16/06/2026
O canto é uma das características mais antigas desses insetos e, para os machos, a principal estratégia para atrair fêmeas. Mas nem todos os grilos cantam. Em estudo recém-publicado no Journal of Systematics and Evolution, foram analisadas mais de 100 espécies de grilos arborícolas da família Oecanthidae e documentadas como essa capacidade foi perdida repetidas vezes ao longo da evolução do grupo. Lucas Denadai de Campos, um dos autores do artigo, descreve que o aparato de produção de som dos grilos f**a nas asas anteriores, sendo que os machos possuem uma fileira de dentes na região ventral da veia pós-cubital, chamada de fileira estriduladora, além de estruturas que amplif**am o som, como a harpa e o espelho e tanto machos quanto fêmeas ouvem pelo tímpano, localizado nas tíbias anteriores. Usando métodos comparativos filogenéticos, os pesquisadores mapearam a história evolutiva de seis dessas estruturas ao longo de uma filogenia calibrada no tempo para toda a família. O ancestral comum dos Oecanthidae cantava e ouvia, mas ao longo de 160 milhões de anos, linhagens independentes perderam essas estruturas em pelo menos 15 eventos diferentes só para a produção de som. "Duas pressões parecem ter contribuído para isso, em habitats como abaixo das cascas das árvores, o espaço é reduzido e o som se propaga mal. Cantar simplesmente não compensa. Em ambientes mais expostos, o problema é outro: cantar atrai predadores acusticamente orientados, como aves e morcegos. O silêncio pode ter sido a saída.", fala Lucas. A perda, porém, não segue um único caminho. Há espécies surdas que ainda possuem estruturas de produção de som, e grilos mudos que ainda mantêm o tímpano. Esses fenótipos intermediários sugerem que esses insetos podem estar em transição para outros modos de comunicação, possivelmente por vibração do substrato. Entender essa dinâmica ajuda a compreender como sistemas de comunicação complexos surgem, se mantêm e desaparecem ao longo do tempo evolutivo, um padrão que se repete em grupos muito distintos de animais.
Artigo "Going silent? Evidence for independent losses of acoustic communication in tree crickets (Insecta, Orthoptera, Grylloidea, Oecanthidae)" onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/jse.70080 -information-section Contato: [email protected]