08/06/2026
Entre 2023 e 2025 estive dois anos sem escrever nesta página ou no meu blogue. Foi uma interrupção longa, com a medida quase exata de uma mudança de vida, durante a qual estes lugares deixaram de me chamar todos os dias e passaram a esperar, quietos, como cadernos fechados sobre uma secretária.
Durante mais de uma década, fiz das redes sociais uma extensão do meu trabalho com plantas. Usei-as com método, ousadia, tentativa, erro e alguma teimosia criativa, porque delas dependiam produtos, serviços, clientes, relações e futuro.
Escrevi, contei histórias, respondi, divulguei projetos, criei comunidades e reuni milhares de pessoas em torno de uma forma muito própria de comunicar o mundo vegetal.
Havia nessa fase uma disciplina quase agrícola. Era preciso semear, acompanhar, regar, mondar, colher. A comunicação tinha uma função concreta. Servia uma atividade económica, uma marca, uma equipa, uma sobrevivência. Depois veio uma pausa forçada.
Precisei deste tempo para me reinventar profissionalmente. Também as pessoas têm estações. O meu regresso à escrita obedece hoje a regras completamente distintas na forma de comunicar. É mais fiel à espuma dos meus dias. Mais próximo do espanto e menos obediente ao calendário.
Escrevo sobre plantas, essas companheiras de uma vida, que nunca exigem que lhes ofereça estados de alma, confissões íntimas ou grandes proclamações sobre mim próprio. As plantas acolhem ciência, memória, humor, paciência, dúvida e alguma ternura.
Perante elas, a atenção ganha outro peso. Uma folha basta para nos lembrar que o conhecimento começa muitas vezes nesse instante humilde em que deixamos de passar por cima do mundo e aceitamos ficar um pouco mais perto dele.
Continuo a estudar muito. Continuo a abrir livros, artigos, cadernos, memórias, histórias de uso, erros, certezas gastas e perguntas novas. Escrevo porque a experiência me trouxe uma evidência cada vez mais nítida. Quanto mais caminho por estes assuntos, mais se alarga a margem do que ignoro.
Talvez seja esta a melhor idade do conhecimento. A idade em que o saber deixa de se comportar como uma estante cheia e começa a parecer-se com uma janela aberta. A idade em que aprender deixa de ser acumular respostas e passa a ser afinar perguntas.
Há nisto uma sombra socrática, essa lucidez difícil de reconhecer a extensão do que não se sabe. E há também um parentesco com Montaigne, no modo de pensar a partir da experiência, da leitura, da dúvida e dessa conversa interior que nos impede de fechar a vida dentro de uma frase demasiado satisfeita consigo própria.
Muitas pessoas escrevem comentários generosos nos meus textos. Agradecem, elogiam, dizem que aprenderam. Fico feliz, claro. Seria vaidade fingir indiferença. Ainda assim, a generosidade que por vezes me atribuem é maior do que aquela que reconheço.
Escrevo primeiro para mim. Para voltar a assuntos que já esqueci. Para reaprender melhor. Para abrir um texto guardado como quem abre uma caixa de bombons e descobre que o prazer maior está em voltar a enchê-la com novos recheios.
Durante dias, semanas ou meses, um tema começa por me tocar ao de leve, quase sem importância, e depois regressa por vários caminhos, numa página sublinhada, numa conversa inesperada, numa memória que julgava arrumada. Aos poucos, torna-se impossível continuar a fingir que não me está a pedir estudo, tempo e escrita.
Dou por mim a segui-lo em livros, em conversas, numa frase apanhada na rua, numa memória de infância, num artigo científico, numa palavra de uso comum que conserva uma memória rural, numa dúvida que parecia pequena e afinal tinha raízes profundas.
Estudar tornou-se o meu passatempo favorito. Uma forma de recreio exigente. Um modo de viajar por dentro das coisas. Uma alegria que às vezes começa numa palavra e acaba numa floresta inteira de ligações.
Partilho depois estes textos porque as redes sociais, com toda a sua maquinaria de atenção fugaz, também podem cumprir uma função decente. Quando há gostos, comentários e partilhas, o algoritmo empurra-o para outros terrenos. Conheço bem esta mecânica. Usei-a durante anos com intenção profissional.
Hoje uso-a com outro tipo de curiosidade. Interessa-me menos o aplauso imediato e muito mais essa viagem imprevisível que um texto pode fazer até encontrar alguém que precisava dele sem saber.
Quando escrevo, o prazer maior mora noutro sítio. Não está no elogio ao conhecimento, nem na simpatia dedicada à minha persistência, nem nessa espécie de medalha frágil que as redes sociais penduram ao peito de quem escreve com regularidade.
Qualquer agrónomo atento, com boa formação, boas leituras e amor ao ofício, consegue partilhar informações de grande interesse, tão bem ou melhor do que eu. A ciência não me pertence. O vocabulário das plantas também não. Sou apenas alguém inclinado sobre esse herbário imenso que o mundo abre todos os dias, tentando não perder demasiadas páginas.
Também não escrevo movido pela figura solene do professor ou do mestre. Tenho enorme respeito por quem ensina com método, paciência e clareza, por quem se coloca diante dos seus discípulos com a responsabilidade de conduzir cada ideia até ao lugar certo. Mas essa não é a imagem que melhor me serve.
Quando escrevo, aproximo-me mais da figura de quem avança devagar por um caminho, atento ao que cresce nas bermas, disposto a interromper a pressa diante de uma folha, de um caule, de uma flor de nome ainda por perguntar.
Interessa-me esse instante em que uma planta comum deixa de ser apenas parte da paisagem e começa a revelar parentescos, usos, venenos, remédios, histórias, nomes esquecidos e pequenas estratégias de vida que a nossa distração tantas vezes não alcança.
O rigor continua a importar-me muito. Sem ele, qualquer texto sobre plantas depressa se enfeita demais e sustenta de menos. Procuro confirmar nomes, rever fontes, corrigir erros, distinguir tradição e fantasia, memória e prova, entusiasmo e exagero. Gosto da beleza das histórias, mas sei que uma história mal enraizada seca depressa.
Ainda assim, o rigor é apenas a raiz. A flor abre-se quando alguém, depois de ler um texto, demora mais o olhar numa árvore de rua, passa a reconhecer numa erva do passeio uma pequena biografia vegetal, encontra numa infusão uma viagem de séculos ou descobre numa flor discreta uma espécie de companhia que antes lhe passava despercebida.
É aí que encontro a minha verdadeira recompensa. Ela nasce nesta mudança quase impercetível que um texto pode provocar na consciência de outra pessoa.
Uma palavra pousa aqui, uma imagem germina ali, uma curiosidade cria raiz mais adiante. E, de repente, uma planta que era apenas fundo de cenário passa a ter nome, biografia, utilidade, veneno, perfume, parentesco, viagem, mistério.
Talvez escrever sobre plantas seja isto para mim. Um exercício de aproximação. Uma forma de colocar pequenas lentes no mundo para o tornar mais legível, mais habitável, mais povoado de vida.
Para que os meus leitores descubram que vivem rodeados por seres que partilham connosco o ar e a história, alimentam a nossa vida, curam e ferem, acompanham rituais, atravessam cozinhas, remédios, mitos, jardins, baldios e memórias familiares.
Se um texto meu conseguir fazer alguém abrandar diante de uma folha, de uma casca, de um aroma ou de uma semente, já fez mais do que eu me atreveria a pedir.
O que mais me comove acontece por vezes muito tempo depois. Chega-me uma mensagem a dizer que uma planta antes despercebida passou a existir de outra maneira para quem a cruzou.
Chegam também relatos de uma criança que se inclina pela primeira vez diante de uma planta com verdadeira curiosidade, de uma memória familiar que desperta à boleia de um aroma, de uma folha, de um fruto ou de uma palavra esquecida, ou dessa descoberta simples de que o mundo vegetal nunca esteve longe, apenas permaneceu demasiado tempo sem tradução.
Nestes momentos, percebo que a escrita tocou o seu ponto mais delicado. A relação deslocou-se um pouco. O mundo vegetal entrou um pouco mais fundo na consciência de alguém. E talvez seja isso que me move.
Há nesta hipótese discreta qualquer coisa que me prende. A capacidade de um texto alterar, ainda que ligeiramente, a perceção de alguém sobre o mundo vegetal, devolvendo corpo, nome e espessura à natureza próxima, essa que nos roça os sapatos, encosta às janelas, rompe nos muros, insiste nos baldios e respira nos jardins.
Há aqui uma espécie de egoísmo fértil, assumo. Escrevo porque aprender me dá prazer. Partilho porque imagino que esse prazer possa ganhar vida noutro corpo, noutro olhar, noutra caminhada.
Escrevo primeiro para me orientar dentro do meu próprio espanto. Publico depois para que o texto ganhe caminho, encontre outras mãos, outras memórias, outras infâncias, outros jardins.
A partir daí, segue viagem. Como uma semente de dente-de-leão (Taraxacum officinale) quando se desprende e confia ao ar a hipótese de encontrar chão. Como certas ideias, leves apenas na aparência. Como certas plantas, discretas no começo, persistentes quando descobrem a mais pequena abertura no solo.
Esse gesto de quem se curva sobre uma folha como quem encontra uma notícia que o mundo guardava em segredo interessa-me mais do que qualquer aplauso. Também essa curiosidade de quem suspeita que uma planta pode guardar mais filosofia do que muitos tratados, mais humor do que muitas conversas graves, mais futuro do que muitas promessas apressadas.
E talvez seja por isso que a minha escrita me saiba agora a liberdade. A alegria de estudar sem a obrigação de vender, de escrever sem a obrigação de convencer, de partilhar sem transformar cada frase numa montra.
Continuarei a escrever enquanto este caminho me divertir, me ensinar e me obrigar a duvidar. Escreverei sobre aquilo que cresce, resiste, perfuma, alimenta, engana, cura, invade, desaparece ou regressa quando já ninguém esperava.
Escreverei porque há plantas que pedem história, ciência, cuidado, ou apenas a delicadeza de alguém reparar nelas antes de desaparecerem do passeio, do campo ou da memória.
Talvez seja apenas isto. Deixar cada texto seguir com o que leva dentro: estudo, prazer, dúvida e uma centelha de espanto. Se, desse encontro, o mundo vegetal ganhar um pouco mais de presença em quem lê, então a escrita não termina em mim.
E eu, que comecei por escrever para aprender, descubro nesse pequeno estremecimento da consciência alheia uma das formas mais bonitas de continuar a aprender também.