08/04/2019
No início desta semana, foi veiculado entre os estudantes que aconteceria na sexta-feira, 5 de abril, a exibição do filme ‘1964: O BRASIL ENTRE ARMAS E LIVROS’ e uma posterior mesa de debate sobre o mesmo, no auditório da Faculdade de Economia, com realização por um grupo chamado Estranhos à UFBA.
Representantes estudantis da graduação e da pós-graduação do curso de Economia prontamente se organizaram na busca por informações perante a Faculdade, reunindo-se com o Prof. Henrique Tomé logo na segunda-feira, dia 1º. Este, que nos recebe sempre com muita cordialidade, já estava ciente da repercussão e procurou saber como foi feita a solicitação do evento. No documento de solicitação, o intuito do evento seria a “exibição de um filme sobre a história do Brasil” e os solicitantes não eram o grupo Estranhos à UFBA, mas um estudante da graduação.
Estas irregularidades, omitem questões relevantes como o real objetivo do evento, quem o financia, o público alvo, quem seriam os debatedores, ou se seguiriam o rigor científico que a comunidade acadêmica demanda. Por isso, o evento poderia apresentar ameaças ao patrimônio material e imaterial da Universidade e da Faculdade de Economia da UFBA, utilizando da credibilidade das instituições para promover o filme, quando o mesmo prega antiacademicismo e o revisionismo histórico, ferindo a tradição da comunidade científica.
Diante da atual conjuntura política, em que o Presidente em exercício promove um governo com o maior número de militares assumindo cargos no Ministério desde a redemocratização, que orientou quartéis a comemorarem o 31 de março – data do golpe militar de 1964 que desencadeou em um regime de 21 anos – o evento que exibiria um filme de produção duvidosa, que supostamente serviria como celebração o golpe de 1964 e a ditadura, significa uma afronte à história e memória da universidade, uma provocação à instituição que foi alvo de repressão no período do regime militar, e que vem sofrendo novos ataques desde o início do atual governo.
A reunião extraordinária de Congregação na última quinta, dia 5, destinada a discutir a permissão ou não do evento, serviu como um momento para elucidação de questões que a solicitação deste tinha gerado, pois, os próprios organizadores, em diálogo prévio com o Prof. Tomé, já tinham declinado da exibição do filme e da mesa de debate. Professores de diversas áreas do conhecimento marcaram presença para reafirmar o enfrentamento à apologia da ditadura militar, que é vista, pelos mesmos, como uma ameaça ao Estado Democrático de Direito da República Federativa do Brasil, que garante os direitos fundamentais da pessoa humana, consolidados na Constituição Brasileira de 1988. Portanto, o impedimento da exibição de filmes como o citado acima, também é um ato em defesa da democracia, a favor dos direitos humanos e contra o ódio.
A chapa Crisálida, atual gestão do Diretório Acadêmico Plínio Moura, considera que a entidade tem o dever de representar e apoiar a manutenção da vida e das condições acadêmicas dos estudantes, defendendo-os de discursos que disseminem qualquer tipo de discriminação ou supremacia de qualquer grupo. Queremos representar o que admiramos e o que acreditamos. E, acreditamos que, integrando um ambiente que produz ciência, consequentemente, que produz história, não podemos permitir que instituições que preguem o contrário ingressem nosso espaço sem achar resistência.
A Faculdade de Economia é uma casa do conhecimento e seguiremos promovendo a liberdade de pensamento e a pluralidade da ciência. Porém, assim como em nossas casas, não permitiremos a entrada de quem ameaça seus moradores.