20/09/2022
Para o dia da Revolta Farroupilha, trazemos para vocês o comentário do Doutorando Luciano Braga Ramos.
A REVOLUÇÃO FARROUPILHA: vem aí mais um 20 de setembro
A Revolução Farroupilha pode ser considerada um movimento de cunho regional, que ocorreu no Rio Grande do Sul imperial entre os anos de 1835 a 1845. O movimento tinha por finalidade romper com a centralização política e econômica do governo do Império do Brasil. Irrompeu ao mesmo tempo em que rebeliões de cunho liberal eclodiam por outras regiões do país, reivindicando mais autonomia para as províncias. No Rio Grande do Sul, entretanto, a Revolução Farroupilha caracterizou-se como um movimento que teve por mentores estancieiros e charqueadores, os mesmos que tiveram o aval de garantirem para o Império do Brasil a zona de fronteira, defendendo-a contra invasões dos países da Região do Prata.
Revolução Farroupilha foi um movimento de elite. Tal elite apresentava duras queixas quanto à sua situação de “linha de frente” contra as invasões dos países platinos que lhes eram onerosas, sem, contudo haver uma compensação razoável por parte do império, pois, além dos rio-grandenses arcarem com as despesas de guerra eram taxados com impostos, sobretudo em seu principal produto, o charque, que era vendido para abastecimento dos escravos das zonas de produção dos grandes latifúndios do país.
Algo que precisa ser destacado é o fato de a Revolução Farroupilha ter colocado em lados opostos gaúchos com pontos de vista políticos diferentes. Isso ajuda a desfazer a “lenda” de uma revolução basicamente dos gaúchos lutando dez anos contra o Império do Brasil. O apropriado seria considerar a revolta farrapa como uma guerra civil, na qual lutaram em lados opostos rio-grandenses contra rio-grandenses. (FLORES, 1986). Assim, pode-se já quebrar um paradigma de que todo gaúcho é “descendente” dos farrapos. Esse fator que, sempre foi preponderante na formação e reformulação da memória rio-grandense idealizada e apropriada pelas instituições públicas e privadas sem questionar sua origem. Por isso, com a chegada de outro 20 de setembro, é preciso convidar a comunidade sul-rio-grandense a refletir sobre como a memória foi, e é manipulada e contextualizada no presente, interferindo no imaginário coletivo de uma comunidade.
Confira também, através do link da Revista: https://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/oficinadohistoriador/index, o artigo:
CASALI, M. DE O. TRAJETÓRIAS INDIVIDUAIS E “PARTIDOS POLÍTICOS” EM MEADOS DO SÉCULO XIX NA PROVÍNCIA DO RIO GRANDE DO SUL. Oficina do Historiador, p. 2123-2141, 20 out. 2014.
Leitura Complementar:
ALVES, Francisco das Neves. Revolução Farroupilha: Estudos Históricos. Rio Grande: Fundação Universidade Federal do Rio Grande, 2004.
FLORES, Moacir. Modelo Político dos Farrapos: As Ideias Políticas da Revolução Farroupilha. Porto Alegre: Ed. Mercado Aberto, 1978.
FLORES, Moacir. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1986.
OLIVEN, Ruben George. A parte e o todo: a diversidade cultural no Brasil-nação. Petrópolis; Vozes, 1992.
PESAVENTO, Sandra Jathay. Resentimento e Ufanismo: Sensibilidades do Sul Profundo. In: Bresciani; Naxara (organizadoras). Memória e (res) sentimento: indagações sobre uma questão sensível. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004.