polícia, esse acontecimento adquiriu uma grande visibilidade. Mais tarde, essa visibilidade, através de um grande trabalho de memória promovido por movimentos populares, converteu-se também em uma visibilidade histórica ao dar origem ao Dia Internacional da Mulher.
Vamos dizer que este acontecimento correspondeu a uma violência coletiva sincrônica (abatendo-se sobre uma multidão de pessoas, e de uma única vez). Enquanto isso, em determinada ocasião uma mulher trabalhadora foi espancada a mando do patrão, ou sofreu assédio sexual (coisas como esta certamente ocorreram muitas e muitas vezes). Talvez o fato tenha passado ao noticiário, mas depois desapareceu e não deixou maiores registros.
O coletivo – este é o ponto sobre o qual desejo discorrer – sempre adquire uma visibilidade muito maior e mais duradoura do que o individual. Entrementes, muitas mulheres foram e continuam sendo brutalizadas no seu ambiente de trabalho, sistematicamente, durante anos e anos. Essa violência coletiva diacrônica (ocorrida contra um grande grupo de pessoas, mas espaçadamente, ao longo do tempo) termina por apresentar uma visibilidade menor do que as violências coletivas sincrônicas.
As bombas de Hiroshima e Nagasaki (1945) explodem até hoje na memória coletiva. Enquanto isso, a extensão da violência diária contra as mulheres pode passar despercebida pela maioria das pessoas. Todavia, digamos que um certo pesquisador social resolveu fazer um estudo sobre essa violência coletiva diacrônica, e que terminou por publicar o seu estudo, alcançando sucesso de vendagem. Subitamente, essa violência coletiva contra as mulheres, diacrônica e dispersa no tempo, adquiriu visibilidade ao ser reunida em um único estudo, através de um trabalho estatístico.
Uma mulher brutalizada individualmente em determinada ocasião não será lembrada, a não ser que algum historiador desarquive o registro policial da brutalidade que contra ela foi perpetrada um dia. Mas a violência coletiva diacrônica traduzida em estatísticas, enquanto isso, adquire certamente uma maior visibilidade. A violência contra a mulher no trabalho, transformada em estatística, incorpora um brutal destaque. De igual maneira, nem todo mundo se incomoda ao saber que uma criança pobre específ**a morreu no nordeste; mas todos tendem a se comover quando tomam conhecimento das elevadas taxas de mortalidade infantil no Nordeste.
Por fim, como já foi dito, a violência coletiva sincrônica – isto é, a violência que se projetou em um espaço social mais amplo – mais ainda e mais do que tudo, será sempre lembrada. Aprendemos nas escolas sobre o Massacre do Campo de Marte, ocorrido em 1791 durante o processo revolucionário francês. Conhecemos também o massacre das trabalhadoras têxteis em março de 1857, que cinquenta anos depois inspiraria a criação do Dia Internacional da Mulher. Transformou-se em um emblemático filme o impressionante Genocídio de Ruanda (1994). Ao mesmo tempo, sempre lembraremos do atentado contra as Torres Gêmeas (ou melhor, a destruição do World Trade Center, ocorrida em 11 de setembro de 2001). Tendemos, no entanto, a nos esquecer dos massacres de palestinos todos os dias nos conflitos do Oriente Médio, a não ser quando estas mortes são reunidas estatisticamente, e adquirem súbita visibilidade [este texto foi escrito antes do atual Genocídio de Gaza].
Existe, portanto, uma outra ordem de escalas das quais não nos apercebemos comumente. E a questão pode ir além: pode ser construída pela mídia ou pelos poderes instituídos uma certa hierarquização envolvendo os acontecimentos – como se eles fossem apresentados em uma “escala imaginária”. No momento em que escrevo estas linhas, não estou muito distante no tempo do episódio dos atentados ocorridos em Paris em 13 de novembro de 2015, com a morte de 130 civis. Este acontecimento foi apresentado em escala ampliada pela mídia. A chacina da Candelária, ocorrida em 23 de julho de 1993 no Rio de Janeiro, não recebeu obviamente a mesma visibilidade internacional. Os acontecimentos, enfim, podem ser perspectivados de modos diferenciados. Em linhas gerais, é esta mudança de perspectiva que está envolvida quando falamos em diferentes escalas. As escalas – podemos assim defini-las – correspondem a diferentes patamares de visibilidade”

[trecho extraído de BARROS, José D’Assunção. 'Espaço, História, Geografia'. Petrópolis: Editora Vozes, 2017].

O TEMPO É A CARNE DA HISTÓRIA“O que traz à História a sua especificidade mais irredutível – aquilo que dela faz um campo...
19/09/2024

O TEMPO É A CARNE DA HISTÓRIA

“O que traz à História a sua especificidade mais irredutível – aquilo que dela faz um campo de saber que não pode ser confundido com nenhum outro? Imaginem que nos fosse dada a tarefa de escolher, entre todas, uma única palavra expressasse o que há de mais singular na História. Dificilmente encontraríamos palavra mais adequada para isto do que “tempo”. De fato, se por acaso fosse possível excluir a perspectiva temporal do trabalho do historiador, este facilmente se transformaria em sociólogo, antropólogo, geógrafo, ou, em alguns casos, em psicólogo, linguista ou crítico literário. Não que a perspectiva temporal esteja necessariamente ausente de disciplinas como a sociologia, a geografia ou a antropologia (existem mesmo sub-áreas das demais ciências humanas que estendem um importante fio interdisciplinar em direção à História, tal como a sociologia histórica ou a linguística histórica). A questão é que, no caso da História, a perspectiva do tempo é visceral. Sem ela, os historiadores simplesmente não existem”

[extraído de 'O Tempo dos Historiadores'. Petrópolis: Editora Vozes, 2013].

CRITICIDADE: PÉROLA DO CONHECIMENTO HISTORIOGRÁFICO. "A criticidade é o produto mais refinado da História enquanto campo...
18/09/2024

CRITICIDADE: PÉROLA DO CONHECIMENTO HISTORIOGRÁFICO.
"A criticidade é o produto mais refinado da História enquanto campo de saber. Dos historiadores mais ingênuos que aceitavam acriticamente as descrições depreciativas elaboradas pelos antigos senadores romanos sobre os Imperadores, seus rivais políticos imediatos, aos primeiros historicistas que situaram estas descrições nos seus contextos políticos, sociais e circunstanciais, há um primeiro salto relevante.

Destes primórdios da crítica documental aos dias de hoje, nos quais os historiadores diversif**aram extraordinariamente as suas técnicas voltadas para a leitura e análise de textos, temos um potencial crítico-interpretativo que se desenvolveu extraordinariamente. Analisar os discursos presentes nas fontes, diga-se de passagem, requer a mesma capacidade crítica que deve ser conclamada para analisar os discursos contemporâneos. Por esta razão, quando alguém aprende a criticar fontes históricas de períodos anteriores, desenvolve concomitantemente a capacidade de criticar textos de sua própria época. Tenho a convicção de que a transferência social desta capacidade crítica é o bem mais precioso que os historiadores podem legar à sociedade que os acolhe.

[extraído de 'Seis Desafios para a Historiografia do Novo Milênio'. Petrópolis: Editora Vozes, 2019].

OS DOIS TEMPOS DA HISTÓRIA“A História, entre todas as ciências humanas – e na verdade entre todas as ciências – constitu...
17/09/2024

OS DOIS TEMPOS DA HISTÓRIA

“A História, entre todas as ciências humanas – e na verdade entre todas as ciências – constitui um caso realmente particular no que se refere ao seu uso dos conceitos. Somente ela, por tratar com duas temporalidades distintas – a época do próprio historiador, e a época diferenciada à qual se refere o objeto de estudo ou processo examinado – apresenta uma complexa questão a ser examinada: a concomitância de dois níveis distintos de conceitos que devem ser considerados pelo historiador. Vejamos este problema de perto”.

[trecho extraído de BARROS, José D'Assunção. Os Conceitos - seus usos nas ciências humanas. Petrópolis: Editora Vozes, 2015].

IGUALDADE E DIFERENÇADiversos exemplos históricos mostram-nos as profundas implicações que se escondem na leitura das de...
12/09/2024

IGUALDADE E DIFERENÇA

Diversos exemplos históricos mostram-nos as profundas implicações que se escondem na leitura das desigualdades como diferenças, ou na leitura das diferenças como desigualdades. Quando a sociedade escravista - antiga ou moderna - esquecia-se que a escravidão era uma desigualdade - a desigualdade radical por excelência - e passavam a entender o escravo como diferença, cometia-se a violência dentro da violência... Quando um homem misógino e repressor deixa de compreender a mulher como diferença e passa a considerá-la uma desigual, e a justif**ar esta desigualdade, comete a violência no caminho inverso: a diferença lida como desigualdade. Impor desigualdade ao diferente estrangeiro é uma violência análoga. Já mobilizar preconceitos para considerar como diferente o pobre - uma desigualdade econômica - é novamente um exemplo da primeira ordem de violências: a desigualdade vista como diferença.
Conforme vemos, as violências de todos os tipos se ocultam nestes deslocamentos por vezes brutais entre a Desigualdade e a Diferença (e vice-versa). Dar a compreender estes dois conceitos é por isso mesmo uma das tarefas mais importantes das ciências humanas.
[BARROS, José D'Assunção. Igualdade e Diferença. Petrópolis: Editora Vozes, 2026]

AS NARRATIVAS HISTÓRICAS “Se um dia as narrativas fossem proibidas, como em Fahrenheit 451, e os livros fossem impiedosa...
05/09/2024

AS NARRATIVAS HISTÓRICAS
“Se um dia as narrativas fossem proibidas, como em Fahrenheit 451, e os livros fossem impiedosamente condenados às fogueiras de uma nova Inquisição, possivelmente os livros de história estariam entre alguns daqueles que mais seriam buscados pelos rebeldes que lutariam por salvar do incêndio a cultura humana. Incorporar um livro de história, além de equivaler a incorporar uma narrativa e uma análise sobre a vida, é também recuperar uma parte importante de todo um “campo de experiências”, que de outra maneira f**aria perdido para a humanidade”
[Extraído de BARROS, José D’Assunção. Teoria da História, vol. IV – Acordes Historiográficos. Petrópolis: Editora Vozes, 2011].

Hoje o volume 01 da série 'Teoria da História', em 13 anos de publicação,  chegou ao que seria equivalente à 12a edição ...
02/09/2024

Hoje o volume 01 da série 'Teoria da História', em 13 anos de publicação, chegou ao que seria equivalente à 12a edição (7a reimpressão da 5a edição). Isso signif**a que a obra praticamente esgotou uma edição a cada ano desde que foi lançada, em 2011.
O volume - que tem como subtítulo 'Princípios e Conceitos Fundamentais' - começa por esclarece o que é "teoria", de modo mais geral, e "teoria da história", de modo mais específico. Parte-se de uma discussão sobre o que é uma Disciplina, e o que é essa disciplina mais específ**a que chamamos de "História". São discutidos - além de "teoria" e "método" - conceitos como "paradigma", "escola histórica", "campo histórico", "filosofia da história", entre outros que nos permitem lançar as bases de uma teoria da história. Há uma discussão, ainda, sobre os desafios e entraves que podem surgir na construção teórica relativa a uma pesquisa histórica.
A obra também prepara os quatro outros volumes da série.
BARROS, José D'Assunção. Teoria da História, vol. 1 - Princípios e Conceitos Fundamentais. Petrópolis: Editor Vozes, 2011.

FONTES DIALÓGICASEntenderemos como ‘fontes dialógicas’ àquelas que envolvem, ou circunscrevem dentro de si, vozes sociai...
31/08/2024

FONTES DIALÓGICAS

Entenderemos como ‘fontes dialógicas’ àquelas que envolvem, ou circunscrevem dentro de si, vozes sociais diversas capazes de dialogar e de se confrontar na própria trama discursiva da fonte. Podemos chamá-las também de ‘fontes polifônicas”, considerando que a sua principal característica é a presença marcante destas vozes internas que encontram expressão na trama textual e terminam por dialogar, confrontar-se ou interagir umas com as outras de várias maneiras. As “vozes” podem ser falas de indivíduos, presenças no texto de distintos representantes culturais, confrontos de forças políticas que encontram um espaço de disputa através do discurso (ainda que de maneira encoberta), culturas ou civilizações que se contrapõem, classes sociais que se embatem através de contradições interindividuais ou outras, gerações que se contrastam, narrativas que se entrelaçam, e assim por diante.

Para entendermos com maior plenitude porque as fontes que se enquadram nesta megacategoria podem ser compreendidas como 'dialógicas' ou 'polifônicas', o primeiro passo é entendermos mais claramente o que é “polifonia”. Busquemos o sentido para este conceito no ambiente original ao qual ele pertence, antes de se ter espraiado para outros campos de saber. Na Música, campo de expressão artística e de saber de onde a expressão “polifonia” foi importada – primeiro para a Linguística, depois para a História – a textura polifônica corresponde àquela modalidade de música na qual podemos ouvir claramente, com protagonismo musical próprio em cada uma delas, distintas vozes melódicas que interagem umas com as outras.

Pensemos, por exemplo, na música de Johann Sebastian Bach (1685-1750), ou nos quartetos de Jazz nos quais cada instrumento conduz sua voz com uma mesma importância na trama melódica. Esta modalidade de música desenvolve-se de maneira distinta em relação ao que ocorre naquelas canções mais singelas – para as quais podemos encontrar uma infinidade de exemplos na música popular – em que existe apenas uma melodia principal que recebe o apoio harmônico de outros instrumentos, mas sem que estes tenham uma importância maior no que concerne à condução mais propriamente melódica do discurso musical. Este segundo padrão, baseado em uma melodia única que é apoiada por uma harmonia de acordes que fornecem o clima e o jogo de tensões e relaxamentos da música, é chamado de “homofonia”, constituindo um modo de expressão musical bem diferente da polifonia.

Destes dois padrões musicais muito comuns em uma variedade de gêneros musicais, a polifonia apresenta uma sintonia com os tipos de fontes que podemos denominar 'dialógicas' ou 'polifônicas'. Fontes textuais como os jornais - com a sua configuração multiautoral de textos que compartilham o mesmo veículo e frequentemente a mesma página de jornal - ou como os processos criminais, que trazem nas suas estruturas textuais uma multiplicidade de depoimentos de natureza distinta que representam diferentes posições sociais e que situam seus autores em distintas circunstâncias jurídicas, são tipicamente polifônicos. Os historiadores precisam compreender claramente as diferentes vozes que circulam nestas e em outros tipos de fontes polifônicas, decifrando suas posições, seus espaços de confronto, suas tensões mútuas, suas assimetrias, a diversidade social e cultural que transparece estes discursos no interior de um discurso maior.

[extraído de 'Fontes Históricas - introdução aos seus usos historiográficos'. José D’Assunção Barros. Petrópolis: Editora Vozes, 2019, p.280-281].

A HISTÓRIA SIMPLÓRIA VISTA PELO SENSO COMUMOs cursos de graduação em História iniciam-se habitualmente, já no primeiro s...
27/08/2024

A HISTÓRIA SIMPLÓRIA VISTA PELO SENSO COMUM

Os cursos de graduação em História iniciam-se habitualmente, já no primeiro semestre, com uma disciplina chamada Teoria da História. Alguns currículos universitários optam por denominá-la, alternativamente, como Introdução aos Estudos Históricos, Introdução à História, ou outras designações que anunciam a necessidade de introduzir o aluno em um novo modo de ver a História que é o dos historiadores profissionais. Essa transição é muito importante porque, com poucas exceções, os alunos que ingressam em uma universidade com vistas a iniciarem a sua formação de historiadores – seja para se tornarem futuramente pesquisadores ou professores de história – costumam trazer consigo uma concepção de história que é a do senso comum, mas não é mais propriamente a dos historiadores profissionais.
Não são raras, mesmo hoje em dia, certas noções sobre a História muito simplórias, e mesmo errôneas, as quais são amplamente difundidas entre aqueles que não estudaram mais a fundo as ciências humanas ou que não são leitores da historiografia especializada. Pensa-se, por exemplo, que a principal função do historiador seria apenas a de “contar os fatos tal como eles aconteceram”, desconsiderando-se com isto que a missão essencial dos historiadores é na verdade a de fornecer à sociedade interpretações problematizadas sobre o que aconteceu. Os fatos são obviamente importantes para os historiadores, e sem eles não se faz história; mas o que precisamos compreender, conforme veremos diversas vezes neste livro, é que o trabalho principal dos historiadores é o de construir as interpretações que darão sentidos a estes fatos.
Pensa-se também, muito habitualmente, que existe uma verdade única sobre as coisas que aconteceram na história, e que a função da História – agora entendida como campo de saber – é a de revelar esta verdade. Outros pensam que a habilidade central que o historiador deverá aprender com diligência e cultivar ciosamente é a de memorizar datas. Não é incomum que, em festas ou reuniões sociais, as pessoas se aproximem daqueles que lhes foram apresentados como historiadores ou estudantes de História para lhes perguntar sobre datas, ou mesmo que tenham o desejo de testá-los, como se a habilidade de saber datas fosse aquilo que o historiador precisará provar a todos e a todo instante, à maneira de um matemático do qual se exigisse que fizesse rapidamente contas mais ou menos complicadas. Também costumam ser cobrados os nomes de lugares, ou de reis e figuras ilustres, por exemplo. Tudo isso constitui um senso comum sobre a História que ainda hoje nos fala, nos meios leigos, de uma História que já não existe mais na academia e nos ambientes profissionais de pesquisa.
Embora os historiadores que lecionam História nos níveis fundamental e médio frequentemente se empenhem em ensinar aos seus alunos, em algum momento, uma História problematizada, sabemos como isso é difícil nas instituições escolares que desvalorizam as ciências humanas frente a outros saberes, e que também costumam priorizar a mera instrumentalização do estudo de História com vistas a um sucesso apenas performativo naqueles exames típicos que todos os alunos – independente de suas futuras escolhas profissionais – terão de enfrentar para passar à etapa do Ensino Superior. O aluno estuda História para passar em uma determinada prova, e não para se conscientizar sobre a história ou sobre as raízes sociais, culturais e políticas do mundo em que vive. Tampouco se estuda história, neste nível mais rudimentar, com a consciência de que este estudo pode mudar a própria história como campo de acontecimentos. É esta mudança de postura e atitude que será necessariamente transformada na passagem para o estudo de história em um curso de graduação"
[trecho extraído de BARROS, José D'Assunção. Teoria e Formação do Historiador. Petrópolis: Editora Vozes, 2018].

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