08/08/2017
MOÇÃO DE REPÚDIO À MISOGINIA E RACISMO DURANTE A ASSEMBLÉIA ESTUDANTIL DA FACULDADE DE DIREITO UERJ
O Coletivo de Mulheres do Direito da UERJ, o Coletivo Negro Patrice Lumumba e o Centro Acadêmico Luiz Carpenter - CALC, vêm, por meio desta carta, repudiar os atos de cunho machista e ra***ta cometidos por um ALUNO desta Faculdade (assim como a ação de omissão de parte dos presentes) durante a Assembleia Estudantil ocorrida na última sexta-feira, dia 4 de agosto de 2017. Na presença de parte do corpo discente que se encontrava no local, o estudante não hesitou em agir de forma ultrajante e ra***ta, buscando silenciar, coagir e agredir moralmente algumas das mulheres presentes.
No decorrer da Assembleia Estudantil, ocorreram duas falas do Coletivo Negro Patrice Lumumba, representado no espaço integralmente por MULHERES NEGRAS, e, em ambos momentos, o aluno branco supracitado as interrompeu, aos gritos, de forma ra***ta, desmedida, grosseira e agressiva. Importante lembrar que esse estudante já havia realizado sua fala perante os presentes e pôde concluí-la integralmente sem que o mesmo acontecesse a ele.
Cabe ressaltar também que as partes possuíam visões e pontos diferentes quanto ao que seria votado no dia. Porém, quando os homens reiteraram o ponto das mulheres do Coletivo, eles não tiveram sua fala interrompida, sequer contrariada ou combatida como outrora.
Posteriormente, após a fala de duas alunas negras e diretoras do Centro Acadêmico, descontente com o que ambas haviam dito sobre seu ato ra***ta anterior, o aluno não hesitou em violar o espaço da mesa que compunha a Assembleia, partindo na direção de uma das alunas, para contestá-la. De forma novamente grosseira, agressiva, ra***ta e machista, sussurrou em seus ouvidos, dando "tapinhas" em seus ombros, batendo repetidas vezes na mesa a sua frente com muita força. Não obstante, constrangeu-a, repetindo diversas vezes que ela deveria processá-lo - cena presenciada por todos os discentes do local, gerando um desconforto em grande parte, e lamentavelmente ignorada pela maioria, que desejava apenas prosseguir com a Assembleia.
MANTERRUPTING é a atitude de interrupção da fala da mulher pelo aumento de voz de um homem. E RACISMO também é silenciar mulheres negras enquanto elas ocupam espaços de fala, tentando a todo momento diminuí-las.
Todas nós sabemos o quão ruim é ser interrompida durante uma fala, seja por outras mulheres ou por homens, mas concordamos que a interrupção feita por homens é bem mais comum e aceita, sobretudo se um homem branco o fizer com mulheres negras.
Recentemente, a título de exemplo, a Presidente do STF, Carmen Lúcia, mencionou, inclusive, que fora realizada uma pesquisa na qual se constatou que as mulheres são DEZOITO vezes mais interrompidas que os homens em Tribunais Constitucionais, o que demonstra que a nossa opinião ainda não tem o mesmo valor do que a de um homem dentro de um debate jurídico.
Demonstra-se, então, uma forma de silenciamento feminino, bem como um menosprezo pela opinião da mulher. Tal fato nos permite concluir que não há isonomia entre o direito de se expressar entre mulheres e homens dentro do âmbito do judiciário.
Importante relembrar que não só como SILENCIAMENTO houve também uma atitude AGRESSIVA e RA***TA. Nem toda agressão é manifestada fisicamente, caso ainda não tenha ficado claro para quem esteja lendo.
O Coletivo de Mulheres, O Coletivo Negro e o CALC reafirmam que repudiam todos os atos machistas e ra***tas acima citados e que não nos calaremos em momento nenhum.
Nós, mulheres, somos silenciadas, coagidas, agredidas física e emocionalmente todos os dias. Sem exceção, todos os dias, dentro ou fora do ambiente acadêmico. Em todas as instâncias da nossa vida, desde a infância, dentro de casa na família, no colégio, na faculdade, no ambiente de trabalho. E, quando somos mulheres negras, o cenário torna-se ainda pior. Somos assassinadas, violentadas, excluídas dos espaços e também oprimidas dentro da Universidade - que nos é negada por tantas décadas - em números superiores. Mas não vamos recuar!
Apesar da maioria das vezes os assédios e agressões serem acobertados ou esquecidos pela Faculdade, em todas as instâncias, tivemos o consentimento das vítimas nesta situação em específico para tornar público o acontecido de forma a ajudar a dar visibilidade para com as agressões sofridas por todas nós.
O Coletivo de Mulheres da Faculdade de Direito da UERJ está forte e unido. Não haverá homem que nos calará, gostaríamos de deixar isso muito claro.
O Coletivo Negro Patrice Lumumba continuará lutando contra a negação dos espaços que nos é colocada todos os dias no âmbito desta Faculdade, que há muito perpetra o racismo. Não haverá homem branco que nos intimidará.
O Centro Acadêmico Luiz Carpenter - Gestão Tem que lutar, não se abater, se coloca diametralmente contra a opressão de cunho machista e ra***ta ocorrida, e o compromisso de combate a esse cenário segue firme. Não permitiremos que nenhum aluno ou aluna sofram com o que as mulheres negras sofreram na última assembleia sem que nada seja feito.
Sendo assim, NÃO VAMOS ADMITIR que nenhuma mulher seja interrompida ou diminuída, muito menos agredida, dentro dessa faculdade por nenhum homem. Homens, esperem a sua vez de falar! Uma coisa é direito de resposta, outra bem distinta é interromper uma mulher (aos berros) para falar o que quer seja, e, não satisfeito, ainda constrange-las. Independentemente de haver concordância entre a sua ideia e aquela manifestada pela outra mulher, EXIGIMOS (ainda em pleno 2017) RESPEITO.
NÃO VAMOS TOLERAR MACHISMO E RACISMO!
NENHUM PASSO ATRÁS!
Centro Acadêmico Luiz Carpenter
Coletivo de Mulheres Direito UERJ
Coletivo Negro Patrice Lumumba