28/09/2026
Cada um de nós transporta cerca de duzentos gramas de bactérias, concentradas sobretudo no intestino grosso. Para um adulto, estima-se que sejam 38 biliões. Em duzentos gramas cabe uma multidão de seres indispensáveis ao funcionamento do nosso corpo.
Estas comunidades ajudam-nos a digerir os alimentos, dificultam a instalação de microrganismos capazes de causar doenças e intervêm na regulação das nossas defesas. A nossa espécie cresceu e evoluiu com estes seres. Não existiríamos sem eles.
Habituámo-nos a ouvir falar de bactérias quando uma análise revela uma infeção ou quando um médico prescreve um antibiótico. A atenção que damos às causadoras de doenças torna quase invisíveis as comunidades que nos ajudam a viver melhor.
No solo vivem outras comunidades bacterianas, igualmente numerosas e muito menos conhecidas. Algumas produzem substâncias que usamos para tratar doenças. Uma mão-cheia de terra pode guardar o princípio de um medicamento. A procura tem qualquer coisa de aventura em busca do cálice sagrado, com a particularidade de poder começar no fundo da nossa horta ou jardim.
Em 1974, Satoshi Ōmura recolheu terra junto a um campo de golfe, na costa japonesa. Trabalhava no Instituto Kitasato e procurava microrganismos capazes de produzir substâncias com interesse para a medicina.
A sua equipa cultivou uma bactéria daquela amostra, então chamada Streptomyces avermitilis, e enviou-a para a Merck, nos Estados Unidos. Ali descobriram que produzia avermectinas.
A partir delas desenvolveram a ivermectina, usada primeiro em animais e depois no tratamento da oncocercose, conhecida como cegueira dos rios, e da filaríase linfática. O trabalho de Ōmura e William Campbell recebeu o Nobel da Medicina em 2015.
Durante muitos anos, a estirpe encontrada por Ōmura foi considerada a única fonte natural conhecida de avermectinas. Entretanto, no Paquistão e no Egito foram encontradas outras estirpes produtoras de compostos dessa família.
Em 1943, no laboratório de Selman Waksman, Albert Schatz isolara duas estirpes de Streptomyces griseus capazes de produzir estreptomicina. Uma viera da terra. A estreptomicina tornou-se o primeiro antibiótico eficaz contra a tuberculose. O Nobel da Medicina de 1952 foi atribuído a Waksman.
Uma década depois, o químico Edmund Kornfeld pediu ao amigo William Conley, missionário em Bornéu, que lhe enviasse amostras de solo. Conley confiou parte da recolha a William Bouw, que vivia no interior da ilha. Da terra enviada por Bouw surgiu Amycolatopsis orientalis, produtora da substância que daria origem à vancomicina.
O primeiro preparado era tão escuro e impuro que lhe chamaram «lama do Mississípi». Purificado, tornou-se um antibiótico utilizado contra infeções graves, incluindo algumas que atingem o sangue, as válvulas do coração e os ossos.
Em 1960, a farmacêutica Farmitalia e o Instituto Nacional de Tumores de Milão iniciaram uma procura conjunta de substâncias naturais capazes de combater o cancro.
Uma amostra de solo recolhida perto de Castel del Monte, no sul de Itália, revelou Streptomyces peucetius. A equipa de Aurelio Di Marco encontrou nela uma substância vermelha que travava o crescimento de tumores em ratinhos.
Chamou-lhe daunomicina, numa referência à antiga Daunia. Viria a ser conhecida como daunorrubicina. A investigação prosseguiu e uma estirpe obtida em laboratório produziu a doxorrubicina, apresentada em 1969 por Federico Arcamone e outros investigadores. Continua a ser usada no tratamento de vários tipos de cancro.
Também de uma amostra de Rapa Nui, recolhida numa expedição de 1964 pelo bacteriologista Georges Nógrády, veio uma substância cujo nome guardou o da ilha. Produzida por Streptomyces hygroscopicus, a rapamicina começou por ser estudada pela sua ação contra fungos.
Hoje ajuda a prevenir a rejeição de órgãos transplantados, e o seu estudo abriu caminho à compreensão de mecanismos que regulam o crescimento das células.
A procura também se faz perto de nós. Em Cristelo, no concelho de Paredes, alunos do 9º e do 12º ano estudaram amostras de terra no projeto MicroMundo, orientados por estudantes do Instituto Universitário de Ciências da Saúde da CESPU. Numa amostra de solo agrícola húmido encontraram duas bactérias que travaram o crescimento de outras em laboratório.
Mais tarde, os investigadores verificaram que esse efeito também ocorria perante algumas bactérias resistentes a vários antibióticos. É uma pista que ainda exige mais estudo, nascida de terra recolhida por alunos de uma escola.
Na Austrália, a Universidade de Queensland convidou as pessoas a enviar amostras de terra dos seus quintais. Até dezembro de 2022, recebera dez mil amostras. Entre os microrganismos estudados, a equipa encontrou dezassete moléculas com estruturas químicas até então desconhecidas. Ainda terão de percorrer um longo caminho antes de se saber se alguma chegará a medicamento.
À velocidade a que destruímos os solos, quantos microrganismos desaparecerão antes de termos oportunidade de os estudar?
Ōmura baixou-se junto a um campo de golfe e recolheu um pouco de terra. Daquele gesto nasceram tratamentos que mudaram a vida de milhões de pessoas. Todos os dias pisamos solos onde vivem bactérias que ainda não conhecemos.
Gostaria que a busca da próxima amostra extraordinária acompanhasse os futuros agrónomos, na cidade e no mundo rural. O cálice sagrado desta história pode estar sob os nossos pés.
Para o procurar, precisamos de solos vivos e de quem se fascine com uma mão-cheia de terra, tenha a curiosidade de a estudar, o conhecimento para a compreender e o empenho para continuar a procurar, na farmácia que pisamos.