26/08/2026
A revista Enunciação, do PPGFil-UFRRJ, acaba de publicar o Dossiê Descontrole (ἀκρασία) e autocontrole (ἐγκράτεια): o humano no horizonte do pensamento antigo (v. 11 n. 1, 2026).
Revista Enunciação
v. 11 n. 1 (2026)
Dossiê Descontrole (ἀκρασία) e autocontrole (ἐγκράτεια): o humano no horizonte do pensamento antigo
https://www.editorappgfilufrrj.org/enunciacao/index.php/revista/pt_BR/issue/view/22
Sempre que a vida é concebida em termos de força (κράτος), sempre que os seres humanos necessitam demonstrar a sua força para serem propriamente, surge no horizonte da reflexão ética (prática) o problema do descontrole e do autocontrole. Foi assim entre os gregos antigos. Em Hesíodo, nas tragédias, em Sócrates, nas obras filosóficas de Platão e de Aristóteles, nas filosofias helenísticas, percebe-se a transição de um mundo no qual os deuses comandavam as ações humanas, infundindo ânimo indomável no peito dos heróis, a um contexto político/vital no qual a medida, a moderação e a escolha passam a constituir o centro de gravidade de uma vida humana demasiado humana, sempre em risco de erro e de ruína. Nesse contexto, surge o imperativo do autocontrole e, também, ao mesmo tempo, a reflexão filosófica sobre o fenômeno, amplamente conhecido, do descontrole. O presente número da Revista Enunciação traz contribuições significavas a essa temática extremamente atual e, por assim dizer, atemporal.
No primeiro artigo intitulado “O autointeresse e os limites da moral”, Mário Máximo argumenta não haver relação excludente entre a busca do interesse próprio, do bem individual, nos termos de uma ética eudaimônica, e o bem comum. O descontrole seria característico de uma conduta “tirânica”, pré-ética e imatura. Inversamente, ao definir seus interesses de acordo com a razão, o agente capaz de autodomínio não confunde meios (recursos) e fins, podendo compatibilizar a eventual escassez de recursos em disputa com o horizonte mais amplo da comunidade política, na qual unicamente os indivíduos podem ser felizes.
No artigo seguinte intitulado “O paradoxo do insensato acrático”, Alice Haddad toma posição crítica em relação ao argumento sofístico, que conhecemos através de Aristóteles, segundo o qual seria possível a um indivíduo decontrolado praticar o bem inadvertidamente. Nesse sentido, o insensato acrático em nada diferiria de um sábio, pois, querendo praticar o mal, por ser descontrolado, praticaria sempre o bem. A autora analisa a estrutura dos paradoxos e o chamado silogismo prático em diferentes obras de Aristóteles a fim de demonstrar a superficialidade do argumento sofístico, evidenciando, ao mesmo tempo, o seu caráter estimulante para a reflexão sobre o fenômeno complexo da acrasía.
Em “A ideia de autogoverno na filosofia de Sêneca como forma de exercício da razão”, Jordano Hernández demonstra que, para o filósofo romano, o autodomínio requer o exercício constante de distanciar-se da tirania das paixões, a qual conduz, inevitavelmente, à desmedida e ao vício. A filosofia como forma de vida orienta as ações e as escolhas dos indivíduos a partir do cuidado de si. Somente assim seria possível alcançar a liberdade e a felicidade, isto é, vivendo de acordo com a razão, o que significa viver de acordo com a natureza.
Em “Duas interpretações da virtude da eutrapelía”, Felipe Gall trata da virtude da espirituosidade, tal como formulada por Aristóteles na Ética a Nicômaco. O texto revela a novidade de elevar à condição de virtude a capacidade de descontrair, de provocar o riso, de “azeitar” o convívio social, tão comumente marcado pela seriedade e mesmo pela sisudez. Segundo o autor, não haveria contradição entre a meritória iniciativa de introduzir o riso no âmbito dos prazeres “clássicos”, relacionados com a virtude da temperança, como a comida, a bebida e o s**o, e a interpretação que pensa o prazer com o riso como um prazer da alma, já que é possível considerar tanto o prazer de quem faz rir, como também o prazer de quem ri; e a virtude da espirituosidade diria respeito a ambos os casos.
Em “O luto como limite da akrasía na ética aristotélica”, Everton de Jesus explora certa semelhança que poderia ser observada entre o comportamento do descontrolado, de não realizar aquilo que a razão, como reta razão, prescreve, e a situação de alguém que se encontra sem condições de agir segundo o que ele próprio considera ser o melhor, tendo em vista uma vida eudaimônica. Para o autor, a despeito da semelhança, o enlutado não pode ser entendido, de forma alguma, segundo o modelo do descontrole, já que sua condição diz respeito a um elemento estrutural da própria eudaimonía: a presença do amigo. Ao contrário do descontrolado, não há falha de caráter no enlutado, mas antes a força irrecusável da privação (stéresis).
Em “Entre a fuga e a morte: Sócrates, intérprete de sonhos”, Bianca Vilhena se debruça sobre o diálogo Críton, de Platão, a fim de investigar uma situação única no corpus platônico: a condução explícita de uma tomada de decisão por meio de uma deliberação sobre a melhor ação a ser praticada num contexto particular. É o caso de Sócrates, que precisava decidir permanecer preso e morrer daí a pouco tempo ou aceitar a proposta de Críton e evadir-se da prisão. A autora evidencia a importância do sonho de Sócrates e de sua interpretação para a efetiva tomada de decisão, algo que, em geral, tende a ser desconsiderado, quando se avalia a figura de Sócrates como a de alguém sempre decidido de antemão.
Em “Entre o desejo e a virtude: Eros, prazer e enkráteia nas Memoráveis de Xenofonte”, Estevão Sousa trata do autocontrole como condição para a virtude em Xenofonte, examinando alguns diálogos socráticos ricos e representativos da temática na referida obra. Sobre o autocontrole em si mesmo, o autor evidencia que cabe entendê-lo como uma espécie de filtro capaz de promover o aprimoramento dos desejos e dos prazeres humanos. À luz da contribuição mais recente de comentadores da obra de Xenofonte, a ética socrática não propõe a supressão dos desejos, mas a sua integração racional a uma vida virtuosa. O autodomínio transforma, assim, as experiências volitivas em instrumentos de prazer, utilidade e formação moral.
Por fim, em “A excelência da sabedoria: uma reflexão sobre pensamento e vida em Heráclito de Éfeso”, Felipe Mandato elege alguns fragmentos de Heráclito de Éfeso, nomeadamente os fragmentos B4, B29, B110 e B111, para tratar da conexão entre condição humana e vida sábia. O objetivo do artigo é refletir sobre a função dos prazeres na existência humana a partir da maneira como o filósofo pré-socrático a interpreta. O autor explora certa afinidade e continuidade entre Heráclito e a ética de Aristóteles, a fim de postular que escutar ou ouvir o Lógos não significa apreender certo conteúdo, mas agir em conformidade com essa escuta. Nesse sentido, o sábio, que compreendeu a ordem cósmica, torna-se capaz de bem-pensar, falar e agir segundo a verdade.
Agradecemos às autoras e aos autores pelo envio de seus textos, e também ao minucioso trabalho de edição da profa. Michelle Bobsin.
Boa leitura!
Francisco Moraes
Felipe Gall
DOI: https://doi.org/10.61378/1jyrxz67
Publicado: 2026-08-24