19/12/2017
NOTA SOBRE MAIS UM CASO DE ASSÉDIO NA RESIDÊNCIA
No último domingo, dia 17 de dezembro de 2017, em assembleia extraordinária na RESIDÊNCIA UNIVERSITÁRIA DA UFBA1 (R1), foi pautado como tema central mais um caso de ASSÉDIO, dentro das residências universitárias da UFBA e como ele influi na vivência das poucas mulheres, principalmente levando em consideração o quadro desigual de residentes da R1 onde mulheres que residem neste espaço coletivo, são brutalmente minoria. Diante do acontecimento, a assembleia ocorreu de acordo com o que é previsto no Regimento das Residências Universitárias, contendo ata e demais adereços que a legítima.
O caso pautado foi com um morador da R1, que já tem um longo histórico de assédio durante toda sua estadia na casa. Este assédio não atinge somente as moradoras da residência como também hóspedes e funcionários. E deixando mulheres que frequentam a residência por conta do R.U em alerta. Não existe um número certo de vítimas, levando em conta o medo e também a dúvida sobre a concepção de assédio, assim deixando passar inúmeros abusos desse residente, que inclusive é amigo de um já indiciado perante a Lei Maria da Penha por estupro e assédio. Caso conhecido por acontecer na residência 3 nos últimos meses.
Confrontado em assembleia por moradoras e membras do MMR, o mesmo negou o crime legitimando seu discurso com argumentos tantos pessoais, como sua criação por mulheres, como político, desviando várias vezes da pauta. Questionado sobre o ato antes da reunião, onde ele hostilizou uma das mulheres vítimas de violência na rampa do R.U, ele usou do argumento que tinha o direito de f**ar quieto diante das pessoas.
Na mesma ocasião, ele reconheceu que tocou no corpo de uma mulher sem seu consentimento, mas que não encarava isso como assédio, pois queria somente “acordá-la”. A mesma contou sobre o ocorrido e foi duramente deslegitimada pelo sujeito, que alegou já ter intimidade com a mesma, o que não justif**a sua ação naquela noite. Em casos passados, esse mesmo homem assumiu o papel de controlar a vida das mulheres da casa, principalmente no que diz a respeito da vida afetiva, assediando hóspedes que posteriormente virariam moradoras da casa. Usando as comissões da casa, que tem como único objetivo contribuir para organização da mesma, abusando dessa ferramenta para invadir mais ainda a intimidade das mulheres e das hóspedes da casa através das listas de hospedagem, assim tendo o controle de quem cada mulher levava para casa e constrangendo as mesmas e dados sobre as hóspedes.
Levando em consideração que todas e todos estão dentro de um ambiente acadêmico, e que todos têm acesso as discussões sobre gênero, que inclusive é levada até as residências através de eventos, ciclos de debate e coletivos, a didática adotada pelas mulheres nessa assembleia só ilustra o quanto ainda sofremos por termos que explicar a cada assédio, violência ou estupro, que esses atos são errados e falar sobre suas origens. Como registrado em ata, não queremos que os homens saiam das residências, mas não queremos perder tanto tempo
explicando coisas que eles têm acesso e são o quanto obvias.
No último caso, contamos com a Pró Reitoria para nos ajudar nessa criação de consciência coletiva. Entretanto, essa ajuda ainda não chegou e estamos carregando sozinhas o peso de aguentar todas essas violências e ainda ter que explicar aos homens que eles estão errados. Não é nosso dever, mas é única oportunidade de continuarmos na residência. Ou seja, é uma jornada dupla ter que se dedicar diariamente a universidade e ainda elaborar didáticas formativas para educar os homens. Isso não é residência e sim uma resistência das mulheres. Mas ainda assim queremos abdicar desse fardo.
O recesso de final de ano se aproxima e com ele o medo das mulheres que vão permanecer na casa. O sujeito em questão já falou que não tem nada a perder em relação a nada. Com o recesso, a casa f**a mais vazia e o mesmo já falou que vai permanecer na casa. A residência que ainda continuará habitada por mulheres, que em seu total são 8 para 60 homens. Tememos que por conta do recesso essa nossa carta e também apelo não tenha o alcance suficiente para alertar toda comunidade UFBA sobre mais um caso explícito de assédio, levando em conta que outros acontecem, mas não são relatados. E que esses tempos de festas acabe virando um momento de mais insegurança e receio para essas mulheres que não vão voltar para suas cidades e permanecerá na residência com o sujeito. Por isso o ideal era a providência ser tomada antes do recesso.
O motivo de estarmos primeiramente denunciando pela internet é que queremos fazer o caminho inverso do último ocorrido. Queremos chegar até a PROAE como toda a comunidade UFBA a pressionando para eles não postergarem como da última vez. Sabemos que sozinhas diante de um número maior de homens residentes não conseguiremos o que queremos. Como encaminhado na assembleia, queremos a EXPULSÃO IMEDIATA do assediador, pois não é o primeiro incidente dele e nem será o último. Infelizmente conhecemos o processo de formação desses homens e o quanto a solidariedade masculina os conforta, mas reconhecemos que mulheres juntas são capazes de muito mais. Por isso, pedimos apoio de todas e todos que tiverem o mínimo de consciência sobre violência de gênero e principalmente como ele afeta a permanência de mulheres na universidade e também na esfera pública.
No último caso, tivemos mulheres que voltaram para o interior, não queremos que ocorra isso novamente. Vamos lutar para um e novamente deixar como exemplos para todos os homens das casas que assédio não será mais tolerado. Queremos lutar por um ambiente mais saudável para todas as mulheres, onde as mesmas não sintam medo de ir ao banheiro ou beber água durante a madrugada. Novamente, pedimos que pressionem toda a comunidade UFBA, especialmente a PROAE para que possamos começar 2018 de maneira mais saudável e segura.
Salvador, 19 de dezembro de 2017
MMR – Movimento de Mulheres Residentes