Luís Alves Agrónomo

Luís Alves Agrónomo Agrónomo/Etnobotânico Luís Alves tem 53 anos, é do Porto. Engenheiro Agrónomo com formação regulamentada em modo de produção biológico. Consultor de empresas.
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Avaliador externo - European Institute of Innovation and Technology (EIT Food). Especializado em plantas aromáticas, medicinais, condimentares e etnobotânica. Especializado em agroecologia e restauro ecológico. Membro efetivo sénior da Ordem dos Engenheiros, Colégio de Agronomia. Licenciado em Engenharia Agronómica pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Encarregado geral do Parque de Se

rralves entre 1997 e 2003. Em 2002 fundou o Cantinho das Aromáticas, projeto único do género na Europa Ocidental de agricultura biológica urbana. Durante 21 anos foi agricultor e viveirista, produziu em modo de produção biológico, plantas aromáticas, medicinais, condimentares. Da semente ao produto final, criou infusões, tisanas e condimentos de grande qualidade, para o mercado nacional e para exportação. Orientador e coautor de diversos trabalhos científicos. Lecionou em centenas de palestras, conferências, workshops, em empresas, escolas e universidades de todo o país. Coautor do livro "Erva uma Vez". Distinguido como Técnico Hortícola de Honra, pela Associação Portuguesa de Horticultura. Fez televisão de forma regular durante vários anos, mantendo rubricas regulares na RTP1 e RTP2. ORCID: 0009-0006-4187-5358 | CIENCIA ID: 411A-FF03-39D6 ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Agronomic Engineer with regulated training in organic farming. Agronomic consultant. Expert evaluator - European Institute of Innovation and Technology (EIT Food). Specialized in aromatic, medicinal plants and ethnobotany. Specialized in agroecology and ecological restoration. Senior full member of the Order of Engineers, College of Agronomy. Graduated in Agricultural Engineering from University of Trás-os-Montes and Alto Douro. Co-author of several scientific publications. General Manager of Serralves Park between 1997 and 2003. In 2002 founded Cantinho das Aromáticas, the only project of its kind in Western Europe of urban organic agriculture. For 21 years was a farmer and nurseryman, producing organic aromatic and medicinal plants. From seed to final product created high quality organic herbal teas and seasonings for the national market and for export market. Keynote speaker at hundreds of lectures, conferences, workshops, in companies, schools and universities across the country. Coauthor of the book "Erva uma Vez". Distinguished as Horticultural Technician of Honor by the Portuguese Horticultural Association. Worked in television regularly for several years, maintaining regular appearances on RTP1 and RTP2.

Ontem conduzi a visita botânica “Entre Água e Vegetação”, no Reservatório da Pasteleira, com o privilégio da companhia d...
31/08/2026

Ontem conduzi a visita botânica “Entre Água e Vegetação”, no Reservatório da Pasteleira, com o privilégio da companhia de Luísa Jorge, ilustradora científ**a, e de Carla Stockler, arqueóloga da Câmara Municipal do Porto.

O percurso terminou diante de fragmentos de coco encontrados nas escavações do Metro do Porto na Arca de Água de Mijavelhas, no Campo 24 de Agosto.

Pertenciam a um contexto do século XVII e estavam associados a uma carga perdida a montante, arrastada pelo Ribeiro de Mijavelhas e retida numa das bacias da arca. Durante a visita tivemos oportunidade de observar vários fragmentos desse conjunto.

A peça que serviu para encerrarmos o percurso foi uma metade de coco. A forma dura do endocarpo podia prestar-se a usos como pequeno recipiente ou utensílio. Num lugar ligado à água, essa possibilidade ganhava uma força particular.

O coco é o fruto do coqueiro (Cocos nucifera). A parte exterior dura e castanha corresponde ao endocarpo lenhoso. Os três olhos que se situam no endocarpo correspondem a poros, dos quais geralmente só um é funcional para a germinação.

A origem da espécie leva-nos ao Sudeste Asiático e às ilhas polinésicas. Quando os portugueses chegaram ao Oriente, a planta já circulava pelo Índico e pelo Pacífico. José E. Mendes Ferrão, em A aventura das plantas e os Descobrimentos Portugueses, situa o primeiro contacto real dos portugueses com o coqueiro na primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, iniciada em 1497 e com passagem por Moçambique em 1498, antes da chegada à costa do Malabar.

No século XVI, foram os portugueses que transportaram o coqueiro para o Atlântico, primeiro para Cabo Verde e depois, pelas suas rotas marítimas, para a costa ocidental africana, o Brasil e as Caraíbas.

Cabo Verde foi uma peça central nessa passagem. Por volta de 1545, um piloto português de uma das viagens atlânticas registou, na Ribeira Grande da ilha de Santiago, a presença de palmeiras que produziam cocos, então chamados “noz da Índia”. O registo mostra que o coqueiro já estava instalado em Cabo Verde em meados do século XVI.

Também a palavra coco tem origem portuguesa. João de Barros explicou-a na Década Terceira de Da Ásia, Livro III, Capítulo VII, dedicado às Maldivas.

Ao descrever o fruto, reparou que a casca dura mostrava uma saliência semelhante a nariz entre dois olhos redondos, por onde a planta lançava os rebentos ao germinar. Essa semelhança com uma cara bastou para que os portugueses lhe chamassem coco, palavra então usada para designar uma figura ou coisa com que se metia medo às crianças.

Barros registou também os nomes locais do fruto. Tenga, entre os malabares, Narle, entre os canarins. Descreveu ainda o coqueiro como uma planta de muitos usos. Da fibra exterior faziam-se cordas resistentes à água salgada. Da palmeira vinham alimento, bebida, cobertura, matéria para escrever e recurso para a navegação.

O imaginário popular aproxima ainda o coco das cocas da tradição peninsular. Coco e coca pertencem ao antigo universo das caras, das máscaras e das presenças usadas para assustar crianças. Em Portugal, a Coca de Monção conserva uma dessas sobrevivências, já transformada em figura ritual e festiva, no combate com São Jorge durante as festas do Corpo de Deus.

A palavra ficou na língua e ganhou outros caminhos. Ainda hoje dizemos “partir o coco a rir”, que é como quem diz rir muito, rir às gargalhadas. A explicação popular liga a expressão à alegria de ver partido o coco que representava a figura usada para assustar crianças.

Também dizemos “f**ar à coca”, que signif**a f**ar à espreita, atento ao momento certo de apanhar alguma coisa ou surpreender alguém. A expressão conserva o mesmo fundo de vigilância e ameaça doméstica onde se movem o coco e a coca.

Ontem não partimos o coco a rir, mas divertimo-nos muito. Estou seguro de que o grupo presente gostou da visita e levou consigo uma história inesperada.

Raramente uma peça tão pequena chama tantos lugares à conversa. Uma metade de coco encontrada em Mijavelhas levou-nos da água da cidade à arqueologia do Metro, do Índico ao Atlântico, de Cabo Verde ao Brasil, da língua portuguesa à vida material das plantas que viajam com as pessoas.

As visitas botânicas aos diferentes espaços museológicos da cidade têm sido um sucesso. Temos mais duas já agendadas, que serão anunciadas em breve. Siga a página do Museu do Porto e subscreva a newsletter para saber em primeira mão. As inscrições esgotam depressa.

Eu também vi a saga Terminator. Vi a Skynet adquirir consciência, tomar conta dos sistemas militares e concluir que a es...
28/08/2026

Eu também vi a saga Terminator. Vi a Skynet adquirir consciência, tomar conta dos sistemas militares e concluir que a espécie humana era um obstáculo a eliminar. Durante muitos anos, aquela possibilidade pertenceu ao cinema, acompanhada por máquinas de olhos vermelhos, cidades destruídas e um Arnold Schwarzenegger pouco dado a grandes conversas.

Hoje, a máquina entra em casa através do computador e do telemóvel. Escreve, desenha, programa, ajuda a diagnosticar, aconselha, vigia e aprende. Tal como muitas pessoas, receio o poder da inteligência artificial. Entregue a quem pretenda causar danos, poderá ampliar a fraude, a manipulação, os ataques informáticos, a conceção de armas e inúmeras formas de violência.

Os danos também podem nascer sem intenção maligna. Um erro, um preconceito herdado dos dados ou um objetivo mal definido pode condicionar milhões de decisões. Num cenário extremo, a inteligência artificial poderá ameaçar a própria sobrevivência da nossa espécie.

O que mais me impressiona são os avisos lançados pelos homens que a criam, dirigem e financiam. Nos últimos meses, alguns dos nomes mais sonantes da tecnologia têm-se sucedido em entrevistas nos principais órgãos de comunicação social internacionais. Em conversas por vezes demoradas, exprimem sem rodeios os seus maiores receios.

Dizem-nos que a inteligência artificial poderá fazer desaparecer muitos empregos, facilitar o bioterrorismo, escapar ao controlo humano e tornar-se a ferramenta mais perigosa alguma vez inventada. Terminadas as entrevistas, as empresas que muitos destes homens dirigem ou financiam continuam a desenvolvê-la, promovê-la e vendê-la a um ritmo nunca visto. É estranho.

Se um fabricante acreditasse que o seu novo eletrodoméstico poderia exterminar a humanidade, esperaríamos que suspendesse a produção. No mundo da inteligência artificial, o anúncio do perigo parece acompanhar o lançamento da versão seguinte.

É possível que alguns destes receios sejam sinceros. A corrida tecnológica ajuda a compreender a aceleração. Cada empresa teme que abrandar entregue a vantagem a um concorrente menos prudente. Dizem recear o que os espera na meta e mantêm o pé no acelerador.

Talvez o medo também faça parte do produto. Uma tecnologia capaz de nos assustar parece imediatamente mais poderosa. Quem anuncia o perigo apresenta-se como uma das poucas pessoas capazes de o compreender e conter. O criador transforma-se em guardião e pede-nos confiança para continuar a construir aquilo de que acaba de nos ensinar a ter medo.

Sou agrónomo e aprendi que a desconfiança perante a novidade tem uma longa história botânica. Algumas plantas que hoje entram diariamente nas nossas cozinhas passaram décadas ou séculos à espera que aprendêssemos a conhecê-las.

Quando a batateira (Solanum tuberosum) chegou dos Andes à Europa, no século XVI, os tubérculos que escondia debaixo da terra estavam longe de ser reconhecidos como alimento. A planta pertence à mesma família botânica que a beladona e outras espécies tóxicas, e o consumo da batata chegou a ser associado à lepra em algumas regiões europeias.

A aceitação foi desigual. A Irlanda acolheu-a cedo. Desde os primeiros indícios do seu cultivo nas Canárias, em meados da década de 1560, até à sua consolidação como alimento básico no norte da Europa, por volta de 1815, decorreram cerca de dois séculos e meio.

Durante esse longo percurso, foi mantida em jardins botânicos, admirada como curiosidade ornamental ou destinada à alimentação animal e demorou a integrar os hábitos alimentares.

A desconfiança encontrava alguns fragmentos de realidade. As folhas, os rebentos e os tubérculos esverdeados ou grelados podem acumular concentrações elevadas de glicoalcaloides, capazes de provocar náuseas, vómitos, diarreia e, nos casos mais graves, perturbações neurológicas e cardíacas.

Foi necessário aprender que partes consumir, como cultivar, quando colher e em que condições conservar os tubérculos. O conhecimento converteu um medo difuso em regras concretas de cultivo, conservação e consumo.

No século XVIII, Antoine-Augustin Parmentier, farmacêutico militar, agrónomo e higienista francês, foi feito prisioneiro na Prússia durante a Guerra dos Sete Anos. No cativeiro, a batata tornou-se presença regular na sua alimentação.

Regressou a França convencido do seu valor nutritivo e tornou-se um dos mais persistentes investigadores e divulgadores da planta. Publicou estudos, promoveu experiências de cultivo, organizou refeições e apresentou-a à corte de Luís XVI.

Conta a lenda que Parmentier terá mandado soldados guardar um campo de batatas durante o dia. Acreditava que uma cultura tão protegida despertaria a curiosidade e que o desejo de possuir aquilo que parecia raro faria o resto. Quando se aproximou o momento da colheita, mandou retirar os soldados ao cair da noite.

A ausência da guarda completava o plano. A população terá então entrado no campo, levado os tubérculos e começado a plantá-los. A curiosidade e a cobiça venceram a resistência que os argumentos de Parmentier não tinham conseguido quebrar.

Passando de mão em mão, a batata começou a perder a reputação que a mantivera afastada das cozinhas. A sua longa viagem ganhou novo impulso e acabaria por levá-la a quase todo o mundo.

Imaginemos agora uma pequena alteração à lenda. Antes de mandar retirar os soldados, Parmentier anunciava publicamente que a batata poderia acabar com a humanidade.

Depois, deixava o campo sem guarda e confiava na curiosidade dos habitantes das redondezas para levar os tubérculos além dos seus limites. O homem que anunciava o perigo criava as condições necessárias para a batata se espalhar.

Na lenda, a retirada dos soldados permitia que a batata atravessasse a cerca e se multiplicasse noutras terras. Hoje, o campo abre-se sempre que uma nova versão da inteligência artificial é colocada ao alcance de milhões de pessoas depois de os seus criadores terem descrito os perigos que encerra.

Parmentier queria tornar comum um alimento que considerava seguro. Os atuais promotores alargam o acesso a uma tecnologia cujos riscos apresentam como reais.

A própria família botânica da batateira, a das solanáceas, permite levar o paralelo mais longe. Algumas das suas primas parecem ter dedicado a sua existência a servir a humanidade. O tomate, a beringela, o pimento e as malaguetas fazem parte da alimentação diária de milhões de pessoas.

Outras, como o tabaco, a beladona, o estramónio e as anáguas-de-vénus, entraram na história humana ligadas à dependência, ao delírio, à doença e à morte. A beladona basta para mostrar como esta divisão é incompleta. Os seus frutos podem matar. Foi a partir da mesma planta que se isolou a atropina, um medicamento capaz de salvar vidas.

Uma planta desconhece o bem e o mal. Produz substâncias que lhe permitem viver, competir e defender-se. O ser humano decide se as transforma em alimento, medicamento, ritual, veneno, dependência ou negócio. O tabaco nunca decidiu adoecer ninguém. A beladona jamais planeou um envenenamento. Todas estas plantas pertencem à Criação e continuam a ser maravilhas que nos antecedem e ultrapassam.

É aqui que o paralelo com a inteligência artificial se torna mais profundo. Em boas mãos, poderá tornar-se uma das ferramentas mais extraordinárias que já colocámos ao serviço da vida.

Pode ajudar-nos a interpretar sistemas ecológicos de uma complexidade imensa, prever secas e o risco de incêndio, reduzir desperdícios, gerir melhor a água e a energia, recuperar solos, proteger a biodiversidade e encontrar caminhos para reparar parte dos danos que causámos ao planeta ao longo dos últimos séculos.

Entregue a outros propósitos, poderá ampliar a vigilância, a fraude, a dominação e a morte. Por enquanto, tanto quanto nos é dado a saber, a direção depende das escolhas humanas.

A hipótese de uma inteligência artificial consciente deixou de pertencer exclusivamente à ficção científ**a. Alguns investigadores consideram possível que sistemas futuros venham a desenvolver alguma forma de consciência. Uma máquina já pode causar danos sem possuir consciência. A mudança mais profunda ocorreria se adquirisse autonomia suficiente para formular e perseguir objetivos próprios.

Com a inteligência artificial, a responsabilidade começa antes da primeira utilização. As plantas chegaram até nós como parte da Criação. A inteligência artificial saiu das nossas mãos, construída com o código que escrevemos, os dados que escolhemos e o dinheiro que decidimos investir. Os seres humanos não são Deus.

A história da batata ensina-nos que o medo pode atrasar a adoção de um alimento valioso. Mostra igualmente que nenhuma novidade se torna segura através do entusiasmo de quem a promove.

Foram necessários conhecimento botânico, experiência agronómica, aprendizagem culinária e práticas partilhadas para que aquele tubérculo suspeito se tornasse um dos grandes alimentos da humanidade.

A inteligência artificial exige uma prudência ainda maior. Precisamos de investigação independente, regulação democrática, limites claros e responsabilidade pelos danos. Cabe à sociedade determinar quanto risco está disposta a aceitar. A capacidade de construir uma tecnologia não concede aos seus criadores o direito de decidir por todos nós.

Continuo a recear o que uma inteligência artificial mal utilizada poderá fazer. A saga Terminator forneceu imagens suficientes para várias vidas. Hoje, os avisos mais inquietantes chegam pela voz de quem cultiva o campo, escolhe os guardas e decide quando devem afastar-se.

Vivemos num tempo em que os guardas anunciam o perigo, abrem o campo e nos pedem confiança para continuarem a cultivá-lo. Desta vez, quando os soldados se retirarem ao cair da noite, ninguém poderá dizer que ignorava o que estava a deixar espalhar-se pelo mundo.

A maioria das pessoas nunca viu crescer o hibisco (Hibiscus sabdariffa) que bebe em infusão e desconhece que o arquipéla...
27/08/2026

A maioria das pessoas nunca viu crescer o hibisco (Hibiscus sabdariffa) que bebe em infusão e desconhece que o arquipélago dos Açores chegou a ter uma décima ilha, o que não impede essas mesmas pessoas de identif**arem com segurança uma grande flor vermelha como o hibisco que bebem ou de enumerarem as nove ilhas atuais.

Neste assunto, confiamos em duas autoridades muito respeitadas, a embalagem do supermercado e o mapa atual. A embalagem pediu emprestada a cara de outra planta e o mapa foi impresso depois de o Atlântico apagar a prova.

Durante alguns meses de 1811, a geografia açoriana contou com dez ilhas. Em junho desse ano, uma erupção submarina fez emergir uma nova porção de terra ao largo da Ponta da Ferraria, em São Miguel.

O comandante britânico James Tillard avistou a enorme coluna de fumo a bordo do HMS Sabrina e aproximou-se, julgando que decorria um combate naval. Em vez de navios inimigos, encontrou o Atlântico a fabricar território português diante dos seus olhos.

Dois séculos depois, o desconhecimento muda de território e instala-se nas prateleiras dos supermercados. A infusão de hibisco tornou-se popular em todo o mundo, apesar de a maioria das pessoas nunca ter visto crescer a planta de que é feita.

Conhece-se a cor rubi da bebida, aprecia-se o sabor fresco, frutado e agradavelmente ácido e compra-se o produto com a familiaridade de quem julga reconhecer a planta sempre que encontra uma grande flor vermelha num jardim. É precisamente aí que começa o equívoco.

As flores que habitualmente associamos ao nome hibisco pertencem sobretudo a espécies ornamentais, entre as quais o hibisco-da-China (Hibiscus × rosa-sinensis) e o hibisco-da-Síria (Hibiscus syriacus), cultivadas em parques e jardins pela exuberância das suas corolas.

A primeira acompanha os climas mais amenos e as varandas abrigadas, enquanto a segunda suporta os invernos dos países temperados e aparece com frequência nos jardins portugueses.

Se faz parte da maioria que julga serem estas as flores usadas nas infusões, não se apoquente, porque o erro tem excelente representação comercial e chega aos produtos de duas das maiores marcas mundiais de infusões, cujos nomes começam por L e por T.

Basta entrar num supermercado para encontrar grandes flores vermelhas de hibiscos ornamentais nas embalagens destas e de muitas outras marcas, embora a matéria-prima comercial pertença a uma espécie bastante diferente.

Os departamentos de marketing terão escolhido a parente que f**a melhor na fotografia, confiando que ninguém iria abrir a saqueta e reparar que a modelo escolhida para a embalagem nunca entrou na receita.

O hibisco comercializado internacionalmente para infusões é uma malvácea anual de origem africana, cultivada há muitos séculos como alimento, bebida, fonte de fibras e planta medicinal.

As suas flores apresentam habitualmente uma corola clara, entre o creme e o amarelo-pálido, marcada por um centro vermelho-escuro, bastante diferente das enormes corolas escarlates que decoram as embalagens. Depois da floração, a corola murcha e cai, deixando o cálice carnudo crescer, engrossar e adquirir o vermelho intenso que associamos à infusão.

São esses cálices, colhidos e secos, que entram nas saquetas e dão à bebida a cor, grande parte da acidez e o sabor característico. Continuamos a chamar-lhes flores, o que é compreensível porque os cálices fazem parte da flor, embora a imagem que quase todos transportamos na cabeça corresponda às pétalas vistosas de espécies ornamentais.

A ilha Sabrina também recebeu uma aparência e uma nacionalidade com alguma precipitação. Quando a erupção abrandou, Tillard desembarcou acompanhado pelo cônsul britânico William Harding Read, hasteou a bandeira britânica e reclamou a nova terra para o rei Jorge III.

A corte portuguesa encontrava-se no Rio de Janeiro e Portugal dependia do auxílio militar britânico, circunstâncias que tornavam particularmente oportuno aquele investimento imobiliário numa ilha ainda a fumegar. Sabrina chegou a elevar-se entre 90 e 100 metros acima do nível do mar e formou um cone com aproximadamente dois quilómetros de perímetro.

O nosso pequeno arquipélago de hibiscos guarda ainda uma espécie cuja nacionalidade botânica foi revista. Durante décadas, o hibisco-palustre (Hibiscus palustris) foi considerado autóctone e entrou na Lista Vermelha de 2020, na qual foi classif**ado como Criticamente em Perigo, com cerca de 150 indivíduos maduros reunidos numa única subpopulação do Baixo Mondego. Hoje, a evidência disponível redesenha-lhe o passaporte.

A revisão apoia-se no facto de o primeiro exemplar de herbário conhecido no Mondego datar apenas de 1958, de as populações surgirem em locais perturbados e de a espécie pertencer a um grupo evolutivo americano.

Kew coloca-a num táxon norte-americano introduzido em Portugal. Algumas páginas institucionais continuam a apresentá-la como autóctone, demonstrando que o conhecimento científico consegue atualizar-se mais depressa do que os jardins botânicos atualizam os seus sítios na Internet. A planta permanece exatamente no mesmo lugar e é o nosso mapa botânico que atravessa o Atlântico.

Como qualquer planta anual, o hibisco das infusões propaga-se por sementes, cresce rapidamente com o calor, floresce, produz os cálices e completa o ciclo em apenas alguns meses. Muitas cultivares respondem ao encurtamento dos dias e começam a florescer quando o verão se aproxima do fim.

A corola pode durar apenas um dia, o cálice permanece durante algumas semanas e toda a planta desaparece com a chegada do frio. É quase tão efémera como a décima ilha dos Açores.

Sabrina também completou o seu ciclo numa única estação. Formada por materiais vulcânicos pouco consolidados, começou a ser desfeita pelas ondas quase desde o nascimento e, em outubro de 1811, desapareceu sob o mar, depois de uma existência suficientemente longa para receber um nome, uma bandeira e uma nacionalidade que nunca chegou a estrear. Hoje, o Miradouro da Ilha Sabrina, em São Miguel, conserva o nome de uma ilha que já ninguém consegue ver.

A maioria dos portugueses desconhece esta história e arrisco dizer que muitos açorianos também. O mesmo acontece com o hibisco que bebem. Sabrina desapareceu dos mapas sob o trabalho das ondas e o hibisco desaparece das embalagens sob o trabalho do marketing, que lhe troca a aparência pela de uma parente ornamental e consegue vender milhões de saquetas sem que quase ninguém dê pela substituição.

Em 2021 e 2022, cultivei esta espécie com fins comerciais. A experiência permitiu-me acompanhar todo o ciclo, desde a germinação até à colheita dos cálices, e descobrir uma planta vigorosa, produtiva e muito mais interessante do que a sua quase total ausência dos campos portugueses poderia fazer supor.

Ainda hoje me sinto fascinado pela magníf**a cor e pelo sabor ácido e frutado das infusões preparadas com os seus cálices, enquanto recordo o sabor acídulo, quase avinagrado, das folhas frescas que então juntava às saladas. No Brasil, essa característica explica um dos seus nomes mais expressivos, vinagreira.

Sabrina desapareceu do Atlântico e o hibisco desapareceu das embalagens, deixando-nos a contar nove ilhas enquanto bebemos, com enorme satisfação, a infusão de uma planta que continuamos sem saber reconhecer.

Há árvores que atravessam a nossa vida muito antes de sabermos que um dia hão de entrar na nossa história pessoal. Entre...
24/08/2026

Há árvores que atravessam a nossa vida muito antes de sabermos que um dia hão de entrar na nossa história pessoal. Entre 1982 e 1983, ainda criança, percorria diariamente uma parte do Porto que não sabia ler. Frequentava então o ciclo preparatório na Escola Preparatória Pêro Vaz de Caminha, na Rua do Rosário, num edifício que, como tantos outros na cidade, entretanto mudou de função e acolhe hoje um hotel.

A minha avó paterna tinha um pronto-a-vestir na Baixa do Porto. Eu tinha então onze e doze anos e fazia a pé o trajeto entre a escola e a sua loja, onde ia almoçar. Caminhava pela cidade com a naturalidade de quem ainda não sabe que as ruas guardam nomes, camadas e gestos desaparecidos. Só mais tarde percebi que alguns lugares nos acompanham antes de os compreendermos, e que a cidade pode reter durante anos aquilo que um dia havemos de reconhecer.

O Jardim do Carregal e o Jardim da Cordoaria faziam parte desse percurso diário de idas e voltas para a escola. Recordo bem que, no início dos anos 80, ambos estavam longe da imagem cuidada que hoje se procura associar aos jardins históricos.

Eram espaços gastos, sujos, entregues a vagabundos, pedintes e a uma espécie de abandono urbano que não convidava uma criança a demorar-se. Eu atravessava-os mais do que os habitava. Passava por eles com a pressa de quem tinha de chegar à escola, à loja da avó, ao almoço, à rotina familiar.

Na Cordoaria, porém, havia uma escala que se impunha mesmo a quem não sabia ainda lê-la. A vasta coleção de árvores, os bancos, os estudantes, o trânsito, as fachadas próximas e a Torre dos Clérigos faziam daquele jardim um dos lugares mais densos da cidade. Eu atravessava esse espaço sem imaginar que uma das suas figuras arbóreas mais extraordinárias estava já próxima do fim.

O Jardim da Cordoaria chama-se oficialmente Jardim João Chagas desde 1924, embora o nome popular tenha continuado ligado à memória dos cordoeiros que ali trabalharam durante cerca de dois séculos. João Pinheiro Chagas foi jornalista, escritor, diplomata e político republicano, crítico da monarquia e primeiro chefe do Governo Constitucional da República, em 1911.

O grande negrilho (Ulmus minor) do Jardim da Cordoaria, conhecido pelo povo como Árvore da Forca, ainda existia. Morreria em 1986, vítima da grafiose, e pouco depois desapareceria da paisagem física da cidade. Foi meu contemporâneo. Partilhou comigo alguns anos de infância, ainda que eu só o tenha entendido tarde demais.

Tantas vezes passei por aquele negrilho. Quantas terá projetado a sua sombra sobre mim? Terei contornado o seu tronco, mutilado, enfraquecido, ainda impondo ao jardim aquela gravidade das árvores que sobreviveram a quase tudo? Será que algum dia parei para o fitar demoradamente?

Guardo dele uma lembrança imperfeita, dessas que não chegam a formar imagem nítida, mas f**am suspensas num recanto da consciência. Hoje gostava de ter uma fotografia minha, miúdo, ao lado da árvore, como uma das imagens que acompanham esta história, com crianças e adultos reunidos junto do tronco monumental. Não tenho essa fotografia. Tenho apenas a certeza tardia de ter passado muitas vezes diante de uma árvore que o Porto venerou durante mais de três séculos.

A vontade de escrever este texto nasceu durante a preparação de uma visita entre o Jardim da Cordoaria e o Parque das Virtudes. Foi a Deriva do Museu do Porto, “Do Jardim da Cordoaria ao Jardim das Virtudes”, que realizei em maio e junho de 2026, em duas sessões esgotadas. A proposta partia de um olhar sobre dois jardins históricos e sobre duas formas distintas de relação entre cidade e natureza.

Durante o percurso apresentava as árvores como testemunhas da construção paisagística e cultural do Porto, convidando a ler a paisagem como documento e experiência sensível. Essa ideia tornou-se o fio de trabalho. Caminhar da Cordoaria às Virtudes era passar de um jardim de representação urbana para uma paisagem de encosta, de água, socalcos e produção hortícola. Era também perceber que as árvores guardam mudanças sociais, ambientais e afetivas que a cidade raramente explica aos seus habitantes.

Foi nessa pesquisa que redescobri a Árvore da Forca e percebi que se tratava de um negrilho. A palavra tocou-me de imediato. Negrilho é também o nome que demos à nossa empresa, em honra da minha avó materna, para quem esta era a árvore favorita. Nesse instante, o património urbano cruzou-se com a minha própria biografia, com os anos de infância em que passei diante daquela árvore sem a reconhecer plenamente e com a memória familiar que acabou por dar nome ao meu trabalho.

Não posso deixar de agradecer à Joana Ferreira Leite, do Museu do Porto, o cuidado que teve em me enviar o processo camarário da Árvore da Forca, até então sem consulta pública disponível. Trata-se de um pequeno conjunto documental aberto em 1986, depois de a árvore ter secado, onde se cruzam informação técnica, preocupação patrimonial, recortes de imprensa, propostas de conservação e dúvidas sobre o destino daquele tronco histórico. A leitura desse processo fez crescer em mim uma vontade quase obsessiva de saber mais.

Em 23 de junho de 1986, a Divisão de Museus e Património Histórico e Artístico escrevia sobre a chamada Árvore da Forca e perguntava o que fazer daquele fuste simbólico, já sem folhagem, ainda erguido no lado norte do Jardim da Cordoaria.

Ali estava a árvore já morta, convertida em assunto municipal, entre pareceres técnicos, despachos, notícias, dúvidas e propostas de salvaguarda. O velho negrilho ainda permanecia no jardim, reduzido ao que dele restava, entre a urgência técnica de o remover e a vontade de conservar a sua memória. Foi também aí que percebi que este texto teria de terminar com uma proposta ao Porto.

Este texto demorou meses a preparar. Nasceu de leituras sucessivas, dúvidas, regressos às fontes, comparações entre datas, fotografias, artigos de O Tripeiro, publicações patrimoniais, crónicas, processos camarários, imagens dispersas e uma manhã extraordinária de pesquisa no Arquivo Histórico Municipal do Porto, na Casa do Infante.

Entre volumes gastos pelo uso e páginas que obrigam a ler devagar, fui reunindo a biografia de uma das mais magníf**as árvores da cidade. Há árvores urbanas que dão sombra, outras que embelezam uma praça, algumas que marcam uma geração. A Árvore da Forca alcançou outro patamar. Entrou na lenda, na imprensa, na classif**ação patrimonial, no arquivo municipal, na fotografia, na memória popular e no vocabulário afetivo do Porto.

A história começa antes da árvore que chegou ao século XX. Começa no Campo do Olival, um espaço amplo, anterior à Cordoaria ajardinada, que durante séculos pertenceu à vida coletiva do Porto. Firmino Pereira, em O Porto d’outros tempos, publicado em 1914, dedica-lhe um capítulo inteiro com um título que já parece programa de investigação, “O campo, alameda, horto e monte do Olival”.

O sumário desse capítulo é, por si só, uma pequena cartografia da Cordoaria antiga. Nele cabem a feira de São Miguel, a doação medieval, a plantação dos olmos, a “arvore grande” e as suas desgraças, as forcas dos populares que promoveram a “assuada” contra a Companhia dos Vinhos, os cordoeiros e o nascimento do jardim.

A árvore surge ali ancorada num território muito mais vasto do que o jardim atual. Vem do Campo do Olival, da memória das portas da cidade, do trabalho dos cordoeiros, das feiras, das execuções, dos passeios e das sucessivas formas de uso público daquele chão.

O jardim propriamente dito pertence a uma fase posterior. Em meados do século XIX, a Câmara Municipal do Porto decidiu transformar a Praça da Cordoaria num passeio público. A proposta ficou associada a Alfredo Allen, visconde de Villar d’Allen, então vereador da cidade, e o desenho coube ao arquiteto paisagista alemão Emílio David, chamado ao Porto para desenhar os jardins do Palácio de Cristal. O projeto foi executado entre 1865 e 1866, dando à antiga Cordoaria uma feição ajardinada romântica, com lago central, caminhos sinuosos e alamedas de passeio.

Segundo Firmino Pereira, em 1611, as oliveiras que marcavam a direção do couto de Cedofeita eram já poucas e raquíticas. O Senado decidiu então substituí-las por uma vasta plantação de negrilhos ou olmos, que o autor identif**a expressamente como Ulmus campestris.

A plantação da alameda foi autorizada em 28 de setembro de 1611 e custeada pelo imposto conhecido como imposição do vinho. É dentro desta memória documental e vegetal que Firmino Pereira situa o famoso Ulmus, conhecido como “arvore grande da Cordoaria”, plantado em 1612 e com 302 anos em 1914.

A confirmação documental, a partir dos livros camarários, surge em O Tripeiro, 2.º ano, n.º 43, de 1 de setembro de 1909. No artigo “Alameda da Porta do Olival”, Alfredo Alves descreve o antigo Campo do Olival como um espaço amplo, quase despido de arvoredo, com renques de oliveiras a norte, na direção do couto de Cedofeita. Depois transcreve a sequência régia que deu corpo à plantação.

A carta de 28 de setembro de 1611, passada em São Lourenço do Escorial, ordenava a criação de uma alameda no Campo do Olival, financiada com parte da imposição de um ceitil sobre o vinho e entregue à superintendência do desembargador Manuel Sequeira Novais.

Em 25 de junho de 1612, nova determinação mandou fazer de novo a plantação, e o alvará de 11 de julho desse ano estabeleceu dois guardas para a alameda, com vencimento anual de 15$000 réis cada. Em 6 de março de 1613, outra carta régia mandou continuar a plantação, elevou o número de guardas para quatro e dispensou os cordoeiros da guarda daquele passeio público. O arco documental de 1611 a 1613 pertence, assim, à formação administrativa da alameda, que nesse período ganhou ordem régia, financiamento, vigilância e continuidade material.

A terminologia botânica revela a espessura cultural da árvore. Ao longo de mais de dois séculos de referências, o negrilho aparece nas fontes portuenses através de várias sinonímias populares, como álamo, negrilho, olmo e ulmeiro, e com a classif**ação botânica então usada, Ulmus campestris.

Essa diversidade de nomes pertence à própria biografia documental da árvore e acompanha a linguagem comum e científ**a disponível em cada época. Com a evolução da taxonomia, a identif**ação daquele grande negrilho da Cordoaria deve hoje ser lida como Ulmus minor.

Ao longo deste texto, preferi chamar-lhe sobretudo negrilho, por ser, entre os vários nomes comuns usados em Portugal, aquele de que mais gosto. É também o nome que mais me aproxima desta árvore, pela memória familiar, pela Cordoaria e pela força da própria palavra.

A história dos ulmeiros ajuda a compreender esta passagem de nomes. Trata-se de um grupo marcado por cultivo antigo, propagação vegetativa, hibridação e mudanças sucessivas de nomenclatura. No Norte de Portugal, essa história cruzou-se também com a vinha de enforcado.

O negrilho foi usado como uveira, árvore de suporte que deixava as videiras subir e ocupar as bordaduras dos campos. Servia de apoio aos arames que sustentavam e conduziam a vinha entre árvores, prolongando a produção ao longo dos limites das parcelas. A poda severa da uveira tinha uma lógica agrícola precisa. Reduzia a sombra sobre a vinha, favorecia a maturação das uvas, dava ramagem ao gado e mantinha a árvore dentro da função que a paisagem agrícola lhe atribuía.

A grafiose retirou à vinha de enforcado uma das árvores mais ajustadas a esse sistema agrícola. Em muitos casos, os negrilhos mortos acabaram por ser substituídos por outras árvores de suporte, como choupos e plátanos, com porte, ramagem e comportamento menos favoráveis à condução da vinha.

A perda também se fez sentir no arvoredo urbano. Em jardins, parques e ruas, a morte anual de numerosos olmos e a sua substituição por espécies como lódãos e plátanos mostravam que a grafiose estava a alterar também a paisagem das cidades.

A cultura de poda associada às uveiras ajuda a compreender algumas marcas deixadas no arvoredo urbano. Quando gente formada no trabalho agrícola passou a cuidar jardins, ruas e quintais, levou consigo gestos aprendidos nas aldeias.

Durante muito tempo, plátanos, choupos, negrilhos e outras árvores foram cortados com uma dureza herdada dessas práticas, já fora do contexto que lhes dava sentido. Hoje, a arboricultura urbana começa finalmente a olhar cada espécie com outra consciência, procurando compreender melhor a sua forma natural, a sua arquitetura própria e a história de uso que deixou marcas no arvoredo das cidades.

A espécie Ulmus minor é reconhecida como autóctone em Portugal continental e surge associada sobretudo a solos frescos e áreas de influência hídrica, como linhas de água, sebes, orlas de matagais, vales agrícolas, lameiros, caminhos húmidos e depósitos fluviais.

A sua presença ganha maior expressão onde a água permanece mais próxima, os solos conservam frescura e a agricultura manteve sebes, bordaduras e árvores de margem. Nas margens dos grandes rios, pode integrar comunidades arbóreas com freixos, carvalhos, salgueiros e lódãos, ajudando a fixar as margens, regular a água e criar abrigo para a biodiversidade.

É uma árvore caducifólia de crescimento rápido, exigente em luz e capaz de tolerar encharcamento, períodos de seca, ventos salinos e poluição. Essa plasticidade ajuda a compreender a sua passagem dos corredores ribeirinhos para os campos agrícolas, as bordaduras de vinha, as alamedas, os jardins e as ruas.

Na Cordoaria, o negrilho crescia em pleno coração da cidade e conservava ainda a herança ecológica e rural das margens, dos campos húmidos e das paisagens agrícolas onde a espécie encontrou lugar no território. A copa densa dava abrigo, a sombra criava lugar e a presença da árvore acrescentava ao jardim valor estético, cultural e histórico.

Durante séculos, os negrilhos foram árvores de trabalho. Marcavam limites, davam sombra e forneciam uma madeira resistente, difícil de fender, usada em mobiliário, cabos de ferramentas, peças agrícolas e estruturas expostas à humidade. Pertenciam à economia quotidiana dos campos e à imagem viva das margens, dos caminhos e dos lugares habitados.

Essa dimensão rural ajuda a ler melhor a Árvore da Forca. O grande negrilho da Cordoaria trazia para o jardim uma história longa de convivência entre árvore, água, trabalho agrícola, caminhos, margens e comunidades. A cidade reconheceu-o como monumento vivo porque nele se encontravam botânica, utilidade, lenda e vida pública.

Agostinho Rebelo da Costa ajuda a compreender a paisagem onde essa tradição ganhou forma. Na Descrição Topográf**a e Histórica da Cidade do Porto, publicada em 1789, descreve o Campo da Cordoaria como um dos principais terreiros, praças e campos da cidade. Diz que era rodeado por “três filas de grossos e elevados álamos plantados no mês de fevereiro de 1758”, em forma de grande praça vazia.

O passeio público f**aria amplo e formoso se ali não trabalhasse a importante fábrica das cordas e calabres. A Cordoaria era lugar de arborização, trabalho, circulação e sociabilidade. O nome do jardim conserva essa marca dos cordoeiros, homens que estendiam fibras, torciam cordames e abasteciam as atividades marítimas e comerciais da cidade.

O declínio da Árvore da Forca pertence a uma perda muito mais vasta. A grafiose, conhecida como doença holandesa do ulmeiro, transformou a história dos ulmeiros europeus ao longo do século XX. A doença é causada por fungos do género Ophiostoma, sobretudo Ophiostoma ulmi e Ophiostoma novo-ulmi, transportados por pequenos escaravelhos da casca, os escolitídeos. Ao instalarem-se no sistema vascular, estes fungos comprometem a circulação da seiva. Primeiro secam ramos e murcham folhas. Depois o enfraquecimento alastra pelo corpo da árvore.

Um estudo português de 1979 sobre o escaravelho das folhas do olmo (Pyrrhalta luteola) ajuda a perceber que o declínio dos olmos envolvia uma cadeia fitossanitária mais ampla. Esse inseto era então apontado como o principal defoliador dos olmos em Portugal e como o primeiro degrau de uma sucessão que enfraquecia as árvores, favorecia o ataque de escolitídeos e abria caminho à progressão da grafiose.

O estudo recordava ainda que o negrilho se encontrava amplamente distribuído no país, que os olmos eram frequentes em jardins, parques e ruas, que as folhas serviam de alimento aos animais no norte de Portugal durante o verão e que a madeira era considerada de muito boa qualidade. A perda atingia, portanto, uma árvore com presença ecológica, urbana e rural, útil na economia dos campos e visível na paisagem das cidades.

Em 1997, um relatório fitossanitário sobre o Parque Botânico da Fundação Calouste Gulbenkian descrevia já os ulmeiros portugueses como raros sobreviventes de uma doença espalhada pelo mundo. A recomendação técnica era severa e compreensível. Abater e queimar os ulmeiros mortos ou moribundos, para quebrar o ciclo da doença e impedir que os insetos vetores continuassem a desenvolver-se entre a casca e o lenho.

Essa conclusão ajuda a perceber que um eventual regresso simbólico do negrilho à Cordoaria teria de ser pensado como uma homenagem viva, responsável e informada pela própria doença que destruiu a árvore original.

Em Portugal, ainda há negrilhos a rebentar. A espécie persiste em sebes, margens, caminhos e linhas de água. Essa vitalidade acompanha-me de perto. Mesmo ao pé de casa, num descampado por onde passo quando vou caminhar, crescem vários negrilhos espontâneos. Estão tão escondidos que, às vezes, sinto ser a única pessoa que sabe que eles ali estão. A sua presença quase despercebida diz muito sobre a espécie.

Na Quinta de Bonjóia, no Porto, existe também um pequeno núcleo de negrilhos em franco desenvolvimento. Sempre que os encontro, vejo neles pequenas reservas de futuro. São árvores jovens, cheias de energia, a ganhar corpo e a devolver lugar a uma espécie duramente atingida.

O negrilho resiste por rebentos de raiz e de toiça, e por sementes leves que o vento transporta, capazes de flutuar e seguir a corrente, reencontrando a lógica ribeirinha da espécie.

Encontrar árvores adultas e monumentais tornou-se cada vez mais raro. A grafiose fez desaparecer muitos exemplares e interrompeu a continuidade de negrilhos capazes de envelhecer, ganhar escala e marcar o território.

Por isso, uma eventual replantação na Cordoaria deve ser pensada com rigor técnico, material vegetal adequado, tolerância ou resistência comprovada à grafiose, acompanhamento fitossanitário e a noção clara de que plantar um negrilho, hoje, é também participar num esforço de conservação genética e cultural.

A Árvore da Forca pertencia a essa linhagem de grandes árvores em que a botânica se torna história urbana. As fotografias mostram um tronco colossal, irregular, cheio de cicatrizes, com braços amputados, feridas, rebentos e marcas sucessivas de fogo, vento, proteção humana e decadência fisiológica.

Em O Tripeiro, de dezembro de 1967, uma fotografia de 1889 surge legendada como “Ulmus histórico e maciço-mosaico no Jardim dos Mártires da Pátria”. A expressão é reveladora. A árvore já era lida como documento vivo.

A pergunta que fixou em jornal a sua fama popular foi publicada em 20 de julho de 1909. Na secção “Novas Perguntas” de O Tripeiro, 2.º ano, n.º 39, a entrada n.º 153, assinada por J. M., interrogava assim: “Arvore da Forca. Sinistro título para uma arvore tão linda, como a Ulmus do Jardim da Cordoaria! Por que a denominou o povo assim?”

Há beleza nesse espanto. Um leitor vê uma árvore formosa e estranha o peso fúnebre do nome. Em 1 de setembro de 1909, O Tripeiro, 2.º ano, n.º 43, respondeu. O texto “A Arvore da Forca” identif**a o exemplar como negrilho, Ulmus campestris, e afirma com clareza que nunca serviu “para enforcar desgraçado algum”.

Importa dizê-lo com toda a clareza. A Árvore da Forca nunca foi usada como patíbulo. As execuções públicas que marcaram a Cordoaria fizeram-se em cadafalsos e forcas de madeira erguidos para esse fim.

A árvore assistiu a acontecimentos terríveis, recebeu o peso simbólico do lugar e entrou na tradição por proximidade e forma. O seu ramo, a sua localização e a memória dos suplícios fizeram o resto. A lenda confundiu testemunha com instrumento. A história permite desfazer a confusão e conservar a força simbólica da árvore.

A lenda nasceu num território onde a morte pública tinha deixado marcas reais. Firmino Pereira ajuda a desenhar essa geografia. Recorda que a forca pública estivera primeiro em Mijavelhas, no Poço das Patas, hoje Campo 24 de Agosto, e depois na Ribeira. Em 1822 foi transferida para a extremidade sul do Campo da Cordoaria, diante da Cadeia e perto da Rua do Calvário, destinada aos réus de crimes comuns.

A isto juntava-se a memória do Campo das Malvas, junto à área dos Clérigos, ligado durante muito tempo ao enterramento dos justiçados. Firmino Pereira recorda que essa geografia da morte pública se prolongou depois para o chão do Robalo, no terreno onde se abriria a Rua da Liberdade, lugar associado ao Adro dos Enforcados.

Havia, portanto, forcas, condenados, sepulturas infames e lembranças de suplício em redor da Cordoaria. O nome popular da árvore nasceu nesse ambiente de história penal, topografia urbana e imaginação coletiva.

Firmino Pereira é particularmente firme na defesa do velho Ulmus. Diz que houve quem o caluniasse, afirmando que cedera um dos seus braços mais possantes para nele serem enforcados os taberneiros da assuada de 1757 contra a Companhia dos Vinhos e os liberais condenados pelas justiças do governo absoluto.

Ela mostra que, já em 1914, a associação entre a árvore e o patíbulo era sentida como uma injustiça feita ao negrilho. Para o autor, os taberneiros morreram em seis forcas erguidas no Campo do Olival e os liberais padeceram nos patíbulos da Praça Nova. O venerando Ulmus ficou como muda testemunha. Esta é uma das formulações mais certeiras de todas as fontes consultadas. A árvore viu, sofreu a memória do lugar e recebeu o nome da tragédia, sem ter servido de instrumento de morte.

Germano Silva, uma das vozes que melhor soube contar o Porto aos portuenses, num episódio de O Porto do Germano dedicado à Árvore da Forca, retomou esta lição no seu modo direto e popular. Recordou a Cordoaria dos cordoeiros, o antigo Campo do Olival, a alameda mandada plantar no tempo dos Filipes e aquela árvore que resistiu ao tempo, aos temporais e ao incêndio. Morreu de pé, dizia ele, como morrem as árvores. E nunca se enforcou ninguém nela.

A Cordoaria conheceu episódios duros. A revolta contra a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, em 1757, deixou uma marca funda na cidade. O Tripeiro, 2.º ano, n.º 43, de 1 de setembro de 1909, regista essa memória em 14 de outubro de 1757, associando a Cordoaria às execuções ordenadas pelo poder pombalino.

Portugal Económico Monumental e Artístico, no fascículo XLII, retoma essa leitura, afirmando que junto à árvore foi erguido um cadafalso. Para a história da Árvore da Forca, é sobretudo 1757 que f**a ligado à Cordoaria e ajuda a explicar a associação popular entre a árvore, o lugar e a morte pública.

Em 1829, os doze liberais que a cidade recordaria como Mártires da Pátria foram enforcados na Praça Nova, hoje Praça da Liberdade. Em 1831, a Cordoaria assistiu a outras execuções, ligadas a condenados por crime cometido em Coimbra. Joel Cleto, em O Tripeiro, 7.ª série, Ano ###I, n.º 6, de junho de 2012, distingue a lenda dos factos documentados e ajuda a situar cada episódio.

A explicação do nome passa também pela forma do velho negrilho. A árvore tinha um braço poderoso que saía do tronco, desenhava um ângulo e subia quase em paralelo ao eixo principal, criando a imagem de uma forca natural. O povo nomeou a partir do que via, do que ouvia e do que a memória do lugar lhe entregava.

Uma árvore muito velha, num espaço ligado a execuções, com um ramo que lembrava o desenho de um patíbulo, acabou por receber o nome mais impressionante. A forma da árvore deu corpo à lenda. A cidade acrescentou-lhe medo, rumor e memória.

O Cerco do Porto abriu outro capítulo decisivo na história material da Cordoaria. Entre 1832 e 1833, durante a Guerra Civil Portuguesa, as necessidades militares levaram ao corte de muitas árvores das praças públicas da cidade.

Os arvoredos da Cordoaria foram sacrif**ados para fornecimento de lenha, nomeadamente ao Hospital Militar e ao Recolhimento dos Meninos Órfãos, instalados na zona onde se ergueria o edifício da Universidade. Segundo Jaime Ferreira, em O Tripeiro, Série Nova, Ano I, n.º 7, Vol. I, escaparam então duas árvores, restando apenas uma em 1890.

A tradição recolhida por O Tripeiro, 2.º ano, n.º 43, de 1 de setembro de 1909, e repetida por autores posteriores acrescenta que o grande negrilho terá sido poupado por intervenção de Francisco Faustino da Costa, provedor da Misericórdia, junto de D. Pedro IV. A Árvore da Forca atravessou assim o Cerco como sobrevivente literal de uma razia arbórea. Enquanto outras companheiras caíram ao machado, ela permaneceu na Cordoaria e ganhou mais uma camada de exceção na memória da cidade.

Depois do Cerco do Porto, a vida do negrilho continuou a ser uma sequência de danos, cuidados e resistências. Em 1860, sofreu um incêndio causado por uma fogueira acesa pelos cordoeiros. Firmino Pereira conta que, numa tarde de frio, os cordoeiros acenderam lume nas proximidades do venerando vegetal.

A nortada fez subir o fogo e o tronco ficou queimado em parte. O Tripeiro, 2.º ano, n.º 43, de 1 de setembro de 1909, acrescenta que o incêndio foi prontamente extinto e que, por intervenção do Dr. Assis de Sousa Vaz, se tratou de proteger aquele monumento vivo do Porto. A zona atingida foi coberta com uma chapa de ferro e colocou-se um gradeamento em volta do tronco. Esse gradeamento seria retirado em 1869, com o ajardinamento da praça, associado à iniciativa do visconde de Villar d’Allen.

Há aqui um detalhe admirável. O visconde recusou a proposta de corrigir a arquitetura da árvore através de cortes na ramagem. A irregularidade foi respeitada. A forma ferida valia mais do que a simetria. Esta pequena decisão diz muito sobre a relação entre a cidade e o negrilho. A árvore era entendida como corpo histórico, não como peça ornamental a disciplinar pela tesoura.

Em 2 de fevereiro de 1885, uma forte tempestade arrancou-lhe um grande ramo. O Tripeiro, 2.º ano, n.º 43, de 1 de setembro de 1909, regista a comoção dos portuenses que acorreram à Cordoaria para ver o estado do admirado álamo. A população correu à alameda, aflita e inquieta, receando que a árvore do tempo dos Filipes tivesse sido ferida de morte. O receio desvaneceu-se. Na sua robustez, o poderoso Ulmus resistiu ao fogo e ao temporal, cercado dos cuidados que a velhice exigia, erguendo-se ainda contra os estragos dos séculos.

Outro episódio, aparentemente menor, mostra o cuidado material dedicado ao tronco. Em O Tripeiro, 2.º ano, n.º 44, de 10 de setembro de 1909, uma pequena nota da secção “Notas ao Tripeiro” conta que, na madrugada de 31 de dezembro de 1908, Francisco Gomes entrou no Jardim da Cordoaria, subiu à árvore e arrancou uma chapa de chumbo de trinta quilos que protegia o tronco das chuvas e da podridão.

Foi detido na Rua de Fernandes Tomás por um guarda civil. A Câmara comprou nova chapa e pagou a reparação, gastando 12$000 réis. Este episódio revela uma forma concreta de proteção patrimonial antes da linguagem técnica contemporânea. A árvore era tratada como um corpo vulnerável, sujeito a feridas, remendos e vigilância.

A proposta mais bela que encontrei nas fontes foi chamá-la Árvore da Liberdade. Duarte de Oliveira Júnior, citado no artigo “A Arvore da Forca”, publicado em O Tripeiro, 2.º ano, n.º 43, de 1 de setembro de 1909, com base no Jornal de Horticultura Prática, defendia que aquele “colosso vegetal” devia ser cuidado enquanto vivesse e preservado depois da morte como relíquia da cidade.

Propunha a seguinte inscrição:

ÁRVORE DA LIBERDADE
NASCEU EM 1611
VIU DECAPITAR MUITOS INNOCENTES
E VIVE AINDA
EM FINS DO SECULO XIX
RODEADA DOS CARINHOS D’UM POVO CULTO

Décadas depois, Jaime Ferreira transmitiu uma variante com “viu enforcar muitos inocentes”. A diferença mostra como a própria memória da árvore continuou a oscilar entre história, suplício e lenda. A intenção cívica, essa, mantém-se nítida. Tratava-se de retirar a árvore do imaginário da forca e de a colocar no campo da liberdade, da tradição e do respeito público.

Em 27 de setembro de 1939, segundo as “Efemérides Portuenses” publicadas em O Tripeiro, V Série, Ano XII, n.º 5, de setembro de 1956, o venerando negrilho do Jardim da Cordoaria foi classif**ado como árvore de interesse público. A nota é breve e preciosa. Chama-lhe negrilho, atribui-lhe mais de trezentos anos e volta a esclarecer que não constava ter servido alguma vez para enforcar quem quer que fosse.

Poucos dias depois, a revista Ilustração, n.º 331, de 1 de outubro de 1939, retomava a velha lenda e o carinho com que o Porto rodeava o negrilho. A publicação confirma a força pública e afetiva que a árvore ainda tinha quando entrou na história nacional da proteção do arvoredo monumental.

Joel Cleto acrescenta, em O Tripeiro, 7.ª série, Ano ###I, n.º 6, de junho de 2012, que este exemplar integrou o primeiro lote de catorze árvores classif**adas em Portugal como de interesse público.

O facto merece ser sublinhado. Também aqui o Porto aparece na dianteira. O enquadramento legal da proteção do arvoredo foi aberto pelo Decreto-Lei n.º 28468, de 15 de fevereiro de 1938, diploma que sujeitou a autorização o corte e a derrama de árvores em jardins, parques, matas ou manchas de arvoredo situados em zonas de proteção patrimonial, e que permitiu proteger exemplares isolados de espécies vegetais pelo porte, desenho, idade ou raridade.

No ano seguinte, o negrilho da Cordoaria integrou o lote fundador das árvores classif**adas em Portugal. As fontes reunidas permitem afirmar com segurança que o Porto esteve entre os lugares pioneiros da proteção oficial das árvores monumentais no país.

A cidade que tantas vezes se orgulhou das suas pedras, das suas pontes, das suas torres e dos seus feitos cívicos reconhecia, nessa data, que uma árvore podia ser património. A Árvore da Forca deixava de pertencer só à lenda da Cordoaria. Entrava na história nacional da proteção das árvores monumentais.

Em 15 de fevereiro de 1941, menos de ano e meio depois da classif**ação, a Cordoaria voltou a ser posta à prova. O ciclone que nesse dia varreu Portugal trouxe ventos de violência rara. Na Serra do Pilar, a rajada atingiu 167 km/h antes de o anemómetro se avariar. No Jardim da Cordoaria, grande parte do arvoredo foi destruída. A ficha patrimonial do jardim regista que a Árvore da Forca sobreviveu ao vendaval, descrevendo-a como um monumental negrilho ou ulmeiro e como a única árvore conservada da antiga Alameda.

A sequência de resistência ganhava assim mais uma camada. Depois do fogo de 1860 e do temporal de 1885, a velha árvore sobreviveu a uma tempestade que derrubou grande parte do jardim. Pouco depois de ser reconhecida como património, confirmava no próprio terreno a exceção que os documentos já lhe atribuíam.

Segundo Jaime Ferreira, em artigo publicado em O Tripeiro, Série Nova, Ano I, n.º 7, Vol. I, em 10 de novembro de 1963, novo temporal arrancou-lhe o braço principal, aquele que mais contribuía para a aparência de forca. O autor publicou uma fotografia tirada antes desse episódio e assinalou a perda.

A árvore continuou viva, com a sua silhueta lendária diminuída. Sem esse braço, talvez muitos passantes já não compreendessem o nome. A partir daí, a memória passou a depender cada vez mais das fotografias, das crónicas, das legendas e das pessoas que ainda a tinham visto com a sua forma plena.

O fim chegou em 1986, e é aqui que o processo camarário que me foi enviado se torna decisivo. Em 23 de junho desse ano, a Divisão de Museus e Património Histórico e Artístico escrevia sobre a chamada Árvore da Forca e perguntava o que fazer daquele fuste simbólico, já sem folhagem, ainda erguido no lado norte do Jardim da Cordoaria.

Se aceitarmos a data de 1612 que Firmino Pereira atribui à plantação da árvore, o velho negrilho teria então cerca de 374 anos.

A primeira proposta era ambiciosa. Retirar o tronco com cuidado, sem destruir a forma que alimentara a tradição popular, tratá-lo quimicamente para o conservar como testemunho histórico da cidade, plantar no mesmo local outra árvore da mesma espécie e deixar uma inscrição alusiva.

Nos meses seguintes, a árvore continuou a existir nos papéis da Câmara como problema técnico e como dívida cultural. Luís de Azeredo trabalhou uma fórmula para a placa, discutindo até a escolha entre “negrilho” e “ulmeiro”. A redação lembrava que naquele local existira, durante três séculos e meio, um frondoso negrilho ou ulmeiro que secara em 1986 e que a tradição popular apelidara de Árvore da Forca.

O processo conserva recortes de imprensa, pareceres, hesitações, propostas de peça ornamental ou memorial, dúvidas sobre o destino do tronco, preocupações de segurança e a advertência da Divisão de Jardins sobre a grafiose e a contaminação do lugar. Surgiram hipóteses sucessivas. Plantar uma árvore da mesma espécie. Tratar o tronco ou conservar parte dele. Colocar uma placa. Encomendar um desenho ou projeto de memória, talvez sob a forma de peça ornamental ou escultórica.

A Divisão de Jardins alertou para a doença, para o estado de decomposição do tronco e para a inconveniência de voltar a plantar um ulmeiro no mesmo ponto. A solução mais prudente acabou por se concentrar na placa evocativa. O despacho final apontava nesse sentido. A memória física da árvore nunca chegou a ganhar presença clara e duradoura no jardim. O processo mostra uma cidade que reconheceu a importância da perda, ensaiou formas de reparação e deixou a homenagem por concluir.

É essa ausência que hoje mais pesa. A Cordoaria continua a ser atravessada por estudantes, turistas, funcionários, moradores, crianças, grupos que esperam, pessoas que descansam, leitores de jardim, gente apressada. Muitos passam pelo lugar onde viveu o negrilho sem qualquer indicação que lhes permita perceber que ali esteve uma das árvores mais notáveis do Porto. A Árvore da Forca desapareceu do terreno e ficou repartida por arquivos, fotografias e memória dispersa. Um jardim que teve uma árvore destas devia saber contá-la.

Escrevo este texto também por isso. Porque passei por ela em criança e só muito mais tarde compreendi quem ela era. Porque a reencontrei em adulto, entre páginas de arquivo, fotografias e relatos de quem a protegeu. Porque se chamava negrilho, o mesmo nome que demos à nossa empresa em homenagem à árvore preferida da minha avó materna.

Porque a grafiose continua a empurrar os grandes negrilhos para uma raridade cada vez mais dolorosa no território e para uma perda de continuidade nas paisagens onde durante séculos marcaram caminhos, margens e povoados. Porque uma cidade que aprende a honrar as suas árvores aprende também a reconhecer melhor a sua própria biografia.

A proposta que deixo ao Município do Porto é simples e tem raízes nas próprias fontes históricas. Que se faça finalmente a homenagem devida à Árvore da Forca. Uma homenagem séria e bem documentada no Jardim da Cordoaria. Uma placa que assinale o lugar aproximado do negrilho.

Um texto interpretativo que explique a lenda e esclareça que a árvore nunca serviu de patíbulo. Uma reprodução de uma fotografia histórica. A recuperação da proposta da Árvore da Liberdade. Uma escultura, uma marca no pavimento ou outro gesto que devolva escala ao tronco desaparecido. E, se houver condições técnicas para isso, uma plantação simbólica de ulmeiros resistentes ou tolerantes à grafiose, escolhidos com critério, proveniência adequada, acompanhamento especializado e cautela fitossanitária.

Esta homenagem tem mais de um século de atraso. Já no fim do século XIX se pediu que a árvore fosse cuidada em vida e lembrada depois da morte. Em 1986 e 1987, o próprio processo camarário voltou a discutir placa, nova plantação, escultura e conservação da memória. A homenagem ficou suspensa entre pareceres, boas intenções e esquecimento.

A cidade deve esse gesto a um enorme bastião vegetal que durante mais de três séculos honrou o Porto com a sua presença. Um negrilho ferido por fogo, vento, cortes, doença, esquecimento e pelo Cerco do Porto, em plena Guerra Civil Portuguesa, suficientemente poderoso para continuar a reunir arquivos, fotografias, investigadores, caminhantes e afetos. A Árvore da Forca nunca enforcou ninguém. Fez algo mais difícil e mais raro.

Obrigou sucessivas gerações a olhar para uma árvore como parte da história da cidade. Agora falta transformar essa consciência em gesto público e prestar-lhe, finalmente, a homenagem que lhe é devida. Vamos a isso, Porto?

Agradeço ao Arquivo Histórico Municipal do Porto e à Câmara Municipal do Porto a disponibilização de documentação e imagens relativas à Árvore da Forca, fundamentais para a preparação deste texto.

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