22/11/2025
Essa compreensão sobre o ecoar como gesto de abertura para perceber a si mesmo e o outro, trouxe-me Alejandro Zambra (poeta chileno) ao falar da não-literatura clariceana.
Suas palavras foram o horizonte sonoro que compôs um exercício de narrativa (geografia) desviante, efetuado em agosto de 2020 a partir do convite do amigo chileno Martin Velasco, para seu projeto “Cartas Audiovisuales”.
O processo de “escrita” dessa carta diz exatamente de um sentir-paisagem que é fruto do ouvir o outro e falar com o outro. Esta é a grafia que me arrebata: a de uma paisagem entendida muito mais pelo gesto que vem “de dentro” (como apontado por Zambra), mas sem que isso seja entendido como algo da ordem da “história privada” (como apontado por Deleuze; Parnet, 1998). Essa carta (e não todas as cartas), em devir-paisagem, diz exatamente desse “eu” que é sempre outro, transfigurando dizeres e ampliando possíveis significações daquilo que comumente valoramos como “os minúsculos da vida” (Machado; Almeida, in: Callai; Ribetto, 2016, p. 83). A isso chamo uma efetiva “política da amizade”, expressão cunhada a partir do belíssimo texto de Walter Kohan, intitulado “Sobre a escrita acadêmica, política e amizade” (in: Callai; Ribetto, 2016). Essa foi uma indicação de leitura que recebi de uma querida amiga, a professora Ana Giordani, da Universidade Federal Fluminense. Compartilhamos, em nossas longas e estimulantes conversas, diversas questões que envolvem o fazer acadêmico e a Geografia.
“A conversação íntima é aquela na qual alguém participa não para se informar de algo que outro sabe ou para fazer algo a outro, e sim para ouvir como soa o que o outro diz, para escutar mais a música do que a letra, para saborear sua língua”. (Pardo, apud Larrosa, 2015, p. 101)
Interessam-nos, sobretudo, modos de fazer outros, mais engajados com a vida que vivemos, e tudo aquilo que dela se desdobra. Talvez por esse motivo a afirmação de Doreen Massey, de que a teoria surge da vida, reverbere em mim de forma tão contundente.
*Trechos do capítulo “Aumentar o espaço, desarrumar os sentidos: geo-grafias e ecos-poéticos de um sentir-paisagem”, do livro “Além do que a vista alcança".