15/07/2016
BURRICE: PRECISAMOS FALAR SOBRE ELA. E É URGENTE
Na madrugada dessa segunda-feira, uma jovem gaúcha, Nickolle Rocha, de 19 anos, foi assassinada na cidade de Cachoeira do Sul (a 188 km de Porto Alegre) por dois adolescentes, que confessaram o crime. Os jovens, de 15 e 16 anos, tiveram relações se***is com ela e depois a atacaram, dando socos e pontapés até que ela morreu por traumatismo craniano. Depois de matá-la, fugiram e deixaram o corpo abandonado num parque. Nickolle, que já tinha sido Miss Diversidade de Cachoeira do Sul e Miss Simpatia da Diversidade do Rio Grande do Sul, era transexual. O delegado de polícia que cuida do caso, José Antônio Taschetto Mota, disse à imprensa que não acha que se trate de um crime de ódio, já que, como vítima e algozes estavam "envolvidos numa relação homossexual", não pode se falar em homofobia.
É muita burrice numa frase só.
Vamos, por enquanto, deixar de lado a confusão entre homofobia e transfobia (uma forma de ódio e preconceito que vitima especificamente as pessoas travestis, transe***is e transgênero). Em primeiro lugar, devemos esclarecer que a relação entre esses jovens e a Nickolle não foi "homossexual", já que eles têm uma identidade de gênero masculina e ela, feminina. Quando um homem faz s**o com uma mulher, seja ela cisgênero ou transgênero, essa relação é heterossexual.
Contudo, o erro na avaliação do delegado é muito mais profundo. Mesmo se a vítima fosse um homem gay e esses jovens, que têm uma vida social hétero, tivessem mantido relações se***is ocasionais com ele (o que é mais comum do que muitos imaginam), a violência posterior poderia ter sido motivada por homofobia sim. Esse tipo de crimes acontece com bastante frequência. O assassinato (geralmente cometido com um alto grau de violência) de um parceiro sexual ocasional por parte de alguém que leva uma vida social heterossexual é uma forma de "expiação" do pecado, de "purificação" doentia motivada pela homofobia social internalizada pelo agressor. O desejo socialmente indesejável é pago pela vítima que o "provocou".
No caso das pessoas transgênero, a confusão do delegado também explica parte do problema, que ele não entende. O preconceito transfóbico não diferencia identidade de gênero com orientação sexual e vê nessa relação uma relação homossexual, que envergonha quem cedeu à tentação de experimentá-la. A violência brutal contra as pessoas trans quer muitas vezes matar, com elas, o desejo que provocam.
Trata-se de um tipo específico de crime de ódio motivado por transfobia e/ou homofobia que, embora não possamos generalizar (porque a maioria das vezes o agressor não tem relações coma vítima), não é incomum. Um delegado de polícia deveria estudar esse tipo de realidade para poder investigar os crimes que ocorrem em sua jurisdição com conhecimento e sem achismos preconceituosos e de senso comum.
Aliás, esse é o modus operandi da polícia em quase todos os casos. E isso tem a ver com o esforço muitas vezes inconsciente dos agentes da segurança de, por angústia decorrente da culpa, dissociarem-se dos assassinos, já que compartilham, com estes, o mesmo ódio ou aversão a homosse***is e transe***is.
http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2016/07/12/transexual-e-espancada-ate-a-morte-no-rs-dois-adolescentes-sao-suspeitos.htm?cmpid=fb-uol