30/11/2022
Em defesa da vida e da vacinação infantil
Retrocesso na imunização contra Covid e pólio é violação grave de direitos
29.nov.2022 às 21h00
Nísia Trindade Lima
Presidente da Fiocruz e avó de Bento, 6
Muitas vezes venho a público me posicionar como presidente da Fiocruz, mas hoje é minha sensibilidade como avó de Bento, um esperto e querido menino de 6 anos de idade, que me motiva a escrever.
Sou de uma geração que constatou o grande êxito dos programas de vacinação.
Lembro dos colegas de turma vitimados pela poliomielite, com sequelas motoras irreversíveis, mas também de ter sido vacinada contra a pólio em 1963, na Escola Imaculada Conceição, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Na mesma época constatei o terrível impacto do sarampo, quando a imunização ainda não estava disponível.
Adolescente, participei, entre outras campanhas, daquela que permitiu a erradicação da varíola em todo o planeta.
Por isso, a afirmativa da Organização Mundial da Saúde — vacinas e água potável são os maiores avanços civilizatórios e bens de saúde pública — não soa para mim como retórica.
Senti seus efeitos em minha experiência de vida, e essa memória reforça a compreensão do problema do retrocesso na vacinação em todo o mundo e em nosso país em particular.
Quase 50 anos após a criação no Brasil do bem-sucedido Programa Nacional de Imunizações pelo Ministério da Saúde, assisto com grande preocupação à perda acentuada das coberturas vacinais e à baixa vacinação contra a Covid-19 entre nossas crianças.
É concreto o risco de retorno da poliomielite, como infelizmente já ocorreu com o sarampo, que precisa voltar a ser eliminado.
A proteção contra doenças preveníveis por vacinas é uma grande conquista da ciência e da sociedade e, no caso da infância, um direito assegurado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
O atraso na vacinação infantil contra a Covid-19 é preocupante, uma vez que, até junho de 2022, o Brasil registrava uma média de duas mortes diárias pela doença entre crianças menores de 5 anos.
É grave que tenhamos alcançado uma cobertura de apenas 35,6% de vacinação (com duas doses) na faixa de 5 a 11 anos.
Da mesma forma, é fundamental a vacinação das crianças de 6 meses a 5 anos, independentemente da presença de comorbidades.
Em relação a outras enfermidades, constatamos 616 óbitos por doenças imunopreveníveis entre crianças de 5 a 11 anos em 2021.
Por essa razão, na Fiocruz, a partir da iniciativa do nosso Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), lançamos o programa Reconquista das Altas Coberturas Vacinais, que se soma a outras importantes ações, como o Vacina Mais, promovido por Conass, Conasems e Opas, entre outros.
Entretanto, é a tentativa de sensibilizar os pais que ainda não vacinaram ou não atualizaram a vacinação de suas crianças a principal motivação deste artigo.
Penso em outras avós de todas as regiões do país, com as mais diferentes ocupações e classes sociais, muitas vezes assumindo a responsabilidade pelo cuidado dos filhos de seus filhos e filhas.
Em muitos casos, até mesmo pela vitória das gerações anteriores, levando a que as doenças imunopreveníveis pareçam ameaças do passado, há resistências em nossas famílias à vacinação, mas não podemos assistir de forma passiva à violação dos direitos de nossos netos.
É fundamental assegurar a imunização a todas as crianças.
Vacinas salvam vidas e o futuro de nosso país!
Retrocesso na imunização contra Covid e pólio é violação grave de direitos