13/11/2016
Nota de apoio às ocupantes do CCS:
Semana passada soubemos que o principal prédio do Campus Maruípe foi ocupado por dois dias. O que para muitos é um fato extraordinário que causou ódio, agressões físicas e psicológicas às ocupantes, para nós é um acontecimento que expõe o atual estado das coisas na universidade brasileira, em especial a Ufes. Nossas companheiras que ocupavam foram vítimas da principal expressão que mata as mulheres no Espirito Santo : a misoginia.
O processo de desocupação movido pela pressão de um grupo de estudantes majoritariamente de Medicina, com apoio das chapas F5 e Opção não desqualifica, não diminui, tampouco enfraquece as ocupações, apenas explicita a tentativa de esmagar, aos poucos, a luta política das estudantes pela existência da saúde e educação pública e da recusa em consentir com autoritarismos e arbitrariedades da política nacional. Mas não só: escancara o amor à cultura do castigo que sempre se inicia por gestos minúsculos de uma força estúpida. Não desconhecemos nem ignoramos que ninguém pesquisa, trabalha, produz ou se relaciona apartado do modo como toca na vida. Portando, não desconsideramos que os mesmo agressores estarão exercendo atividades profissionais que devem priorizar a vida.
Não cessamos de aprender e descobrir com as ocupações há mais de duas semanas. A leveza contundente e a delicadeza firme de viver coletivamente é raro e generoso para que exercemos práticas de cuidado com quem convivemos na universidade. Acompanhamos a ocupação de Maruípe por algumas horas e conversamos com as ocupantes, um salve pra galera que resiste e apresenta caminhos diferentes a PEC 55, com o vigor imprescindível que não se imiscui nem se confunde com trajetórias e itinerários dos que primam pelos registros regulamentares e se opõem ao Movimento Estudantil autônomo. Como é possível que estudantes sejam agredidas fisicamente por outros alunos com a justificativa de não concordar com a ocupação?
Desnecessário expor aqui o quanto as ocupações tem sido decisivas para o país, já formamos uma rede com mais de 221 universidades ocupadas e mais de 50 escolas ocupadas no nosso estado. Ocupamos e falamos francamente sob o risco que o setor público brasileiro está correndo. Longe de ser um elemento de conservação ou preservação, ocupamos para dá vida às relações dos diferentes numa democracia que não se quer refém do princípio republicano da lei.
Assim, aplicar práticas de violações de direitos fundamentais como a tentativa de impedir entrada de alimento no prédio, exposição de vídeos com s**o explicito como forma de agressão psicológica e ameaças é revoltante para nós. Pouco importa os termos da acusação e os procedimentos instaurados para atribuição de culpa ou inocência. É um acontecimento que revela a estupidez na qual a universidade se afunda e da necessidade de uma formação mais humanizada. Outros processos (dentro e fora de Maruípe) poderiam ser lembrados, mas no momento nos interessa este. Ele nos diz quanto a produção de luta se tornou intolerável na universidade supostamente tolerante.
Ressaltamos que não queremos rotular ou categorizar todos os estudantes do curso de Medicina da Ufes, sabemos da diversidade que um curso comporta. Nos dirigimos ao grupo que se fez presente na entrada do prédio e aqueles que divulgaram notas e vídeos em favor a desocupação.
Falácia 1: ~danificaram o patrimônio~ Nenhum patrimônio público foi danificado durante a ocupação, isso foi garantido e dito pela própria Polícia Militar que apareceu para conter os estudantes que tentavam desocupar o prédio.
Falácia 2: ~os ratos vão morrer de fome~ Os técnicos responsáveis por laboratórios tinham acesso ao prédio, nenhum animal que está sendo tratado como objeto de pesquisa sofreu outro tipo de violação além de ser objeto de pesquisa.
Aos que cometeram agressões tenham a grandeza ou o gesto simples de reconhecer que jamais deveriam ter iniciado qualquer gesto punitivo ou discriminatório. Esperemos que esses atos sejam episódicos, embora ele jamais pudesse ter acontecido. É preocupante imaginar que muitos dos agressores se intitulam como "salvadores de vidas".
Fechamos com as ocupações e não há movimento desocupa que nos pare.