19/08/2026
“Um retorno ao lar depois de anos de exílio.” A ditadura militar é uma ferida compartilhada por diversos países latinos. Uma ferida aberta, mas muitas vezes, ignorada.
Nesse romance, Mario Benedetti, um exilado da ditadura uruguaia, ficcionaliza sua biografia, narrando o retorno do deslocado Javier a sua cidade natal, Montevidéu. Capítulo a capítulo, Javier, (re)constrói sua vida após o regresso. Afinal, como diz Fernando Pessoa, na epígrafe deste romance, “o lugar que se volta é sempre outro”; mas a pessoa que faz o retorno, está já não existe mais e, agora, andaime por andaime, é reconstruída.
Em nossas vidas, por quantos exílios e regressos metafóricos (ou não) passamos? É melhor retornar ao lugar e às pessoas do passado, sabendo da inevitável frustração de não serem mais os mesmo, ou é melhor seguir em frente?
Benedetti discorre sobre isso com um tom leve e poético. Ler esse livro é como tomar um sorvete numa praça no final de tarde, os personagens se fazem reais e contam suas histórias pessoalmente ao leitor. Mas quando menos se espera, nessa prosa gostosa e até humorística, o autor revela os buracos que uma parte trágica da história latina deixou em nossa psique e relações, e nos pergunta: “O que você faz com isso? O que nós fazemos com um sonho frustrado e afetos perdidos?”