28/05/2024
JOSÉ FLÁVIO SOMBRA SARAIVA (1960- 2024): IN MEMORIAM
Antônio Fernando de Araújo Sá
Professor Titular do Departamento de História, da Universidade Federal de Sergipe
Doutor em História, pela Universidade de Brasília
No último dia 18 de maio de 2024, o professor e historiador cearense José Flávio Sombra Saraiva partiu dessa vida, deixando uma enorme contribuição para a religação entre o Brasil e a África, tanto no âmbito historiográfico, quanto na área das relações internacionais. Nascido em Limoeiro do Norte, cumpriu um papel semelhante ao de Pierre Verger, etnólogo, fotógrafo e historiador, que se constituíra em mensageiro entre esses dois mundos atlânticos, tempos atrás.
Foi um dos meus mentores intelectuais durante e após o curso de graduação em História no Centro de Ensino Unificado de Brasília (CEUB), nos anos 1980. Ao contrário dos tempos atuais, eram momentos de intensa mobilização em torno da campanha das Diretas Já e o movimento estudantil de História despertou-me a consciência crítica do processo de transição à democracia no Brasil, com a organização de eventos, como Semanas de História, como dirigente do Centro Acadêmico Livre de História (CAHIS). Estavam dadas as condições de possibilidade para a definição profissional do jovem estudante e o professor José Flávio Sombra Saraiva, por sua experiência no Colégio do México, muito contribuiu para a renovação do debate historiográfico à época, trazendo as contribuições marxistas de Ciro Flamarion Cardoso, Pierre Vilar, Josep Fontana, Jerzy Topolski e Adam Schaff.
Afora a contribuição teórica, o professor acolheu-me na Universidade de Brasília, em seu grupo de pesquisa, convidando-me para datilografar seu primeiro livro Formação da África Contemporânea, publicado pela editora Contexto, de São Paulo, em 1987. Guardo-o, com carinho, com a dedicatória por ele escrita, quando do lançamento no XIV Simpósio Nacional de História, da Associação Nacional de História (ANPUH), na Universidade de Brasília (1987). Em 1986, por sua influência, travei contato com a História e Historiografia da África, participando de cursos de extensão em Brasília (DF) e Cuiabá (MT), com professores especialistas, como o próprio professor e Valdemir Zamparoni, hoje na Universidade Federal da Bahia. Esses cursos foram fundamentais para pensar uma educação antirracista e decolonial, quando ainda esses temas não eram discutidos nas universidades brasileiras.
No início dos anos 1990, já como professor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe, propus, durante o debate sobre a reforma curricular do curso de história, a inclusão da disciplina História da África como obrigatória, antecipando uma discussão que seria consolidada posteriormente com a Lei 10.639, de janeiro de 2003. Apesar da resistência de alguns professores, o pleito foi aprovado, resultando na realização do concurso público para professor da disciplina História da África, no ano de 1998, garantindo uma iniciativa totalmente inspirada nos ensinamentos do professor Flávio Saraiva.
Outro desdobramento de nossa amizade e afinidade intelectual foi a realização do seminário do centenário do final da Guerra de Canudos, em conjunto com os Departamentos de História da UFS e da UnB, resultando em um número especial da revista, hoje extinta, Textos de História, do Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade de Brasília (1997). Os debates foram extremamente relevantes para mim, resultando alguns anos mais tarde na construção de minha tese de doutorado, defendida no próprio programa (2006).
As peculiaridades da carreira universitária nos afastaram, por conta da sua opção pela brilhante carreira nas relações internacionais, como professor titular na Universidade de Brasília e sua enorme contribuição na Associação Brasileira de Relações Internacionais. Tal como a amizade dos fotógrafos Pierre Verger e Marcel Gautherot, enquanto o primeiro investia nas viagens internacionais, como Flávio Saraiva, o segundo, como eu, adentrava-se pelos sertões do Brasil. Contudo, acompanhava à distância seus livros e artigos nas revistas. Eram tantos, que o frenético ritmo de sua produção intelectual me deixava atônito.
Há algum tempo saberia da doença que o levou à morte, por mestres tão queridos como ele. Contraditoriamente, o professor/historiador combatia o Alzheimer do Brasil, mas foi tragado por essa doença nefasta, como, aliás, a própria nação brasileira. Sua contribuição intelectual e humana se perenizará naqueles que tiveram oportunidade de conhecê-lo e que compartilharam da sua erudição sobre vastos temas, mas, principalmente, sobre as relações Brasil-África. Quando estive em Cabo Verde, em um congresso, há alguns anos, percebi que seus ensinamentos não morrerão jamais. A feira de Sucupira se aproxima das feiras do Nordeste, com seu toque oriental, também destacado por Gilberto Freyre, que ele combatia por seus vínculos com o salazarismo, derrubado faz cinquenta anos, com a Revolução dos Cravos.
Descanse em paz, meu querido mestre.