04/01/2024
Desejos de Janeiro - (Luciana Cavalcanti)
Saiba um amor que te sinta.
Mergulhe por sede da pele,
delire em canção que não minta
e feche os olhos,
e abra o peito,
e encontre o mar.
Encontre o caminho de casa,
da casa invisível,
onde morarão teus sonhos,
onde moras já (sem saber).
Queira o amor,
dilate o querer,
dilate os dias,
comendo as horas sem pressa,
como fruta boa em dia de mar.
Saiba saber do desejo,
não se esquive (nunca) ao bom do beijo,
nem se furte àquele beijo roubado...
Mas sinta o amor do cuidado
E saiba das harmonias do silêncio,
e cante, e dance, e seja!
Feche bem os olhos: se veja.
Ajude, no escuro, ao parto da Luz.
Ilumina o olho cego das ruas,
desengaveta poemas,
mostra a cara,
assume o sonho,
desnuda a alma.
E o mais certo de ti
desnuda também (com calma)
porque em cada pele dorme
um bocado atrevido de cor.
Guarda a lua que vês,
três pedaços de crepúsculo
e dois de aurora,
para trazer nos olhos
à emergência do amor amado.
Não peça nada dos dias,
antes, desperta em cada um
a vontade mais doida e boa
de se fazer sempre mais
feliz, feliz.
E seja
feliz com o que deseja
e desejante do que faz riso:
criteriosa sem ciso,
e cuidadosa, sem medo.
Seja misteriosa e clara,
como aquele instante raro
em que se sabe beber o Eterno
nos copos e caminhos,
nos risos e nas bocas.
Seja uma verdade,
não última, nem primeira,
seja qualquer verdade verdadeira
de um amor que se quer para querer.
Verdade de um momento
que não te aceita sozinha,
de um viajante que, embriagado de caminho,
deseja parar
e olhar o espreguiçar do sol.
Veja a estrela que arde,
aprenda a ouvi-las,
aprenda a dividir com as estrelas
a força de multiplicar teus desejos,
e trazer os desejos pela mão,
de trazê-los nas mãos
e estender brilho (transbordante)
dos olhos ao chão de casa.
Saiba demais,
saiba de cór, de ouvido,
a canção que te traz sentido
a um novo sonho.
Saiba por um cheiro,
imaginar cores e formas.
E saiba inventar melhor depois.
Ou saiba nada. Esqueça um pouco.
E intua com intuição descarada
– pelo sexto sentido e, antes, os cinco -
os fazeres e os sonhos
da boa vida
para mais, para muitos,
para todos.