27/03/2023
Património Literário:
Antonio Tabucchi - "Sonhos de Sonhos", Lx, Quetzal, 1998
"Sonho de Francisco Goya e Lucientes, pintor e visionário"
"Na noite de 1 de Maio de 1820, enquanto a sua loucura intermitente o visitava, Francisco Goya e Lucientes, pintor e visionário, teve um sonho.
Sonhou que estava debaixo de uma árvore com a sua amante da juventude. Era o campo austero de Aragão, e o sol ia alto. A sua amante estava num baloiço e ele empurrava-a. A sua amante tinha uma sombrinha de renda e ria com risadas breves e nervosas. Depois a sua amante caiu e ele seguiu-a aos trambolhões. Rebolaram nas encostas da colina, até que chegaram a um muro amarelo. Debruçaram-se no muro e viram soldados, iluminados por uma lanterna, que estavam a fuzilar uns homens. A lanterna era incongruente, naquela paisagem ensolarada, mas iluminava lividamente a cena. Os soldados dispararam e os homens caíram, fazendo poças com o seu sangue. Então Francisco Goya e Lucientes tirou o pincel de pintor que trazia à cinta e avançou brandindo-o ameaçadoramente. Os soldados, como por encanto, desapareceram, espantados com aquela aparição. E no lugar deles surgiu um gigante horrendo que estava a devorar uma perna humana. Tinha os cabelos sujos e a face lívida, dois fios de sangue escorriam-lhe dos cantos da boca, os seus olhos estavam embaciados, mas ria.
Quem és?. Perguntou Francisco Goya e Lucientes.
O gigante limpou a boca e disse: sou o mostro que domina a humanidade, a História é minha mãe.
Francisco Goya e Lucientes deu um passo e brandiu o seu pincel. O gigante desapareceu e no seu lugar apareceu uma velha. Era uma megera desdentada, com a pele de pergaminho e os olhos amarelos.
Quem és?, perguntou-lhe Francisco Goya e Lucientes. Sou a desilusão, disse a velha, e domino o mundo, porque todos os sonhos humanos são sonhos breves.
Francisco Goya e Lucientes deu um passo e brandiu o seu pincel. A velha desapareceu e no seu lugar surgiu um cão. Era um cão pequeno enterrado na areia, só com a cabeça de fora.
Quem és?, perguntou-lhe Francisco Goya e Lucientes.
O cão levantou o pescoço e disse: sou a fera do desespero e troço das tuas p***s.
Francisco Goya e Lucientes deu um passo e brandiu o pincel. O cão desapareceu e no seu lugar apareceu um homem. Era um velho gordo, com o rosto flácido e infeliz.
Quem és?. Perguntou Francisco Goya e Lucientes.
O homem fez um sorriso cansado e disse: sou Francisco Goya e Lucientes, contra mim nada podes.
E naquele momento Francisco Goya e Lucientes acordou e encontrou-se sozinho na sua cama."