22/09/2024
AS DIFERENTES ESCALAS DE VISIBILIDADE
"Quero falar, neste momento, nas escalas invisíveis. Quando ocorreu em 8 de março de 1857 uma manifestação espontânea de trabalhadoras da indústria têxtil, em Nova York, e este movimento de protesto foi brutalmente reprimido pela polícia, esse acontecimento adquiriu uma grande visibilidade. Mais tarde, essa visibilidade, através de um grande trabalho de memória promovido por movimentos populares, converteu-se também em uma visibilidade histórica ao dar origem ao Dia Internacional da Mulher.
Vamos dizer que este acontecimento correspondeu a uma violência coletiva sincrônica (abatendo-se sobre uma multidão de pessoas, e de uma única vez). Enquanto isso, em determinada ocasião uma mulher trabalhadora foi espancada a mando do patrão, ou sofreu assédio sexual (coisas como esta certamente ocorreram muitas e muitas vezes). Talvez o fato tenha passado ao noticiário, mas depois desapareceu e não deixou maiores registros.
O coletivo – este é o ponto sobre o qual desejo discorrer – sempre adquire uma visibilidade muito maior e mais duradoura do que o individual. Entrementes, muitas mulheres foram e continuam sendo brutalizadas no seu ambiente de trabalho, sistematicamente, durante anos e anos. Essa violência coletiva diacrônica (ocorrida contra um grande grupo de pessoas, mas espaçadamente, ao longo do tempo) termina por apresentar uma visibilidade menor do que as violências coletivas sincrônicas.
As bombas de Hiroshima e Nagasaki (1945) explodem até hoje na memória coletiva. Enquanto isso, a extensão da violência diária contra as mulheres pode passar despercebida pela maioria das pessoas. Todavia, digamos que um certo pesquisador social resolveu fazer um estudo sobre essa violência coletiva diacrônica, e que terminou por publicar o seu estudo, alcançando sucesso de vendagem. Subitamente, essa violência coletiva contra as mulheres, diacrônica e dispersa no tempo, adquiriu visibilidade ao ser reunida em um único estudo, através de um trabalho estatístico.
Uma mulher brutalizada individualmente em determinada ocasião não será lembrada, a não ser que algum historiador desarquive o registro policial da brutalidade que contra ela foi perpetrada um dia. Mas a violência coletiva diacrônica traduzida em estatísticas, enquanto isso, adquire certamente uma maior visibilidade. A violência contra a mulher no trabalho, transformada em estatística, incorpora um brutal destaque. De igual maneira, nem todo mundo se incomoda ao saber que uma criança pobre específ**a morreu no nordeste; mas todos tendem a se comover quando tomam conhecimento das elevadas taxas de mortalidade infantil no Nordeste.
Por fim, como já foi dito, a violência coletiva sincrônica – isto é, a violência que se projetou em um espaço social mais amplo – mais ainda e mais do que tudo, será sempre lembrada. Aprendemos nas escolas sobre o Massacre do Campo de Marte, ocorrido em 1791 durante o processo revolucionário francês. Conhecemos também o massacre das trabalhadoras têxteis em março de 1857, que cinquenta anos depois inspiraria a criação do Dia Internacional da Mulher. Transformou-se em um emblemático filme o impressionante Genocídio de Ruanda (1994). Ao mesmo tempo, sempre lembraremos do atentado contra as Torres Gêmeas (ou melhor, a destruição do World Trade Center, ocorrida em 11 de setembro de 2001). Tendemos, no entanto, a nos esquecer dos massacres de palestinos todos os dias nos conflitos do Oriente Médio, a não ser quando estas mortes são reunidas estatisticamente, e adquirem súbita visibilidade [este texto foi escrito antes do atual Genocídio de Gaza].
Existe, portanto, uma outra ordem de escalas das quais não nos apercebemos comumente. E a questão pode ir além: pode ser construída pela mídia ou pelos poderes instituídos uma certa hierarquização envolvendo os acontecimentos – como se eles fossem apresentados em uma “escala imaginária”. No momento em que escrevo estas linhas, não estou muito distante no tempo do episódio dos atentados ocorridos em Paris em 13 de novembro de 2015, com a morte de 130 civis. Este acontecimento foi apresentado em escala ampliada pela mídia. A chacina da Candelária, ocorrida em 23 de julho de 1993 no Rio de Janeiro, não recebeu obviamente a mesma visibilidade internacional. Os acontecimentos, enfim, podem ser perspectivados de modos diferenciados. Em linhas gerais, é esta mudança de perspectiva que está envolvida quando falamos em diferentes escalas. As escalas – podemos assim defini-las – correspondem a diferentes patamares de visibilidade”
[trecho extraído de BARROS, José D’Assunção. 'Espaço, História, Geografia'. Petrópolis: Editora Vozes, 2017].