08/07/2020
MANIFESTO ESTUDANTIL: Nota de repúdio sobre ameaças e perseguição do professor Julio Bernardes
O movimento estudantil da UNISC vem por meio desta nota manifestar repúdio sobre as ameaças e perseguição que o professor Julio Bernardes está passando, vítima de um linchamento virtual iniciado pelo Jornal Gazeta do Sul. Julio escreveu em uma de suas redes sociais particulares que: “tem um remédio que não falha… Mata o vírus com certeza... se alguém conhece o Bolsonaro, ou os filhos, ou a Micheque… Diz para eles passarem numa agropecuária, ou até numa ferragem e comprarem ‘Ri do Rato’”, trecho que foi republicado pelo jornal mencionado acima. A matéria, no entanto, deveria levar em conta as afirmações do atual presidente da República que indica medicamentos inadequados para o combate do vírus, como a hidroxicloroquina (que estudos internacionais dizem desencadear graves problemas cardíacos), dentes de alho (o presidente marcou uma reunião no ministério da
saúde para uma apoiadora que acreditava ter descoberto a cura do vírus na planta). A matéria também deveria ter se atentado ao fato de que o presidente estadunidense, Donald Trump, muito próximo de Bolsonaro, indicou o uso de injeções de desinfetante para a eliminação do vírus.
NÃO COMPACTUAMOS com o conteúdo da postagem do professor, tampouco com as dezenas de mensagens que estamos recebendo de pessoas, através de nossa página pública no Facebook, que remetem conteúdo abusivo e violento que nos
preocupa enquanto coletivo mediante tal disseminação de ódio, censura e ameaças. Bem como, a generalização que estão fazendo, a partir da manifestação de um professor, em relação à UNISC como um todo. O nosso manifesto estudantil é CONTRÁRIO ao linchamento, perseguição e ameaças ao professor. O nosso repúdio é em relação à mídia local dar palco para este tipo de difamação, censura e perseguição ao conteúdo que é veiculado em uma conta particular em rede social, e apoiar um linchamento que é atravessado por questões políticas e partidárias em tempos de
crise.
A publicação descontextualizada no jornal supracitado serviu de forma a inflamar o ânimo da população Santacruzense contra o professor em razão da mensagem tirada de seu contexto, pois essa matéria tem pouco ou nenhum interesse público, visto que Julio não exerce, nem nunca exerceu, cargo público; ele atua como professor universitário de uma rede privada e compartilhou o texto em sua conta particular no Facebook.
Para que não seja esquecido devido à gravidade real do contexto macro em nosso país nos últimos tempos, cabe relembrar que o presidente Bolsonaro em várias situações se manifestou e agiu pedindo a morte e incitando a violência contra opositores políticos,
minorias como LGBTs, povos indígenas e mulheres, sendo perverso, abusivo e violento em suas falas; vale lembrar que Jair Messias Bolsonaro tem como ídolo absoluto Brilhante Ustra, militar que estuprou, matou e torturou diversas pessoas, incluindo crianças. Abaixo, seguem algumas das afirmações feitas pelo presidente:
“O erro da ditadura foi torturar e não matar” (2008 e 2016)
“Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff […] o meu voto é sim” (2016)
"Eu espero que acabe hoje, infartada ou com câncer, de qualquer maneira. O Brasil não pode continuar sofrendo com uma incompetente, ou 'incompetenta' à frente de um país tão
grande e maravilhoso" (2015)
“Ele merecia isso: pau-de-arara. Funciona. Eu sou favorável à tortura. Tu sabe disso. E o povo é favorável a isso também” (1999)
“Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, se um dia nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o
trabalho que o regime militar não fez: matando uns 30 mil, começando com o FHC, não deixar para fora não, matando! Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente” (1999)
“Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre. Vou botar esses picaretas para correr do Acre. Já que gosta tanto da Venezuela, essa turma tem que ir para lá” (2018)
“Morreram poucos. A PM tinha que ter matado mil” (1992)
“Somos um país cristão. Não existe essa historinha de Estado laico, não. O Estado é cristão. Vamos fazer o Brasil para as maiorias. As minorias têm que se curvar às maiorias. As minorias se adequam ou simplesmente desaparecem” (2017)
“Filho Gay para mim é a morte. Digo mais: prefiro que morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo” (2011)
Em cada discurso oficial temos uma enxurrada de falas de um presidente que usa de discursos intolerantes eivados de violência e graves ameaças, que discute e argumenta no campo da morte. O jornal, ao compartilhar uma colocação particular sem levar a conduta do presidente em conta, deixa transparente a baixa qualidade do jornalismo da empresa; em contrapartida, jornais de grande repercussão nacional, como a Zero Hora, a Folha de São
Paulo e o Estadão trazem textos com diversas opiniões (hoje mesmo foi publicado um texto de Hélio Schwartsman, que defende a piora do quadro de Bolsonaro, pois isto serviria para a população entender a importância do combate sério ao vírus). Queremos apontar a mediocridade do redator da matéria, que não teve como objetivo trazer uma opinião, mas sim busca conseguir mídia e compartilhamentos, através do linchamento de uma cidadão
que externou seu posicionamento em uma rede social particular.
Às pessoas que em razão da matéria pedem a demissão do professor, que estão compactuando, direta ou indiretamente com ameaças, perseguição e censura sem visualizar o todo, lembramos que o papel da universidade deve ser de fomentar os saberes,
concretizar vias possíveis de acesso à uma educação plural, baseada em processos históricos que marcam nosso país e o mundo, incentivar o debate embasado em teoria-prática, na liberdade de expressão e a pluralidade de ideias. Pedimos maior exercício crítico-reflexivo por parte desses sujeitos que exacerbam comentários, que partem da mesma linha de raciocínio e das ações abusivas/violentas que, tragicamente, assolam nosso país. Pedimos que tal energia gasta na redação de comentários tão tristes seja investida em leituras, estudos e debates não-violentos.
Não vivemos mais em época de ditadura e nenhuma forma de censura será aceita! Estamos juntas/os enquanto sujeitos pensantes e autônomos.
08 de julho de 2020, Santa Cruz do Sul - RS.
Assinam:
DCE UNISC
CONSELHO DE DIRETÓRIOS ACADÊMICOS UNISC