05/06/2020
RETIFICO: CARTA DAS ENTIDADES ESTUDANTIS DA UFRRJ CONTRA O ENSINO REMOTO EMERGENCIAL
À reitoria e aos órgãos colegiados superiores,
Devido às frequentes discussões que vêm ocorrendo nos conselhos da administração superior acerca da implementação de atividades remotas, no que tange a área do ensino, o conselho de Centros e Diretórios Acadêmicos da UFRRJ vem manifestar sua posição contrária a qualquer aplicação de práticas pedagógicas obrigatórias por meio virtual no período da pandemia.
A função social da Universidade neste momento deve ser realizada a favor da preservação da vida, da defesa da saúde e da garantia do bem-estar do corpo estudantil, docente, técnico-administrativo e de todos os trabalhadores que constroem esse espaço. As atividades de pesquisa e extensão não estão e não devem ser paralisadas. Há três pesquisas científicas especificamente sobre o Covid-19 em andamento, logo, o argumento de que “a universidade não pode ficar parada” não tem fundamento. Além das referidas pesquisas, a UFRRJ está realizando outras ações orientadas para o combate à pandemia e o auxílio à comunidade. Reiteramos que esse deve ser o papel das universidades nesse momento, além de não iniciar aulas remotas de maneira autoritária.
Em pesquisa realizada pelo Diretório Central dos Estudantes em conjunto com diversos Centros e Diretórios Acadêmicos, até a data da publicação desta carta, 62% dos estudantes que participaram utilizam os espaços da universidade para estudar e 40,1% não possuem local adequado para estudos em casa. Fora aqueles que não possuem acesso à tecnologia adequada para o processo de ensino-aprendizagem. Cerca de 18,2% dos que responderam ao formulário conhecem alguém que não tem acesso à internet. É evidente que esse tipo de ensino é excludente, seja pela falta de acesso (à uma internet estável e constante ou aos meios adequados para acessar a plataforma), seja pela falta de possibilidade de estudo (sobrecarga do trabalho doméstico, entre inúmeras outras situações incompatíveis com essa modalidade de ensino).
A pandemia do coronavírus nos impôs um quadro inesperado, atípico. É necessário que a administração superior olhe para seus alunos, professores e funcionários com maior solidariedade e humanidade. A angústia e ansiedade geradas pelo isolamento social, a apreensão causada pela exposição ao vírus — no caso de quem ainda está trabalhando fora, o temor do possível adoecimento de familiares e amigos — fazem parte do cenário e não devem ser entendidos como pormenores. Insistimos, o acesso não é a única problemática em relação à implementação do chamado Ensino Remoto Emergencial (ERE) em tempos de pandemia.
Para ilustrar, mencionamos que dos estudantes que responderam o já referido formulário, apenas 38,2% consideram sua saúde mental apta para assistir aulas online, enquanto 30,8% disseram que não sabem e o restante (30,8%) respondeu que a saúde não está apta, de forma que 61,8% dos estudantes não responderam positivamente. Tudo isso interferiria em nossa capacidade de concentração e por consequência, no aprendizado. Manter o calendário acadêmico em meio a um cenário tão adverso é precarizar nosso processo de formação. Além disso, o ensino remoto já traz por si só uma série de malefícios, tais como: precarização na mediação entre professor e aluno, padronização de conteúdos (perde-se a variação na prática docente a depender do perfil discente), precarização da autonomia docente e do acompanhamento do desempenho estudantil.
A possibilidade de contaminação dos discentes pela Covid-19, mesmo no decorrer de atividades remotas, não pode ser ignorada. Em virtude da reabertura gradual e do relaxamento das medidas de isolamento social no estado do Rio de Janeiro, muitos discentes, que também são trabalhadores (30,9% trabalham e estudam), precisarão se deslocar para seus serviços, tanto na capital quanto em outras regiões do estado, prática conhecida como movimento pendular. Com isso, haverá o risco de contágio em transportes coletivos, comércios, em seus próprios ambientes de trabalho, entre outros. Consequentemente, suas famílias estarão sob o mesmo risco ao fim do dia.
Desta forma, a aplicação de práticas pedagógicas obrigatórias em modalidade remota, ainda que em caráter emergencial, está aquém do apoio, compreensão e proteção da saúde mental e geral de um vasto corpo estudantil componente de uma universidade federal. Nenhuma pessoa é capaz de acompanhar qualquer dinâmica acadêmica, ainda que virtual, se acometido por doença ou estado de debilidade, sendo incabível e incoerente que a mesma seja penalizada por tal fato.
Em um período em que Jair Bolsonaro encaminha ao Congresso Nacional um projeto de lei favorável à privatização da educação pública, é dever da Universidade se pôr na luta contra qualquer indício de mercantilização da educação, defendendo e preservando o seu acesso democrático e universal, assim como garantir a qualidade de ensino a todos. Deste modo, a nova tentativa de imposição do Future-se não está deslocada da pressão que o MEC vem exercendo nas universidades federais para a adoção do ensino remoto, ambas fazem parte de um mesmo projeto.
O desprezo do presidente da República pelas universidades já foi evidenciado no ano passado com os cortes, contingenciamentos e discursos inflamados contra universitários e professores. Tais ataques sempre apontam no sentido do sucateamento do trabalho docente e da qualidade de ensino, buscando favorecer os interesses de quem lucra com a mercantilização da educação. Por esta razão, a Universidade e o movimento estudantil têm de se colocar em alerta e se posicionar de forma contrária a qualquer avanço do interesse privado na educação pública.
O corpo discente, em sua maioria, entende que os órgãos de deliberação superiores não estão promovendo um devido diálogo com os estudantes no que tange a aplicação de aulas remotas durante a pandemia. Dessa forma, tendo em vista a exclusão, precarização e o teor mercadológico que o sistema de ensino remoto traz à Universidade, mostrando-se antidemocrático, o Conselho de Centros e Diretórios Acadêmicos reitera sua posição contrária à aplicação do Ensino Remoto Emergencial (ERE) e exige que a administração superior cumpra seu dever e combata devidamente a precarização da educação pública.
Rio de Janeiro, 4 de junho de 2020.
Documento: http://bit.ly/ruralcontraere
Diretório Central dos Estudantes da UFRRJ (DCE)
Diretório Acadêmico Paulo Affonso Leme Machado (DAPA) - Direito ICHS
Centro Acadêmico Marilda de Souza (CALEC) – LEC – IE
Centro Acadêmico Resistência Pedagógica (CARPe) - Pedagogia IE
Diretório Acadêmico de História (DAHIS) - ICHS
Centro de Estudos Geológicos da Universidade Rural (CEGEUR) – Geologia IA
Diretório Acadêmico de Farmácia Diogo de Castro (DAF-DC) – ICBS
Diretório Acadêmico de Hotelaria da Universidade Rural (DAHUR) – Hotelaria ICSA
Centro Acadêmico de Letras do Instituto Multidisciplinar (CALIM) – Letras IM
Centro Acadêmico de Direito Paulo Cosme (CAPAC) - Direito IM
Centro Acadêmico de Gestão Ambiental (CenAGA) - Gestão Ambiental ITR
Centro Acadêmico de Pedagogia - Andarilhos da Autonomia (CAPED) – Pedagogia IM
Diretório Acadêmico de Letras Miriam da Silva Pires (DALE) – Letras ICHS
Diretório Acadêmico de Arquitetura e Urbanismo (DAAU) – Arq. Urb. IT
Centro Acadêmico Dorremi de Oliveira (CAPSI) – Psicologia IE
Centro Acadêmico de Ciências Sociais (CACS) – Ciências Sociais ICHS
Diretório Acadêmico Raimundo Ferreira (DARF) – LICA IE
Centro Acadêmico de História (CAHIS) - Gestão Dom Adriano Hypólito – História IM
Centro Acadêmico dos Estudantes de Filosofia (CAEFIL) – Filosofia ICHS
Diretório Acadêmico de Economia (DAECO) – Economia ICSA
Diretório Acadêmico de Engenharia de Alimentos (DEAL) – Eng. Alimentos IT
Diretório Acadêmico de Turismo (DATUR) - Turismo IM
Centro Acadêmico de Matemática (CAMIM) - Matemática IM
Centro de Estudos Agronômicos (CEA) - Agronomia IA
Centro Acadêmico de Serviço Social - (CASS) – Serviço Social ICSA
Centro Acadêmico de Engenharia Florestal (CAEF) - Eng. Florestal IF
Diretório Acadêmico de Relacões Internacionais Souza Dantas (DASDAN) – RI ICHS
Diretório Acadêmico de Ciências Econômicas (DACE) – Ciências Econômicas IM
Diretório Acadêmico de Física (DAFÍS) - Física ICE
Diretório Acadêmico de Zootecnia (DAZ) – Zootecnia IZ
Diretório Acadêmico Professor Doutor Waldir Ladeira (DAPL) – Ciências Contábeis ICSA