26/10/2024
A VERDADE – Uma Dança Cósmica da Unidade Divina
Caríssimos e amadas.
A dualidade sempre acompanha nossa vida humana, muitas vezes como facilidades e adversidades, felicidade e infelicidade, amizade e inimizade, bem e mal, amor e ódio, sendo algo que não podemos evitar. O que nos faz sofrer também nos permite sentir prazer, quando as adversidades, suplantamos.
Nosso universo é uma mistura inseparável dessas forças opostas e contrastantes, que se alternam e coexistem no natural ritmo da vida. Mesmo que tentemos fugir desses contrastes, eles estão sempre presentes. Enquanto o mundo tenta se afastar desses extremos, os sábios procuram uma solução definitiva para equilibrar essa combinando esses opostos, pois uma dor intensa das horas trabalhadas força-nos a desejar e a buscar momentos de descanso que consigo traz o prazer do alívio; a luz é o extremo superior que ilumina a escuridão, destacando quão profunda ela é.
As crianças chegam ao mundo, cheias de esperanças, mas a vida inevitavelmente as leva com o tempo à desilusão contínua dos adultos, cujos os anseios e ideais nunca são totalmente realizados, e os desejos intensos raramente são completamente satisfeitos. Assim, a busca por respostas a esse mistério continua, e a verdadeira religião assume a tarefa de encontrar a solução, enquanto as falsas religiões dizem possuir um significado.
Nas antigas crenças dualistas dos persas, Ahura Mazda e Ahriman coexistiam. Essa ideia, migrou através dos judeus e se espalhou pela Europa e Américas na figura de Deus e Satã, sendo uma interpretação de dualismo cósmico que ainda dura, mesmo depois dos milênios; hoje, porém, como iniciados, sabemos que essa divisão absoluta não se sustenta mais. Nada é completamente bom ou mau; o que é bom para um pode ser ruim para outro. O que parece mau hoje pode se mostrar benéfico amanhã, e vice-versa.
No começo, Deus era o deus de um clã; depois, tornou-se o deus governante sobre outros deuses e de várias nações. Para egípcios e babilônios, essa ideia de Deus e Satã também foi aplicada de forma prática, onde o deus Moloch era o supremo, e os deuses derrotados se curvavam em respeito e submissão.
E o mistério permanece: quem é o responsável pelo mal? Muitos se confortam pensando que tudo é bom, e que nossa compreensão limitada não consegue perceber essa bondade universal. Mergulham na ilusão, agarrando-se a pequenas esperanças, enquanto evitam encarar a verdadeira realidade (somos nós, a nossa consciência quem dá classificação e qualidade a um evento, se é bom ou se é mau, isso tudo dependendo do ponto de vista e da correspondência da comparação). A nossa moralidade se baseia sempre no sacrifício, ou seja, doação do eu em benefício de você. Quão paradoxal é isso diante da ideia de um Deus todo-poderoso e bondoso! Às vezes, esse Deus é visto como vingativo, que envia pragas, fome e guerra aos desobedientes.
Indiferente aos nossos deuses, ao nosso culto, a nossa religião, todos nós, sem exceção, passamos por dificuldades na vida. Podemos tentar evitar os momentos difíceis, mas mais cedo ou mais tarde alguns deles nos alcançam.
Sinto pena de quem se recusa a ver esse todo, pois de forma ignorante agradece a deus pelas bonanças e sofre com as misérias.
Nos Vedas lemos que o Deva Manu da Índia (Deus Manu da Índia) é o mesmo que se torna Arimã na Pérsia; a antiga explicação mitológica desaparece, mas a pergunta permanece sem resposta:
COMO PODE UM DEUS BOM TORNAR-SE NO DEUS MAU?
Simplesmente por que Deva Manu era o deus dos indianos e os Persas classificaram o termo Deavas como demônio, e assim Arimã seria o nome dado pelos Persas ao deus dos indianos.
Porém, nos antigos hinos védicos encontramos o início de uma nova compreensão, o culto dedicado à Deusa:
- "Eu sou a luz do sol e da lua; eu sou o ar que dá vida a todos os seres".
É daí que surge o culto à Deusa Mãe, a energia universal que permeia e sustenta a vida. Essa energia é o que nos dá vida; somos formados pela interação entre força e resistência, entre poder interno e oposição externa. Em cada átomo, pensamento e ação, vemos o resultado dessas forças opostas.
A ideia de um Deus com forma humana, intervindo na vida das pessoas, ainda é recente. Nos antigos hinos védicos, divindades como Varuna e Indra abençoavam os devotos com uma humanidade tocante, talvez mais humana que o próprio homem. Assim surge o conceito de um poder universal e único por trás de todos os fenômenos. A antiga noção de Deus como pai, que cuida da felicidade dos seus, dá lugar à compreensão de um poder onipresente e impessoal—"Eu sou o poder nos santos, e sou o poder nos perversos".
A religião persa criou o Satã em razão da existência de uma divindade opositora a sua, o Deva. Mas sabemos que na Índia não existia tal figura maligna, mas, apenas mais tarde, textos religiosos incorporaram essa ideia.
O mal é inevitável como sendo um fato da existência humana. Ponto.
Se este universo é real, ele é uma combinação de bem e mal. Ponto.
Entretanto, quem governa este mundo, deve ser o Rei que reina sobre ambos. Se o poder que nos dá vida é o mesmo que nos leva à morte, então riso e lágrimas estão próximos, provenientes de uma mesma origem. A mesma força que cria flores e ergue montanhas também traz o inverno que devasta toda paisagem para um novo nascimento. É essa mesma força que molda nossas virtudes e nossos erros e fraquezas.
Separar nações é criar deuses opositores e consequentemente fazer surgir bem e mal, nos tornando insensíveis e nos afastando cada vez mais uns dos outros, e principalmente da divindade superior que habita dentro de nós.
Essa visão segregadora, ela gera ódio e divisões eternas entre as pessoas. A verdade é que bem e mal são lados de uma mesma evolução. Aqueles que chamamos de santos e pecadores estão apenas pessoas que se encontram em diferentes degraus de uma mesma escada, mas isso não quer dizer que uns são melhores que os outros. O sol brilha igualmente para todos, seja em qual degrau estiverem da escada da vida.
Entender o universo é amar todas as suas partes, sem distinções. A mãe não abandona o filho, mesmo quando ele se afasta. Seu amor é incondicional, sem egoísmo. Ela representa o amor puro e eterno. Por isso, a figura da Mãe é a essência dessa força que permeia o cosmos: "Eu sou o Poder que habita em todos os seres", diz Ela. É Ela quem cria e destrói, pois na destruição está o início de uma nova criação.
Em paralelo a essa doutrina hindu, temos para corrobora a doutrina dos primitivos gnósticos.
Devemos aceitar a dor assim como aceitamos o prazer, pois ambos são partes do mesmo mundo regido pela Mãe. A Mãe, conhecida na tradição gnóstica como Sophia, cria o universo por pura alegria, um jogo divino do qual participamos. Ela é a vida e a morte, o prazer e a dor. Nossa confiança Nela é, no fim, a fé de que tudo é apenas sua brincadeira. Nos desafios do caminho, nossa vaidade e orgulho são testados e superados, até que reste apenas o verdadeiro amor e entrega à vida.
Assim, Deus Pai, o Demiurgo na visão gnóstica, emana sua energia de vida para que a Mãe Sophia construa os corpos onde a vida se manifesta, e os seres possam brincar ao seu gosto. Cada um escolhe sua brincadeira e colhe as alegrias e tristezas dessa escolha. Nós somos os únicos responsáveis pelo bem e pelo mal em nossa vida, enquanto Deus Pai e Deusa Mãe permitem a existência da vida.
Nesse grande jogo cósmico, surge o Cristo, o Filho que evolui na vida alcançando a emancipação. Ele representa em nós o potencial de transcender as limitações e descobrir a verdade interna. Através do caminho do Cristo, aprendemos que é possível elevar-nos acima da dualidade, alcançando a plenitude do ser.
No final, nos resta abraçar o universo com um amor imparcial e eterno.
Ao ver o mundo com essa visão unificadora, como um parque de diversões onde podemos brincar à vontade, (tornando-nos, por isso, os únicos responsáveis pelas brincadeiras e pelo bem e pelo mal que dessas brincadeiras bem e mal vierem), reconheceremos na diversidade dos seres a presença de Deus Pai, doador da Vida; da Deusa Mãe Sophia, que nos gera pela eternidade; e do Cristo íntimo, nossa própria consciência interior que nos guia rumo à paz profunda da alma e iluminação espiritual. É nesse reconhecimento que a dualidade desaparece e entendemos a unidade que permeia todas as coisas, passando a viver livremente, sem medos e sem restrições.
Boa jornada.
Pax et Lux
FR+ Irmão Leigo