Rita Alves

Rita Alves Psicanalista, educadora, escritora.

Nota crítica ao livro “Esgrima da água”, de Rita Alves.Por Henrique WagnerA esgrima é uma luta corporal em que os corpos...
03/06/2024

Nota crítica ao livro “Esgrima da água”, de Rita Alves.
Por Henrique Wagner

A esgrima é uma luta corporal em que os corpos não podem se tocar. A esgrima da água contra a água é a luta líquida entre elementos iguais que não se tocam. Esta é a imagem dominante – no sentido musical do termo – do poema que dá título ao mais recente livro da poeta e curadora de arte Rita Alves.
“Esgrima da água” reúne poemas em sua maioria intranquilos, perplexos, por vezes niilistas, aparentemente caóticos, todos formando o resultado de um mundo que parece se desfazer como aquele relógio famoso de Salvador Dali. A poeta, muitas vezes, aposta em imagens as mais apocalípticas, reunindo cores a metais, aproximando signos antagônicos em antíteses grandiloquentes que causam o impacto de uma supernova no leitor atento.
Rita Alves é poeta experiente em várias áreas de conhecimento e arte. Talvez por isso sejam vários os recursos literários de que dispõe para a construção de seu conjunto de poemas, marcado pela riqueza de imagens extremamente originais, pelo colorido ácido, pela sinestesia, pelo uso lúcido de signos e representações ou recriações da realidade sempre a favor da melhor construção poética, transformando desilusões em versos de grande e evidente valor artístico – o que nos leva a pensar nos versos da letra de uma canção de Caetano Veloso, “Épico”: “botei todos os fracassos/nas paradas de sucesso”.
O livro de Rita é fluido, mesmo em poemas cheios de pedras e atritos. A fricção em sua poesia é sempre elegante como o passar de uma caleça , e sua ira nunca se reduz ao panfleto, pelo contrário: aparece carregada de linguagem cifrada como a melhor linguagem artística possível, em que a decodificação consiste em ler e reler sem que se faça do poema uma receita, mas uma canção sem harmonia fácil e realista. Aliás, é importante ressaltar que sua inconformidade com as coisas jamais trai qualquer sentimento de nostalgia que rechace o tempo presente: sua poesia intenta a retomada do presente, com as armas do presente, sem passadismo, portanto, sem a recusa ao novo.
O universo da poesia de Rita dialoga com o melhor da tradição poética transatlântica e iberoamericana: Eugenio Andrade, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Drummond, García Lorca. É ancorada nessa base sólida que tanto sugere ou mesmo determina um caminho, que a poesia de Rita Alves consegue encontrar coragem para ousar, em versos livres e brancos cheios de soluções inusitadas para os problemas que eles mesmos, os versos, formulam. A parataxe, o verso longo, o poemeto, o poema a la Whitman, o verso sibilino, o quase haicai de poemas lacunares cheios de elipses que dizem mais que mil palavras. E é ancorada na tradição que a poeta tenta – e logra – honrar nomes tão importantes da poesia fazendo de sua obra um repositório de bom gosto, de riqueza de recursos – nunca usados com exibicionismo – e de força da palavra poética bem urdida, em tempos marcados pela ojeriza à arte e ao belo – como conceito.
Abaixo, segue o poema que abre o livro e empresta-lhe o título:
Luta
São as catástrofes
bússolas sem ponteiros
avalanche de peixe-espada
incansável combate
Esgrima da água
contra a água
Não se trata de uma luta qualquer, mas de uma luta que está acima da violência vulgar, representada não por meros sopapos, mas por esgrima. Uma luta que pode determinar as tantas lutas abaixo de si. É uma luta entre um elemento que representa a vida, e que é fluido. Uma luta entre iguais – da água contra a água –, o que confere ao poema uma quase enigmática sentença: uma luta vã, já que a água contra a água acaba se desfazendo em si mesma, mas ainda uma luta promissora, uma luta que parece precisar apenas da consciência dos contendores de que eles são feitos da mesma seiva, são feitos de vida, e são iguais. Estão, teoricamente, do mesmo lado, como homens e mulheres, que fazem parte da mesma humanidade.
O poema abaixo é um bom exemplo de uma das marcas do livro “Esgrima da água”, o estado de perplexidade em um mundo concentracionário:
Nada mais
Rotação sem eixo
Rota incerta
Caminho aberto
Floresta densa
Escorpiões voláteis atacando as unhas
Dedos comidos pelos anjos
Olhos vazados pelo reflexo da noite
Sem nome
Sem data
Compartimento sem fecho
Água contaminada de destinos
Encontro de transversais
A lírica não se choca com o epicizante. Em vários momentos de “Esgrima da água”, livro lançado pela editora Penalux neste ano de 2024, a poeta engendra um discurso que parece atender os anseios de um poema “maior”. Mas é na espada curta – a grande arma do maior samurai do planeta, Miyamoto Musashi – que Rita Alves acerta em cheio seus oponentes, como no belíssimo – e pungente – poema que reproduzo abaixo:
Guerra
Após o bombardeio
o poema em escombros
procura a doçura dos lábios
para ser novamente pronunciado
As letras se espalharam entre as ruínas
as salivas se misturaram
ao gás lacrimogêneo
Sobreviventes silentes
reservam a seda dos dedos
para os curativos
de um coração despedaçado
Depois da guerra
toda parte do corpo é íntima
“Esgrima da água” representa, sem favor algum, o que de melhor a poesia brasileira vem fazendo nos últimos anos. Ouso dizer, aliás, que a melhor poesia brasileira feita atualmente, tem sido feita por mulheres.

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04/05/2024

Orgulho de ser a responsável pela estruturação desse projeto em nível nacional e que significa tanto para as pessoas com síndrome de Down.

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24/01/2024

A Universidade de São Paulo, USP - tem um desses raríssimos exemplares. Fui vê-lo em algum momento e é, realmente, belíssimo.

Na Câmara do Porto, podes contemplar a 1ª edição de “Os Lusíadas” e ainda uma seleção de edições antigas da mesma obra. Sabe mais no artigo!

LAVAGEM DO BONFIMMeu Brasil amado, ouve teus filhosChoro emocionada o canto de luta As lágrimas lavam o mar de salEncobe...
17/01/2024

LAVAGEM DO BONFIM

Meu Brasil amado, ouve teus filhos
Choro emocionada o canto de luta
As lágrimas lavam o mar de sal
Encoberto de sangue de teus filhos
Pátria, tombe os párias de teu destino
Ouve minhas poéticas preces em fervor
Olhe meus pés em desatino
Senhor do Bonfim das boas causas
Remove a bala que nos mira a alma..
Comoção e naufrágio em auto de fé que não me explica
Vozes ancestrais urgem meus braços a ferro..
Canto o clamor dos oprimidos

(Rita Alves, Salvador, 17.01.2019)

Pensa numa beleza profunda,  sem adjetivos. Dorival Caymmi. É tão grande que não cabe, extrapola.Documentário excelente.
13/01/2024

Pensa numa beleza profunda, sem adjetivos. Dorival Caymmi. É tão grande que não cabe, extrapola.
Documentário excelente.

Ele foi o primeiro a cantar os Orixás e a introduzir o Tempo do Candomblé na música popular brasileira. Desafiou a própria morte ao se entregar nos braços de...

nostalgia che taglia il tempo affettatofogli trasparenti di spazio
12/01/2024

nostalgia
che taglia il tempo
affettato
fogli trasparenti
di spazio

FADO(Rita Alves, inédito para o livro "Esgrima da Água", a sair em 2024)Campo minadobombas escondidassob o gramado do ja...
08/01/2024

FADO
(Rita Alves, inédito para o livro "Esgrima da Água", a sair em 2024)

Campo minado
bombas escondidas
sob o gramado do jardim

Campo de fardos
arrastados pela temporalidade
das estações

Há minas terrestres
embaixo das estruturas das casas

Sob o betume o explosivo aguarda
ao rés-do-chão
o resto dos dias em latência

Ainda ontem
em escavações arqueológicas
pacientemente garimpadas sob os lençóis
foi possível detectar a forma das granadas

Há projéteis nos arrimos das estradas
e pólvora misturada às hóstias

Veja o volume do seu abdômen
e sua alma tempestuosa e gris

Você aderiu à forma e à cor dos cilindros oclusivos
e anda com passos temerosos e lentos
à espera do passo em falso

Tudo é questão de tempo

A vida tudo transforma
matéria em pó
corpo acaba

O assombro do ocaso
Rendido ao fado

BOM DIA! Poema "Bahia", edição de vídeo Lucila Meirelles e voz Madeleine Alves .
04/01/2024

BOM DIA!
Poema "Bahia", edição de vídeo Lucila Meirelles e voz Madeleine Alves .

Rita Alves andando na praia e falando o seu poema "Bahia"

DA PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO VINão a forma encontradacomo uma co**ha, perdidanos frouxos areaiscomo cabelos;não a forma o...
18/12/2023

DA PSICOLOGIA DA COMPOSIÇÃO

VI

Não a forma encontrada
como uma co**ha, perdida
nos frouxos areais
como cabelos;

não a forma obtida
em lance santo ou raro,
tiro nas lebres de vidro
do invisível;

mas a forma atingida
como a ponta do novelo
que a atenção, lenta,
desenrola,

ar**ha; como o mais extremo
desse fio frágil, que se rompe
ao peso, sempre, das mãos
enormes.

De Dolores Duran e Carlos Lyra.
17/12/2023

De Dolores Duran e Carlos Lyra.

Carlos Lyra - 07 O Negócio É AmarAlbum Title: BossaLyraArtist: Carlos LyraGenre: Bossa NovaYear: 1993

Endereço

São Paulo, SP

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