01/12/2022
A IMPORTÂNCIA DAS FONTES NATURAIS PARA A OBTENÇÃO DE FÁRMACOS.
Há muitos anos compostos químicos obtidos de fontes naturais são utilizados para o tratamento de diversas doenças em todo o mundo e por décadas o conhecimento sobre como utilizar estes componentes para recuperar a saúde vendo passado de uma geração para a outra. Os componentes químicos obtidos através de fontes naturais são muito utilizados na medicina e seu uso está relacionado com diferentes fatores como cultura, gênero, idade e status socioeconômico. Além disso, a lista de enfermidades que podem ser tratadas com o uso substâncias obtidas das fontes naturais, assim como a quantidade destes componentes que podem ser utilizados no tratamento de doenças é bastante extensa.
Uma fonte de obtenção de moléculas biologicamente ativas são os microrganismos. Um exemplo é a Penicilina, um antimicrobiano amplamente utilizado para tratar diversas infecções causadas por bactérias. Este fármaco foi descoberto por Alexander Fleming após sua cultura de células bacterianas ter sido contaminada por fungos do gênero Penicillium, que secretaram a penicilina. Após esta substância ser identificada ela passou então a ser usada em seres humanos e revolucionou a história da medicina.
Há também, aplicabilidade da utilização dos fungos do gênero Penicillium para a produção de compostos que atuem no controle do colesterol alto, como por exemplo o fármaco mevastatina. Esta substância atua bloqueando a enzima HMG-CoA-redutase, envolvida na etapa inicial da síntese do colesterol. Sem este enzima, não há a produção de colesterol, fazendo com que haja então a redução do colesterol na corrente sanguínea dos indivíduos que fazem uso desta medicação.
Podemos falar ainda da Doxorrubicina. Este fármaco é produzido por bactérias Streptomyces peucetius e sua atividade anticâncer consiste em bloquear o processo de divisão celular, levando então à redução ou bloqueio do crescimento do tumor. A doxorrubicina foi isolada pela primeira vez no ano de 1960 e também representou um grande avanço na medicina mundial
Outro componente de grande utilidade dentro da medicina é a Estreptomicina, um antibacteriano utilizado no tratamento da tuberculose e que também é capaz de combater infecções por bactérias gram-negativas. A estreptomicina também é produzida por bactérias do gênero Streptomyces, responsáveis por decompor matéria orgânica do solo. Foi descoberta em 1943 após o pesquisador Selman A. Waksman notar que as bactérias causadoras da tuberculose não conseguiam sobreviver no solo, o que indicava a produção de uma substância antibacteriana que era produzida por organismos ali presentes.
Além da estreptomicina, as bactérias do gênero Streptomyces também são responsáveis pela produção do ácido clavulânico, um medicamento utilizado em associação com fármacos antibacterianos para impedir que estes sejam degradados por enzimas bacterianas. Em um processo de resistência, as bactérias produzem enzimas chamadas beta-lactamases, responsáveis por degradar os fármacos beta-lactâmicos (Penicilinas, Cefalosporinas, Carbapenêmicos e Monobactâmicos). Ao ser administrado juntamente com os antibacterianos, o ácido clavulânico bloqueia as beta-lactamases, permitindo que as bactérias sofram o efeito dos antibacterianos.
Outra fonte largamente utilizada para a produção de fármacos são os vegetais. Por se tratar de organismos diversos e que possuem uma diversidade de compostos químicos, são uma grande fonte de substâncias biologicamente ativas. Boa parte destes compostos são produzidos pelas plantas para que elas possam sobreviver em condições hostis. Dentre as finalidades para a produção destes componentes estão: o combate a herbívoros, proteção contra microrganismos, resistência a condições climáticas extremas ou até mesmo o domínio territorial. Isto faz com que os componentes produzidos por estas plantas possam apresentar atividades biológicas diversas, tendo um potencial de ser utilizado como fármaco.
Como exemplos de medicamentos de origem vegetal e que estão disponíveis na terapia atualmente podemos citar a Digoxina e a Digitoxina, extraídas das plantas Digitalis lanata e Digitalis purpurea e que são utilizados no tratamento de insuficiência cardíaca porque aumentam a força de contração do músculo do coração. Há também fármacos de origem vegetal que são utilizados no tratamento de câncer como o Paclitaxel, um componente extraído da Taxus baccata e também a Vincristina, extraída da Catharanthus roseus (conhecida popularmente como Maria-sem-vergonha) que atuam bloqueando o processo de divisão celular e impedindo o crescimento do câncer.
Outra fonte de obtenção de fármacos são os animais. O captopril e a heparina são dois exemplos de compostos obtidos por estes seres. O captopril é obtido do veneno de Bothrops jararaca, popularmente conhecida como jararaca brasileira. Este fármaco tem um grande potencial de reduzir a pressão arterial por inibir a Enzima Conversora de Angiotensina. Já a heparina é um anticoagulante produzido em células de tecidos que tem contanto com o meio externo como pulmão, pele, intestino ou por células de defesa do organismo. A heparina atua inativando enzimas envolvidas na formação de coágulos e por esta razão é utilizada para tratar tromboses e embolias.
Estes são só alguns exemplos, mas existem muitos outros fármacos disponíveis na terapia e que foram obtidos de fontes naturais. Há, entretanto, diversas doenças que não tem tratamento específico ou cura e também doenças nas quais há tratamentos, mas os medicamentos disponíveis atualmente não conseguem atuar com excelência. Com isso, pesquisas buscando substâncias biologicamente ativas que ainda não foram exploradas são importantes, pois dentro deste amplo universo químico, certamente há compostos ainda desconhecidos, que podem ser utilizados para tratar doenças conhecidas, contribuindo fortemente para os avanços terapêuticos no mundo todo.
Autor: Vilson Serafim Junior, Doutorando do Programa.
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