Luís Alves Agrónomo

Luís Alves Agrónomo Agrónomo/Etnobotânico Luís Alves tem 53 anos, é do Porto. Engenheiro Agrónomo com formação regulamentada em modo de produção biológico. Consultor de empresas.
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Avaliador externo - European Institute of Innovation and Technology (EIT Food). Especializado em plantas aromáticas, medicinais, condimentares e etnobotânica. Especializado em agroecologia e restauro ecológico. Membro efetivo sénior da Ordem dos Engenheiros, Colégio de Agronomia. Licenciado em Engenharia Agronómica pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Encarregado geral do Parque de Se

rralves entre 1997 e 2003. Em 2002 fundou o Cantinho das Aromáticas, projeto único do género na Europa Ocidental de agricultura biológica urbana. Durante 21 anos foi agricultor e viveirista, produziu em modo de produção biológico, plantas aromáticas, medicinais, condimentares. Da semente ao produto final, criou infusões, tisanas e condimentos de grande qualidade, para o mercado nacional e para exportação. Orientador e coautor de diversos trabalhos científicos. Lecionou em centenas de palestras, conferências, workshops, em empresas, escolas e universidades de todo o país. Coautor do livro "Erva uma Vez". Distinguido como Técnico Hortícola de Honra, pela Associação Portuguesa de Horticultura. Fez televisão de forma regular durante vários anos, mantendo rubricas regulares na RTP1 e RTP2. ORCID: 0009-0006-4187-5358 | CIENCIA ID: 411A-FF03-39D6 ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Agronomic Engineer with regulated training in organic farming. Agronomic consultant. Expert evaluator - European Institute of Innovation and Technology (EIT Food). Specialized in aromatic, medicinal plants and ethnobotany. Specialized in agroecology and ecological restoration. Senior full member of the Order of Engineers, College of Agronomy. Graduated in Agricultural Engineering from University of Trás-os-Montes and Alto Douro. Co-author of several scientific publications. General Manager of Serralves Park between 1997 and 2003. In 2002 founded Cantinho das Aromáticas, the only project of its kind in Western Europe of urban organic agriculture. For 21 years was a farmer and nurseryman, producing organic aromatic and medicinal plants. From seed to final product created high quality organic herbal teas and seasonings for the national market and for export market. Keynote speaker at hundreds of lectures, conferences, workshops, in companies, schools and universities across the country. Coauthor of the book "Erva uma Vez". Distinguished as Horticultural Technician of Honor by the Portuguese Horticultural Association. Worked in television regularly for several years, maintaining regular appearances on RTP1 and RTP2.

Entre 2023 e 2025 estive dois anos sem escrever nesta página ou no meu blogue. Foi uma interrupção longa, com a medida q...
08/06/2026

Entre 2023 e 2025 estive dois anos sem escrever nesta página ou no meu blogue. Foi uma interrupção longa, com a medida quase exata de uma mudança de vida, durante a qual estes lugares deixaram de me chamar todos os dias e passaram a esperar, quietos, como cadernos fechados sobre uma secretária.

Durante mais de uma década, fiz das redes sociais uma extensão do meu trabalho com plantas. Usei-as com método, ousadia, tentativa, erro e alguma teimosia criativa, porque delas dependiam produtos, serviços, clientes, relações e futuro.

Escrevi, contei histórias, respondi, divulguei projetos, criei comunidades e reuni milhares de pessoas em torno de uma forma muito própria de comunicar o mundo vegetal.

Havia nessa fase uma disciplina quase agrícola. Era preciso semear, acompanhar, regar, mondar, colher. A comunicação tinha uma função concreta. Servia uma atividade económica, uma marca, uma equipa, uma sobrevivência. Depois veio uma pausa forçada.

Precisei deste tempo para me reinventar profissionalmente. Também as pessoas têm estações. O meu regresso à escrita obedece hoje a regras completamente distintas na forma de comunicar. É mais fiel à espuma dos meus dias. Mais próximo do espanto e menos obediente ao calendário.

Escrevo sobre plantas, essas companheiras de uma vida, que nunca exigem que lhes ofereça estados de alma, confissões íntimas ou grandes proclamações sobre mim próprio. As plantas acolhem ciência, memória, humor, paciência, dúvida e alguma ternura.

Perante elas, a atenção ganha outro peso. Uma folha basta para nos lembrar que o conhecimento começa muitas vezes nesse instante humilde em que deixamos de passar por cima do mundo e aceitamos ficar um pouco mais perto dele.

Continuo a estudar muito. Continuo a abrir livros, artigos, cadernos, memórias, histórias de uso, erros, certezas gastas e perguntas novas. Escrevo porque a experiência me trouxe uma evidência cada vez mais nítida. Quanto mais caminho por estes assuntos, mais se alarga a margem do que ignoro.

Talvez seja esta a melhor idade do conhecimento. A idade em que o saber deixa de se comportar como uma estante cheia e começa a parecer-se com uma janela aberta. A idade em que aprender deixa de ser acumular respostas e passa a ser afinar perguntas.

Há nisto uma sombra socrática, essa lucidez difícil de reconhecer a extensão do que não se sabe. E há também um parentesco com Montaigne, no modo de pensar a partir da experiência, da leitura, da dúvida e dessa conversa interior que nos impede de fechar a vida dentro de uma frase demasiado satisfeita consigo própria.

Muitas pessoas escrevem comentários generosos nos meus textos. Agradecem, elogiam, dizem que aprenderam. Fico feliz, claro. Seria vaidade fingir indiferença. Ainda assim, a generosidade que por vezes me atribuem é maior do que aquela que reconheço.

Escrevo primeiro para mim. Para voltar a assuntos que já esqueci. Para reaprender melhor. Para abrir um texto guardado como quem abre uma caixa de bombons e descobre que o prazer maior está em voltar a enchê-la com novos recheios.

Durante dias, semanas ou meses, um tema começa por me tocar ao de leve, quase sem importância, e depois regressa por vários caminhos, numa página sublinhada, numa conversa inesperada, numa memória que julgava arrumada. Aos poucos, torna-se impossível continuar a fingir que não me está a pedir estudo, tempo e escrita.

Dou por mim a segui-lo em livros, em conversas, numa frase apanhada na rua, numa memória de infância, num artigo científico, numa palavra de uso comum que conserva uma memória rural, numa dúvida que parecia pequena e afinal tinha raízes profundas.

Estudar tornou-se o meu passatempo favorito. Uma forma de recreio exigente. Um modo de viajar por dentro das coisas. Uma alegria que às vezes começa numa palavra e acaba numa floresta inteira de ligações.

Partilho depois estes textos porque as redes sociais, com toda a sua maquinaria de atenção fugaz, também podem cumprir uma função decente. Quando há gostos, comentários e partilhas, o algoritmo empurra-o para outros terrenos. Conheço bem esta mecânica. Usei-a durante anos com intenção profissional.

Hoje uso-a com outro tipo de curiosidade. Interessa-me menos o aplauso imediato e muito mais essa viagem imprevisível que um texto pode fazer até encontrar alguém que precisava dele sem saber.

Quando escrevo, o prazer maior mora noutro sítio. Não está no elogio ao conhecimento, nem na simpatia dedicada à minha persistência, nem nessa espécie de medalha frágil que as redes sociais penduram ao peito de quem escreve com regularidade.

Qualquer agrónomo atento, com boa formação, boas leituras e amor ao ofício, consegue partilhar informações de grande interesse, tão bem ou melhor do que eu. A ciência não me pertence. O vocabulário das plantas também não. Sou apenas alguém inclinado sobre esse herbário imenso que o mundo abre todos os dias, tentando não perder demasiadas páginas.

Também não escrevo movido pela figura solene do professor ou do mestre. Tenho enorme respeito por quem ensina com método, paciência e clareza, por quem se coloca diante dos seus discípulos com a responsabilidade de conduzir cada ideia até ao lugar certo. Mas essa não é a imagem que melhor me serve.

Quando escrevo, aproximo-me mais da figura de quem avança devagar por um caminho, atento ao que cresce nas bermas, disposto a interromper a pressa diante de uma folha, de um caule, de uma flor de nome ainda por perguntar.

Interessa-me esse instante em que uma planta comum deixa de ser apenas parte da paisagem e começa a revelar parentescos, usos, venenos, remédios, histórias, nomes esquecidos e pequenas estratégias de vida que a nossa distração tantas vezes não alcança.

O rigor continua a importar-me muito. Sem ele, qualquer texto sobre plantas depressa se enfeita demais e sustenta de menos. Procuro confirmar nomes, rever fontes, corrigir erros, distinguir tradição e fantasia, memória e prova, entusiasmo e exagero. Gosto da beleza das histórias, mas sei que uma história mal enraizada seca depressa.

Ainda assim, o rigor é apenas a raiz. A flor abre-se quando alguém, depois de ler um texto, demora mais o olhar numa árvore de rua, passa a reconhecer numa erva do passeio uma pequena biografia vegetal, encontra numa infusão uma viagem de séculos ou descobre numa flor discreta uma espécie de companhia que antes lhe passava despercebida.

É aí que encontro a minha verdadeira recompensa. Ela nasce nesta mudança quase impercetível que um texto pode provocar na consciência de outra pessoa.

Uma palavra pousa aqui, uma imagem germina ali, uma curiosidade cria raiz mais adiante. E, de repente, uma planta que era apenas fundo de cenário passa a ter nome, biografia, utilidade, veneno, perfume, parentesco, viagem, mistério.

Talvez escrever sobre plantas seja isto para mim. Um exercício de aproximação. Uma forma de colocar pequenas lentes no mundo para o tornar mais legível, mais habitável, mais povoado de vida.

Para que os meus leitores descubram que vivem rodeados por seres que partilham connosco o ar e a história, alimentam a nossa vida, curam e ferem, acompanham rituais, atravessam cozinhas, remédios, mitos, jardins, baldios e memórias familiares.

Se um texto meu conseguir fazer alguém abrandar diante de uma folha, de uma casca, de um aroma ou de uma semente, já fez mais do que eu me atreveria a pedir.

O que mais me comove acontece por vezes muito tempo depois. Chega-me uma mensagem a dizer que uma planta antes despercebida passou a existir de outra maneira para quem a cruzou.

Chegam também relatos de uma criança que se inclina pela primeira vez diante de uma planta com verdadeira curiosidade, de uma memória familiar que desperta à boleia de um aroma, de uma folha, de um fruto ou de uma palavra esquecida, ou dessa descoberta simples de que o mundo vegetal nunca esteve longe, apenas permaneceu demasiado tempo sem tradução.

Nestes momentos, percebo que a escrita tocou o seu ponto mais delicado. A relação deslocou-se um pouco. O mundo vegetal entrou um pouco mais fundo na consciência de alguém. E talvez seja isso que me move.

Há nesta hipótese discreta qualquer coisa que me prende. A capacidade de um texto alterar, ainda que ligeiramente, a perceção de alguém sobre o mundo vegetal, devolvendo corpo, nome e espessura à natureza próxima, essa que nos roça os sapatos, encosta às janelas, rompe nos muros, insiste nos baldios e respira nos jardins.

Há aqui uma espécie de egoísmo fértil, assumo. Escrevo porque aprender me dá prazer. Partilho porque imagino que esse prazer possa ganhar vida noutro corpo, noutro olhar, noutra caminhada.

Escrevo primeiro para me orientar dentro do meu próprio espanto. Publico depois para que o texto ganhe caminho, encontre outras mãos, outras memórias, outras infâncias, outros jardins.

A partir daí, segue viagem. Como uma semente de dente-de-leão (Taraxacum officinale) quando se desprende e confia ao ar a hipótese de encontrar chão. Como certas ideias, leves apenas na aparência. Como certas plantas, discretas no começo, persistentes quando descobrem a mais pequena abertura no solo.

Esse gesto de quem se curva sobre uma folha como quem encontra uma notícia que o mundo guardava em segredo interessa-me mais do que qualquer aplauso. Também essa curiosidade de quem suspeita que uma planta pode guardar mais filosofia do que muitos tratados, mais humor do que muitas conversas graves, mais futuro do que muitas promessas apressadas.

E talvez seja por isso que a minha escrita me saiba agora a liberdade. A alegria de estudar sem a obrigação de vender, de escrever sem a obrigação de convencer, de partilhar sem transformar cada frase numa montra.

Continuarei a escrever enquanto este caminho me divertir, me ensinar e me obrigar a duvidar. Escreverei sobre aquilo que cresce, resiste, perfuma, alimenta, engana, cura, invade, desaparece ou regressa quando já ninguém esperava.

Escreverei porque há plantas que pedem história, ciência, cuidado, ou apenas a delicadeza de alguém reparar nelas antes de desaparecerem do passeio, do campo ou da memória.

Talvez seja apenas isto. Deixar cada texto seguir com o que leva dentro: estudo, prazer, dúvida e uma centelha de espanto. Se, desse encontro, o mundo vegetal ganhar um pouco mais de presença em quem lê, então a escrita não termina em mim.

E eu, que comecei por escrever para aprender, descubro nesse pequeno estremecimento da consciência alheia uma das formas mais bonitas de continuar a aprender também.

Nas montanhas do Norte de Portugal, onde o vento percorre os lameiros e as urzes florescem entre as pedras, cruzam-se po...
06/06/2026

Nas montanhas do Norte de Portugal, onde o vento percorre os lameiros e as urzes florescem entre as pedras, cruzam-se por vezes destinos que a história moldou durante séculos.

De um lado, o garrano, pequeno cavalo serrano, resistente e adaptado à vida nas encostas graníticas.

Do outro, o touro barrosão, herdeiro de uma raça bovina profundamente ligada às Terras de Barroso e aos sistemas agropastoris que ajudaram a construir a paisagem que hoje conhecemos.

O gesto do jovem cavalo traduz um instante de reconhecimento entre duas raças autóctones que há gerações percorrem as montanhas do Norte de Portugal, moldando com o seu pastoreio os mosaicos de pastagens e matos característicos destas serras.

Nesta breve carícia encontram-se a curiosidade da juventude e a serenidade da maturidade. O garrano procura conhecer o mundo que o rodeia. O touro maduro aceita a sua aproximação.

Ao longo dos séculos, os grandes herbívoros contribuíram para desenhar as paisagens culturais que ainda hoje marcam muitas serras portuguesas.

Nesta imagem surgem duas expressões vivas do património genético nacional, moldadas pelo clima, pelo relevo e pelo trabalho de muitas gerações de criadores.

Um breve encontro que evoca a longa relação entre os habitantes destas montanhas, os seus animais e a terra que, em conjunto, ajudaram a transformar e conservar.

“O senhor da terra é aqueleque mede a sua profundidadee esquece no seu seiotoda a mágoa.Com ela está em uniãoe intimamen...
06/06/2026

“O senhor da terra é aquele
que mede a sua profundidade
e esquece no seu seio
toda a mágoa.

Com ela está em união
e intimamente confia.
E ela incendeia-o de paixão
como se fosse sua prometida.”

Novalis (Heinrich von Ofterdingen)

Hoje, Dia Mundial do Ambiente, algures em Terras de Barroso, comovi-me diante deste postal ilustrado de Portugal.Uma cas...
05/06/2026

Hoje, Dia Mundial do Ambiente, algures em Terras de Barroso, comovi-me diante deste postal ilustrado de Portugal.

Uma casa humilde, pedra, cal, portas vermelhas gastas, céu aberto, com uma roseira monumental, uma esfera viva de flores brancas e rosadas. Um poema pendente sobre a fachada.

Esta região é uma das mais extraordinárias do nosso país. O sistema Agro-Silvo-Pastoril do Barroso, que integra esta região, é reconhecido pela FAO como património agrícola mundial.

Aqui vive-se esta rara aliança entre comunidades, lameiros, pastagens, gado, matos, montanha e água.

A paisagem ainda sabe guardar a chuva, conduzi-la por regos, entregá-la aos lameiros, devolvê-la aos rios, mantê-la viva nas raízes.

Esta roseira tem de ser uma das primeiras a conservar no futuro jardim botânico dos meus sonhos. Um jardim das roseiras abandonadas, da flora portuguesa, da memória rural e da água que atravessa muros, campos, bosques e aldeias.

Recordo muitas vezes o Eden Project, na Cornualha, nascido numa mina de caulino desativada.

Nesse vazio mineral, ergueu-se um lugar para mostrar algumas das plantas mais importantes do mundo, com solos fabricados a partir de materiais considerados resíduos, água da chuva e biomas que se tornaram escola, jardim, arquitetura e espanto.

Hoje, o Eden Project é apresentado como um símbolo mundial de regeneração e renovação.

Recebeu mais de 25 milhões de visitantes e gerou mais de 6,8 mil milhões de libras de impacto económico na Cornualha e no sudoeste de Inglaterra.

Quando visitei o Eden Project, fiquei de boca aberta ao entrar no Bioma Mediterrânico.

Dentro daquela paisagem reinventada podemos calcorrear uma belíssima recriação de um agrossistema mediterrânico, com oliveiras, vinhas, ervas aromáticas e papoilas.

Todos os anos chega gente do mundo inteiro para ver aquilo que, para nós, tantas vezes é tratado como banal. Um fragmento de paisagem que reconhecemos desde sempre, convertido ali em espanto, conhecimento e valor.

Foi uma lição extraordinária. A paisagem quotidiana, quando é compreendida, cuidada e narrada, pode tornar-se património, pedagogia, economia e futuro.

Este exemplo mostra que uma paisagem ferida pode voltar a gerar cultura, conhecimento, visitação, trabalho e esperança.

Antes de abrir novas feridas à montanha, importa olhar para aquilo que já existe à superfície e perceber a riqueza que pode ser restaurada, cuidada e partilhada.

No Barroso também precisamos desta coragem. Coragem política, institucional e imaginação económica para olhar para a montanha como capital vivo.

Cultivar floresta, cultivar água e cultivar jardins pode criar riqueza, fixar pessoas, atrair conhecimento, dar trabalho, valorizar aldeias, recuperar lameiros, cuidar das nascentes e transformar esta região num exemplo para o mundo.

Aqui poderíamos fazer o maior projeto de restauro ecológico do país. Um projeto que começasse pela regeneração, pelo cuidado e pela permanência da vida.

Que olhasse para a água como património, para os solos como ventre, para os lameiros como esponjas, para as sebes como abrigo, para os bosques como promessa e para as aldeias como lugares onde o futuro ainda pode morar.

Cultivar água é devolver tempo à paisagem. É pedir às encostas que voltem a segurar a chuva, aos solos que voltem a guardar vida, aos lameiros que retomem o seu ofício de esponja, às sebes que protejam o vento, aos bosques que abrandem a pressa da água, às raízes que prendam futuro.

O país precisa de mais jardins. Jardins que conservem plantas, convoquem pessoas, criem riqueza e ajudem as paisagens a respirar.

Talvez um futuro possível comece assim, com uma roseira a florir sobre uma casa humilde, no coração de uma região que merece ser tratada como uma fonte de vida, um jardim e um legado para as gerações futuras.

Um lugar onde a água, a biodiversidade, a cultura e a beleza sejam reconhecidas como aquilo que sempre foram, riqueza.

Esta poderá ser a mais bela herança que podemos deixar a quem vier depois de nós.

A Maria Cramês deverá provavelmente ter descoberto a fórmula da juventude. Como assim, 50 anos? Não pode ser… Será dos p...
05/06/2026

A Maria Cramês deverá provavelmente ter descoberto a fórmula da juventude. Como assim, 50 anos? Não pode ser…

Será dos picles e vegetais fermentados? Da saudável alimentação de base vegetal cultivada ao longo dos últimos 25 anos? Ou terá simplesmente tido a sorte rara de lhe sair a lotaria genética, combinada com uma disciplina serena, uma elegância natural e uma alegria luminosa de viver?

Há pessoas que envelhecem. E depois há pessoas como tu. Em ti, os anos parecem acrescentar luz. Há qualquer coisa de profundamente inspirador na forma como vives e na maneira generosa como te entregas aos outros.

Continuas incrivelmente jovem, física e mentalmente, com uma energia rara, um sorriso que ilumina qualquer lugar e uma capacidade quase mágica de tornar a vida dos que te rodeiam mais leve, mais bonita e mais feliz, sem nunca perderes a delicadeza, a curiosidade e o encanto.

Ao longo destes anos transformámos sonhos, desafios e esperança numa vida extraordinária. Cultivámos plantas, sonhos, projetos, resiliência, esperança e amor. Atravessámos tempestades e mares difíceis, sempre guiados por essa luz tranquila que tens dentro de ti e que faz de qualquer lugar um porto seguro.

Às vezes continuo a achar que não és completamente deste planeta. Como escrevi um dia, talvez tenhas vindo das estrelas. E talvez seja precisamente por isso que o tempo pareça não conseguir alcançar-te da mesma forma que alcança os comuns mortais.

Tenho o privilégio imenso de seguir ao teu lado por este caminho incrível que construímos juntos. E quanto mais os anos passam, mais maravilhosa se torna a viagem.

Feliz 50.º aniversário, meu amor. Que o Universo continue a conservar-te assim, luminosa, jovem, livre e absolutamente inesquecível.

Nos meus tempos de estudante na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em meados da década de 1990, havia um sinal...
04/06/2026

Nos meus tempos de estudante na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em meados da década de 1990, havia um sinal inequívoco de que julho se aproximava.

O perfume das tílias espalhava-se pelas ruas de Vila Real e envolvia a cidade inteira numa espécie de nuvem aromática impossível de ignorar. O aroma era por vezes tão intenso que chegava a tornar-se quase sufocante.

Hoje reencontro esse mesmo perfume com um encanto renovado, junto à tília-de-folha-pequena (Tilia cordata) mais florida que alguma vez vi.

Tinha tantas flores que as folhas pareciam ter desaparecido sob uma maré dourada e exuberante.

O mais surpreendente é que estas árvores se encontram em plena floração cerca de duas a três semanas antes do que seria habitual para esta região.

Este adiantamento está em linha com as alterações fenológicas observadas em muitas espécies arbóreas europeias, cuja floração tem ocorrido progressivamente mais cedo devido ao aumento das temperaturas médias associado ao fenómeno das alterações climáticas.

A natureza continua a surpreender-nos, mas também a deixar sinais claros de que o mundo à nossa volta está a mudar.

Ainda bem que hoje não é dia de exame. Há trinta anos, este aroma anunciava noites mal dormidas, apontamentos espalhados pela secretária e alguma ansiedade. Hoje limita-se a lembrar-me que sobrevivi a tudo isso.

Em Portugal ainda subsistem centenas de variedades hortícolas e fruteiras que transportam consigo histórias, memórias e ...
04/06/2026

Em Portugal ainda subsistem centenas de variedades hortícolas e fruteiras que transportam consigo histórias, memórias e uma ligação profunda aos territórios onde foram selecionadas e adaptadas ao longo de gerações.

Muitas continuam inscritas nos catálogos nacionais de variedades agrícolas e fruteiras, preservadas graças ao trabalho de agricultores, viveiristas, investigadores, associações e guardiões de sementes que recusaram deixar desaparecer aquilo que receberam das gerações anteriores.

Quando percorremos os registos oficiais descobrimos um país agrícola muito mais diverso do que aquele que habitualmente encontramos nas prateleiras dos supermercados.

Entre as variedades que continuam registadas nos catálogos nacionais encontram-se nomes como cebolas Garrafal, Setúbal Portuguesa e Vermelha de Povairão. Feijões Bragançano, Tarreste, Patareco e C***o de Carneiro.

Couves Penca de Chaves e Penca de Mirandela. Cenouras Pau Roxo das Seis Marias. Abóboras Moganga de Geraz, Moncarapacho e Bornes. Nas fruteiras aparecem maçãs Bravo de Esmolfe, Camoesas, Malápios e Porta da Loja.

Cerejas de S**o, figos Pingo de Mel e Lampa Preta, peras São Bartolomeu, Sete Cotovelos, castanhas Judia, Longal e Martaínha e muitas outras variedades que continuam vivas em pomares, hortas e pequenas explorações agrícolas espalhadas pelo território.

Estas são apenas algumas das muitas variedades tradicionais que continuam registadas nos catálogos nacionais. Muitas destas variedades quase desapareceram dos circuitos habituais de comercialização, apesar de continuarem presentes em explorações familiares e em redes locais de conservação e troca.

Em muitos casos, a sua área de cultivo reduziu-se drasticamente ao longo das últimas décadas, acompanhando as transformações da agricultura e dos mercados alimentares.

Apesar disso, algumas continuam presentes em mercados locais, feiras rurais e pequenas lojas de província. Outras sobrevivem apenas em quintais, hortas familiares, pomares envelhecidos, coleções de conservação e sementes guardadas dentro de frascos de vidro ou envelopes escritos à mão.

Há maçãs que mudam de nome de aldeia para aldeia. Feijões conhecidos apenas pelo nome da família que os cultiva há décadas. Couves que nunca precisaram de rótulo porque bastava dizer “aquela da nossa horta”.

Há pereiras que resistem junto a muros de granito, figueiras que continuam a amadurecer em eiras abandonadas e castanheiros cujas variedades ainda são conhecidas por nomes transmitidos de geração em geração, testemunhando uma diversidade agrícola muito mais vasta do que aquela que habitualmente chega aos mercados.

A comunidade científica tem vindo a alertar para a erosão genética agrícola, ou seja, para a perda gradual da diversidade genética presente nas plantas cultivadas.

Cada variedade que desaparece representa também a perda de sabores, adaptações ao clima, resistência a doenças, memória cultural e conhecimento agrícola acumulado ao longo de muitas gerações.

Para além do seu valor histórico e cultural, estas variedades constituem uma importante reserva de características genéticas que poderá ajudar a enfrentar desafios futuros, incluindo alterações climáticas, novas doenças e mudanças nas preferências dos consumidores.

Em Portugal existem bancos de germoplasma, onde milhares de amostras de sementes e outros recursos genéticos vegetais são conservados para o futuro, bem como coleções vivas, projetos de investigação e redes de conservação dedicadas à proteção deste património.

No terreno, agricultores e pequenas empresas de sementes continuam a multiplicar estas variedades e a partilhá-las através de trocas, feiras e pequenas redes locais.

Mas nenhuma coleção consegue substituir por completo uma variedade cultivada no terreno, observada ao longo das estações e integrada na vida das comunidades que a preservam.

Embora muitas destas variedades estejam hoje representadas nos catálogos nacionais e em coleções de conservação, a sua verdadeira sobrevivência depende da continuidade do cultivo.

Uma variedade deixa de ser apenas uma entrada num registo quando continua a produzir alimento, a adaptar-se às condições locais e a fazer parte da vida das pessoas que a cultivam.

Por isso quero lançar-lhe um desafio para a época de produção e colheita de 2026. Entre junho e outubro, observe com mais atenção as hortas, pomares e mercados que cruzarem o seu caminho. Procure estas variedades tradicionais portuguesas.

Fotografe as plantas ao longo das diferentes fases do seu ciclo, desde a formação dos frutos até à colheita, sempre que possível.

Fotografe os frutos, as bancas das feiras, as sementes guardadas, os sacos de serapilheira cheios de feijão, as abóboras pousadas à entrada das adegas, as maçãs alinhadas em caixas de madeira, os tomates de formas imperfeitas, as couves enormes junto aos poços.

Se cultiva alguma destas variedades, envie-me imagens. Se as encontrar à venda, fotografe-as. Se souber o nome local, partilhe-o. Se conhecer histórias ligadas a essas plantas, conte-as.

Gostava de reunir, ao longo desta época agrícola, um grande arquivo coletivo da diversidade cultivada portuguesa que ainda resiste no território. Cada imagem poderá ajudar a documentar a presença destas variedades e a compreender melhor a forma como ainda se distribuem pelo território.

Sempre que possível, envie também a localidade, o mês da colheita e o nome pelo qual a variedade é conhecida na região. Se existir correspondência com o nome oficial do catálogo nacional, melhor ainda. Muitas vezes será precisamente esta diferença entre o nome técnico e o nome popular que ajudará a contar a história da planta.

Talvez descubra variedades que julgava desaparecidas. Talvez perceba que algumas continuam vivas em lugares inesperados. Talvez esta partilha ajude agricultores, viveiristas e guardiões de sementes a reencontrarem plantas e variedades que procuram há muitos anos.

E talvez consigamos mostrar que, por detrás da aparente uniformidade dos mercados modernos, continua a existir um Portugal agrícola rico em diversidade, memória e vida, guardado em sementes, árvores e pessoas que, todos os dias, mantêm vivo um património que pertence a todos nós.

Há plantas que acabam por ficar ligadas aos momentos mais marcantes do nosso percurso, como se passassem a fazer parte d...
03/06/2026

Há plantas que acabam por ficar ligadas aos momentos mais marcantes do nosso percurso, como se passassem a fazer parte da nossa própria biografia.

A equinácea (Echinacea purpurea), originária das pradarias e clareiras de bosque do leste da América do Norte, ergue-se no verão sobre caules eretos e robustos, coroada por inflorescências de tons rosados e por um cone central proeminente e pontiagudo que atrai abelhas, borboletas e inúmeros polinizadores.

É uma planta vivaz amplamente reconhecida pelas suas propriedades medicinais e estudada em todo o mundo pela riqueza dos compostos bioativos que acumula nas flores, folhas e raízes.

Ao longo da minha vida, colaborei em centenas de estudos científicos, em Portugal e no estrangeiro, disponibilizando amostras de dezenas de espécies de plantas medicinais para universidades, centros de investigação e empresas.

Em cada envio seguia muito mais do que material vegetal. Seguiam anos de observação, ensaio, seleção e cultivo. Seguia o conhecimento adquirido no contacto diário com as plantas, construído estação após estação, e a esperança de que aquelas folhas, flores, sementes ou raízes pudessem contribuir para responder a questões que a ciência procurava ainda desvendar.

Entre todos esses trabalhos, houve um que jamais esquecerei. Durante a pandemia de COVID-19, fui contactado pelo Centro de Biotecnologia e Química Fina (CBQF) da Universidade Católica Portuguesa, no Porto, para disponibilizar amostras de várias espécies vegetais, entre elas a equinácea.

O seu destino foi o projeto PLANTCOVID – Aplicações de Extratos de Plantas com Ação Dirigida ao SARS-CoV-2, desenvolvido em parceria com o Instituto Politécnico de Bragança, o Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes e a Next Generation Chemistry.

Os investigadores verificaram que um dos extratos estudados apresentava uma elevada capacidade antioxidante e uma atividade antiviral muito expressiva em ensaios laboratoriais de contacto direto com SARS-CoV-2, alcançando uma redução superior a 99,99% da atividade viral nas condições experimentais avaliadas.

Tratava-se de resultados obtidos em laboratório, com potencial para futuras aplicações de proteção e desinfeção, abrindo caminho ao aproveitamento dos compostos naturais destas plantas.

Entre os compostos identificados encontravam-se o ácido caftárico e o ácido chicórico, dois dos constituintes mais característicos da equinácea.

Naqueles meses de incerteza, quando o mundo procurava respostas para um vírus que alterara profundamente a vida de todos nós, saber que extratos obtidos a partir de plantas cultivadas em Portugal tinham demonstrado uma atividade antiviral tão relevante foi uma notícia difícil de descrever em palavras.

Mais do que números ou resultados laboratoriais, representava a possibilidade de as plantas continuarem a inspirar novas soluções num dos maiores desafios de saúde pública da nossa geração.

Recordo com nitidez o momento em que recebi esta informação. Foi um daqueles instantes raros em que muitos anos de dedicação encontraram finalmente um sentido mais amplo.

Durante alguns segundos, passaram-me pela memória os campos de cultivo, as colheitas, as horas passadas a observar plantas e a aprender com elas. Percebi que todo este percurso tinha contribuído, ainda que de forma modesta, para um esforço coletivo de conhecimento num dos períodos mais exigentes da história recente.

Talvez por isso a equinácea tenha conquistado um lugar especial na nossa casa. No inverno bebemos com regularidade a sua infusão, seguindo uma tradição que acompanha esta planta há gerações, e partilhamos este pequeno ritual em família.

Não se trata apenas de uma bebida. Em cada chávena reencontro a mesma planta sob uma nova forma. Já não apenas como a flor exuberante que iluminava o campo durante o verão, mas também como o resultado de séculos de utilização tradicional e décadas de investigação científica.

A fotografia que acompanha este texto é uma das mais belas alguma vez captadas nos meus campos de cultivo, que foram os primeiros e, durante muito tempo, os únicos campos de produção de equinácea em Portugal.

Sempre que a observo, vejo muito mais do que uma flor visitada por uma borboleta. Vejo a biodiversidade em ação, o diálogo permanente entre plantas e polinizadores e a extraordinária capacidade da natureza para despertar curiosidade, gerar conhecimento e inspirar novas descobertas.

É nesta ligação entre o campo e o laboratório, entre a experiência prática e a investigação científica, que reconheço uma parte importante da minha vida dedicada às plantas medicinais.

Realiza-se hoje, no Instituto Superior de Agronomia, a apresentação do Plano Nacional de Restauro da Natureza.Fui honrad...
02/06/2026

Realiza-se hoje, no Instituto Superior de Agronomia, a apresentação do Plano Nacional de Restauro da Natureza.

Fui honrado com o convite da Senhora Ministra do Ambiente e Energia e do Presidente do Conselho Diretivo do ICNF para estar presente nesta cerimónia. Infelizmente, por razões de agenda, não me será possível marcar presença.

Acompanho este momento com particular interesse e satisfação, por ter integrado, nos últimos meses, a Rede de Conhecimento para o Restauro da Natureza e por ter contribuído para o trabalho técnico de apoio ao Grupo de Trabalho coordenado pelo ICNF.

Portugal enfrenta alguns dos maiores desafios ambientais das últimas décadas. As alterações climáticas, a degradação dos ecossistemas, a perda de biodiversidade, os incêndios rurais, a erosão dos solos, a escassez de água e a crescente exposição a fenómenos extremos exigem respostas estruturadas, assentes no melhor conhecimento científico disponível e numa visão de longo prazo.

O restauro da natureza não deve ser entendido apenas como uma obrigação decorrente do Regulamento Europeu do Restauro da Natureza. É uma oportunidade para tornar o território mais resiliente, reduzir riscos, proteger pessoas e atividades económicas e reforçar os serviços dos ecossistemas dos quais todos dependemos.

Entre as soluções disponíveis, importa valorizar abordagens como a regeneração natural assistida, muitas vezes mais ecológicas, resilientes e economicamente eficientes do que intervenções baseadas exclusivamente na plantação.

Importa também assegurar que os projetos de restauro ecológico utilizem sementes e plantas de proveniência local e que sejam desenvolvidos com rigor técnico, monitorização adequada e envolvimento dos proprietários, municípios, empresas e cidadãos.

Num país marcado pela fragmentação da propriedade e pelo abandono de muitos territórios rurais, o sucesso do restauro dependerá da capacidade de mobilizar conhecimento, financiamento, cooperação e gestão à escala da paisagem.

O verdadeiro valor destes investimentos não reside apenas no carbono. Reside na recuperação do solo, da água, da biodiversidade, da resiliência ao fogo e da qualidade ecológica dos territórios.

Proteger a natureza não é um luxo nem uma opção ideológica. É uma decisão estratégica, informada e racional. No fim, restaurar a natureza é investir no futuro de Portugal e na qualidade de vida das próximas gerações.

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Vila Nova De Gaia

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